DIÁRIO DE BORDO, 15 de Outubro de 2012

O ex-presidente da República Jorge Sampaio disse há dias, salvo erro ao Negócios on- line, que a actual receita de austeridade rebenta com o país e pode rebentar com a própria democracia. Vejam http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=583959. Abordou também a questão noutras ocasiões, referindo os perigos que resultam para a democracia e para a esperança das pessoas. Defendeu ainda um consenso alargado entre os partidos no sentido de serem renegociadas as condições do empréstimo feito a Portugal.

Jorge Sampaio admitiu ainda a hipótese de queda do governo e formulou votos (deve ser a expressão mais adequada) de se “abrir  um trabalho com os parceiros sociais, com os vários actores sociais, com os jovens que andam por aí e com o partido principal da oposição, uma vez que infelizmente o Bloco de Esquerda e o PCP estão fora deste esquema”.

É óbvio que Jorge Sampaio,  considerado por muitos como uma pessoa aberta e claramente de esquerda, muito mais do que outros elementos destacados do Partido Socialista, na realidade também não abandonou as linhas de actuação que se traduzem em slogans como “o socialismo na gaveta”,  “à nossa esquerda não há ninguém”, etc.  É assim que anda a muito falada unidade da esquerda, tida por muitos como indispensável para se sair do atoleiro em que a oligarquia dominante afundou o país. Assim se vê, que, se se espera por esse objectivo complicado, nunca mais lá vamos.

O caso da Islândia tem as suas peculiaridades. Os islandeses são poucos, têm tradições muito arreigadas e um nível cultural elevado. Contudo mostram-nos caminhos que se podem aproveitar. Um é que a participação dos partidos, sobretudo a dos partidos do arco do poder (expressão do insuspeito  Marcelo Rebelo de Sousa, ao que Diário de Bordo se lembra) tem de ser muito mitigada. Por uma razão simples, eles foram a correia de transmissão (perdoem mais uma expressão consagrada) de mentores da austeridade como processo da transferência de rendimentos (vide o caso da taxa social única) e da concentração de riqueza nas mãos de cada vez menos pessoas e instituições. O facto de os partidos fora do arco do poder não terem assinado o acordo com a troika, ou de serem excluídos de acordos governamentais, não os limita, pelo contrário. Vendo bem, estão em muito melhor posição para caminhar para o fim da austeridade troika/passos/portas, do que o Dr. Seguro ou o Dr. Sampaio, y sus muchachos.

É um facto que os partidos políticos, como todas as instituições que disputam o poder (declarada ou veladamente) são um mal. E é discutível que sejam um mal necessário. Nunca poderão substituir os movimentos sociais, devem ser impedidos de regular todos os sectores da vida das pessoas (uma das pedras basilares do totalitarismo religioso ou político) e têm de respeitar  as liberdades, se aspiram a ser democráticos (não à moda da democracia orgânica do Dr. Salazar, claro). Mas hoje em dia vamos tendo de viver com eles. Procurando claro, que eles não nos substituam.

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