A minha antiga colega Margarida Antunes decidiu organizar uma pequena colecção de textos à volta do chamado teorema de Ricardo, o princípio das vantagens comparadas, o suporte teórico dos defensores, hoje, da actual globalização e da liberdade total de comércio, caderno este editado no âmbito da cadeira de Economia Internacional, da licenciatura em Economia, daqui, da ainda nossa Faculdade de Economia
Trata-se de um caderno de textos importantes, em que tomando como base este teorema se discute de forma muito rigorosa mas clara a sua validade hoje, tendo como base os seus múltiplos pressupostos e a aderência que estes terão ou não à realidade que está subjacente ao mundo globalizado. Mais ainda, onde se discute também a mentira dos neoliberais de hoje sobre a necessidade inelutável dos modelos de crescimento via exportações via concorrência mundial, o mercantilismo dos Colbert visto através da China e da Alemanha, como se a Europa não fosse ela capaz de aprofundar o mercado interno e dinamizar o crescimento económico, a única via de saída possível para a crise.
Pediu-me um prefácio a esta colecção em boa hora disponibilizada aos nossos estudantes, pediu-me um prefácio talvez curto mas que ajudasse os estudantes na leitura dos textos apresentados. Aceitei, desonestamente talvez, até porque seria impossível fazer um prefácio curto tendo em conta que os textos se destinam aos estudantes universitários de um terceiro ano pós introdução da reforma de Bolonha, perfeito desastre nacional no campo do ensino superior por Mariano Gago instalada e por Nuno Crato ainda mais degradada.
Tendo em conta o público-alvo, tendo ainda em conta que os textos em si-mesmos pressupõem o conhecimento prévio do teorema de Ricardo, aceitei então a solicitação que me foi apresentada mas fazendo não apenas a chamada de atenção para os textos pela docente organizados, mas gastando várias páginas a explicar o teorema de Ricardo, abrindo assim o caminho aos estudantes para uma leitura mais profunda dos referidos textos. Dessa pequena desonestidade a todos as minhas desculpas mas penso ter-se feito uma boa opção que de resto a professora em questão aceitou de bom grado. Por fim, apresento um pequeno, muito pequeno anexo mesmo, como ilustração do que se hoje se passa em termos de comércio internacional por contraponto às hipóteses de Ricardo, para quem o comércio internacional existe porque há técnicas relativamente diferentes entre os países e não deslocáveis de país para país e em que este comércio pressupõe balanças comerciais equilibradas, o que em termos de hoje, diríamos, pressupõe uma organização encarregada de zelar pelo estabelecimento de taxas de câmbio que conduzam a estes mesmos equilíbrios. Seria e foi durante muito tempo a função do FMI que em vez disso se juntou desde há duas décadas à sinistra Organização Mundial do Comércio (OMC) para impor a lei de quem é o mais forte, a concorrência a nível global, para impor o sistema de relações comerciais que levou ao desastre a que assistimos hoje.
A introdução curta, essa, nunca existiu e disso peço desculpa. Em seu lugar ficou o texto que aqui se apresenta e ficam também os meus agradecimentos pela oportunidade que me foi dada de escrever aquelas linhas.
Semanas depois do texto escrito, vejo na televisão neste último sábado de Setembro um comentador falar sobre a crise, sobre os milhares de manifestantes na rua a protestarem contra as políticas de austeridade impostas pelo actual executivo a mando de Bruxelas. Esse comentador foi meu colega de Faculdade, um dos homens mais brilhantes que conhecei, esse comentador era Joaquim Aguiar e estava ali, na televisão, a mostrar o que faz o dinheiro sobre a capacidade de pensar, a justificar o que é para todos os que estavam na rua a protestar completamente impensável, a justificar que as medidas se justificam face aos erros do passado. Tudo isto a lembrar curiosamente a teoria dos “liquidacionistas” dos Estados Unidos dos anos 30, tudo isto a lembrar a seita de fanáticos do Bundesbank, tudo isto a lembrar a clique mais reaccionária que se opôs a Roosevelt no combate à crise. Tudo isto a lembrar os defensores das políticas de austeridade na Alemanha nos anos 30 a darem a ascensão de Hitler ao poder e da boca de Joaquim Aguiar nenhuma referência sequer às taxas usurárias que somos obrigados a pagar, o contraponto diremos da carga da dívida alemã de então.
Uma coisa é certa, sugiro que um homem extremamente inteligente como o Joaquim Aguiar, estudante do meu tempo, as leia em vez das múltiplas não-verdades que afirmou na televisão sobre a crise, quando comentou a grandiosa manifestação de protesto de 29 de Setembro contra a política seguida. Se Joaquim Aguiar ou aqueles que comungam do mesmo credo olharem para os dados do Anexo repararão que a explicação para a crise não são os privilégios dos pobres, que Diabo, a explicação é outra, mas procurá-la exige estar do lado onde ele desde há muito tempo claramente não está, se é que alguma vez esteve, exige estar do lado de quem trabalha.
(continua)
