(conclusão)
As políticas desenham-se, aplicam-se e lêem-se na sequência da nossa visão do mundo. E a visão do mundo dos Aguiar de agora que foi exposta na televisão não tem nada a ver com a do nosso próprio mundo reconstruído a partir do caldo cultural de um meio rural pobre em que nasci, de um meio operário em que cresci, enquanto porque a dele, ao contrário, inscreve-se na lógica do grande capital. De facto, em todo o seu discurso nada se disse contra os paraísos fiscais que facilitam a fuga aos impostos por quem mais teria de pagar, nada se disse contra um sistema que facilita a fuga dos capitais dos países em crise, do seu discurso nada se disse contra a desorganização mundial do comércio imposta pela Organização Mundial do Comércio onde imperam linhas de força das economias dominantes e nestas não está a União Europeia que cobardemente abandona cada pequeno país às consequências da globalização, da concorrência selvagem à escala planetária. Também no seu discurso nada se disse a respeito da necessidade de políticas keynesianas activas para se sair da crise, no seu discurso nada se disse como referência contra às taxas usurárias que nos exigem em Bruxelas e não só, no seu discurso nada se disse a sublinhar que antes da crise a nossa dívida relativamente ao PIB estava ao mesmo nível da Alemanha de então, no seu discurso nada se disse contra o facto de todos termos pago a reconstrução alemã pelas taxas de juro impostas no espaço europeu, no seu discurso nada se disse contra a política mercantilista da Alemanha, do seu discurso nada se disse contra as malhas de ferro em que a Troika, pela sua visão do mundo, a de Bruxelas e a da seita de Frankfurt, nos aperta possivelmente até à morte, se assim deixarmos que seja feito. Nada do que devia ser dito, foi por ele dito.
Curiosamente ainda relativamente a Joaquim Aguiar que defende António Borges lembro-lhe a política do escudo forte prosseguida exactamente por Borges aquando da sua passagem pelo Banco de Portugal, lembro-lhe uma entrevista dada na época por este ao Financial Times em que afirmava que os “patos coxos” deveriam ser abatidos pela via da moeda forte que tornava mais caros os produtos nacionais no estrangeiro e mais baratos os produtos estrangeiros colocados em Portugal. E assim se avançou mais um passo na desindustrialização do país e em nome da competitividade. Esperto, este António Borges, esperto este Joaquim Aguiar também. Tudo isto como se as modificações industriais possam ter a duração de um tempo lógico e não a duração de um tempo longo, tempo histórico, como nos mostra a História. Na sequência dessa política necessária e logicamente se acelera a desindustrialização, tanto mais que não exportamos produtos de fraca elasticidade da procura relativamente ao preço, como a Suíça por exemplo, exportamos, isso sim, produtos ao nível dos países de baixo nível de desenvolvimento a dependerem fundamentalmente da concorrência via preço. Inteligente estes Borges, então. E os múltiplo Joaquim Aguiar deste país de tudo isto se esqueceram naquela tarde na televisão e de manifestação, com a preocupação de que é necessário culpar as vítimas da crise pela existência da própria crise. “A fonte da dívida é a rua”, diz Aguiar. Não é por acaso que a crise é dita de subprimes, devida portanto ao facto de que os pobres não pagarem e não devido aos homens que manipulam um sistema que gera pobres que não podem pagar. A ser assim, a dar sentido a posição transcrita por Aguiar assumida, só lhe faltaria dizer não como se dizia face a África, exterminem estes brutos, mas sim exterminem estes pobres da rua que se recusam a ser ainda mais pobres.
As pequenas notas, o anexo, escrito há mais de duas semanas servem também de crítica ao meu antigo colega de outrora que eu muito respeitava, estudante mais avançado acrescente-se, servem de crítica a ele Joaquim Aguiar e a todos os que as mesmas ideias partilham como o António Borges, agora. E deveriam ler também todos os textos do referido caderno, esperando eu que alguém que leia estes textos me faça o favor de lhos enviar porque o e-mail deles não tenho.
Mas ainda relativamente a António Borges como figura pública, insisto, gostava de ver publicado os cargos públicos e privados que ocupa, os rendimentos que aufere nesses mesmos cargos, outros rendimentos ainda e, depois, gostava de ver igualmente publicado a sua folha de impostos pagos ao Estado, para se perceber se tem alguma autoridade moral para poder falar em austeridade, para se perceber no plano individual o que entende ele por cidadania e por Democracia, também.
È pois todo o caderno que agora aos argonautas disponibilizamos. E, como sempre, desejamos boa leitura.
Coimbra, 2 de Outubro de 2012.
