MUNDO CÃO – A ABSTENÇÃO – por José Goulão

O PS absteve-se nas moções de censura ao governo apresentadas pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda. O facto, em si mesmo, não é uma surpresa, a posição dos socialistas não chegou a gerar expectativas nem esperanças, mesmo entre aqueles que continuam à espera, sempre à espera, de que o PS rompa o alinhamento com a anarquia capitalista neoliberal, situação que em Portugal significa, de facto, a sua sobrevivência como regime político, agora formatado segundo as normas fundamentalistas da troika. Mesmo assim, conhecendo as circunstâncias em que estas moções foram apresentadas, na sequência de movimentos populares fortíssimos contra a política governamental estrangeirada, e nos quais participaram, sem qualquer dúvida, muitos milhares de votantes socialistas (e também do PSD), seria de esperar um pouco de menos do mesmo, talvez mesmo um rebate de consciência perante as tropelias que estão a ser cometidas contra os portugueses. Debalde.

Assistimos e continuamos a assistir a muitas coisas absurdas, malévolas, maléficas e maquiavélicas neste país desde os tempos em que o PS chamou até cá o FMI pela primeira vez. Já lá vão umas décadas, muitos não se lembram – às vezes nem os próprios; foi a altura em que se inventaram os contratos a prazo como antepassados da precariedade laboral, se deram machadadas definitivas em direitos a que as portas de Abril tinham dado entrada e algumas outras malfeitorias que muito refinaram até hoje, infelizmente porque uma coisa que a si própria se designa “arco da governação” continua a ter sede de miséria para o povo e de lucros para os patrões, pudicamente redenominados “empresários”.

Mas abster-se? Numa altura destas em que os campos da batalha política estão absolutamente definidos? Em que temos um governo que odeia o povo e um povo que paga ao governo na mesma moeda? (E pagar não é aqui usado apenas no sentido figurado, tem um penoso conteúdo para todos nós).

Aceito naturalmente ser contestado, mas se permitem a abstenção é a não-política; é o oportunismo; na maior parte das vezes é a cumplicidade, é o colaboracionismo.

O PS optou, mais uma vez, por fazer não-política e logo num momento em que o assalto aos bens e direitos do povo não se detém. O PS, pelo seguro, fingiu que não se passa nada, assobiou para o ar, disse as últimas da governação mas quando chegou o instante da verdade não conseguiu demarcar-se dela. O vício de ser parte do “partido Estado”, do “bloco central”, de integrar o “arco da governação” que faz tender cada vez mais a democracia portuguesa para um sistema económico-político único e sem alternativa, fez com que em vez de escolher o lado do povo escolhesse a cumplicidade objectiva com as acções de terrorismo social em desenvolvimento.

Eu sei, compreendo. Desde que o sr. Blair se encantou com a srª Thatcher e os seus sucessores se renderam à srª Merkel que o tal socialismo um dia metido na gaveta se transformou em fumo e a prosaica nuvem assim gerada tomou os rumos de uma terceira via como caminho alternativo – no fim de contas convergente – para se chegar à anarquia mercantil, a panaceia neoliberal, o mercado reinando sobre todas as coisas, sendo que entre as coisas estão as pessoas.

Será a abstenção a terceira via? O meio onde dizem estar a virtude e que, neste caso, implica a continuação da epidemia cleptomaníaca?

Será que neste Portugal, neste momento, esse tal meio tem espaço? Não estaremos num cenário em que só existem, de um lado, Merkel, Barroso, a troika e os seus servidores internos e, do outro lado, todos os que somos vítimas dessa troupe de malfeitores sociais e políticos? Não é isso que o país nos diz? O povo nas ruas reclamando o fim da austeridade e, do lado de dentro dos gabinetes, aqui e em Bruxelas, ministros e seus tutores cozinhando assalto sobre assalto?

Há uma terceira via? Há um espaço para a abstenção? Há pirueta ou truque de contorcionismo que permitam estar ao mesmo tempo ao lado da troika e contra a troika, dentro do “arco da governação” e fora do “arco da governação”? Será que os herdeiros do eng. Sócrates não leram ainda as estatísticas e verificaram que com a troika a dívida soberana saltou de 90 para 120 por cento do PIB? Que o desemprego pulou de 10 para 16 por cento; que o valor dos salários dos portugueses (sabem quem são?) regrediu para o de 1999? Que a economia mergulhou numa recessão de quatro pontos percentuais?

Façam-nos um favor: não nos tomem por parvos. E decidam-se! É que o próximo confronto nas urnas já está definido. Às vezes parece que este PS que temos há longo tempo decidiu viver em função de uma bipolaridade bem à americana, democratas à “esquerda” e republicanos à direita para que no fim o resultado político seja sempre o mesmo: Obama e Bush filho, Clinton e Bush pai com mais ou menos saxofone, mais ou menos  mísseis, guerra sempre.

Mas saiba o PS que, pelos caminhos que ele próprio abriu, a bipolaridade instalou-se, mas não a que deseja.

A bipolaridade é elementar, meus caros: a favor ou contra a renegociação soberana da dívida; a favor ou contra a austeridade, a favor ou contra a troika. E vai jogar-se em eleições, mais tarde ou mais cedo. A terceira via, caros senhores, será para vós o caminho para o abismo. Ponham os olhos no PASOK, a servir cafés ao sr. Samaras e aos barões da troika enquanto os gregos se arrastam, humilhados, pelas vias sacras da miséria e do desemprego.

Pensando melhor em relação às primeiras linhas deste desabafo, abstenção nem sequer é oportunismo. É suicídio político. Claro que um reles jornalista não é ninguém para vos avisar, mas ao menos cheguem à janela, olhem para o país, escutem o povo.

2 Comments

  1. Tal e qual, José Goulão. Este PS é a lástima de sempre. Não tem coluna vertebral, não tem dignidade, não tem moral. Sempre assim foi desde que nasceu. Aquele Seguro não é seguro de nada, nem contra terceiros. O PS sempre foi um partido de direita. Está a jogar no seu campo.

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