POESIA AO AMANHECER – 53 – por Manuel Simões

Chico Buarque – Brasil

( 1944  –   )

TANTO MAR

Sei que está em festa, pá

Fico contente

E enquanto estou ausente

Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá

Com a tua gente

E colher pessoalmente

Uma flor no teu jardim

Sei que há léguas a nos separar

Tanto mar, tanto mar

Sei, também, que é preciso, pá

Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá

Cá estou doente

Manda urgentemente

Algum cheirinho de alecrim

Foi bonita a festa, pá

Fiquei contente

Ainda guardo renitente

Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá

Mas certamente

Esqueceram uma semente

Nalgum canto de jardim

Sei que há léguas a nos separar

Tanto mar, tanto mar

Sei, também, quanto é preciso, pá

Navegar. navegar

Canta primavera, pá

Cá estou carente

Manda novamente

Algum cheirinho de alecrim

Conhecido cantor, compositor e escritor. Trocou o curso de Arquitectura pela música popular, da qual se tornou figura destacada quando, em 1966, com “A Banda”, venceu o II Festival de MPB em São Paulo. Muitas das suas canções nascem como poemas, de que se podem destacar, entre tantos, “Construção”, “Fado Tropical”, “Valsinha” ou “Tanto mar”, textos indissociáveis da música mas que podem ser apreciados autonomamente como poemas. É ainda autor de “A ópera do malandro” (1978), sob o signo de John Gay e de Brecht.

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