Quando parece que o sistema de subversão insidiosa dos valores em que dizem assentar a nossa sociedade já não conseguirá surpreender-nos, eis que se supera a si mesmo num caminho desabrido que obriga a refletir muito seriamente sobre aquilo que começa a parecer o desespero do capitalismo.
A atribuição do Prémio Nobel da Paz à União Europeia, no momento em que a União Europeia se destaca como ponta de lança de uma ofensiva cruel contra os direitos sociais e humanos a pretexto de uma crise que continua a necessitar de muitas, boas e convincentes explicações, é não apenas uma inconveniência, é um descaramento, é um insulto aos milhões e milhões de pessoas que sofrem e estão revoltadas com as medidas impostas por Bruxelas e, obviamente, por Berlim. Há decisões escusadas por serem inoportunas. Mas não vamos chamar distraídos ou ingénuos aos “académicos” que em Oslo tomaram uma decisão como esta. Ela foi pensada e tem um objectivo que suporíamos inconfessável por quem assim se expôs: fazer depender o conceito de paz dos interesses dos mercados financeiros e da ortodoxia neoliberal. Não há outra leitura a fazer deste desplante.
Os jurados do Nobel vêm tentar convencer-nos de que a atribuição do prémio à União Europeia é uma espécie de recompensa por bons serviços já prestados desde a fundação das suas antepassadas, que teriam permitido transformar “um continente de guerra num continente de paz”.
Digamos que, no mínimo, esta leitura é uma distorção e mesmo uma falsificação da História. Pretender branquear o papel das antepassadas da União como criações e instrumentos da guerra fria é uma desonestidade intelectual que parte do princípio de que os europeus são burros. Mesmo os que, e são muitos, concordam com esse papel sabem perfeitamente que a CEE e a CE foram os contrapontos do capitalismo, entendido como paradigma da “liberdade”, ao sistema antagónico instituído do lado de lá da “cortina de ferro”, designação que os “pais fundadores” da “Europa”, assim abusivamente chamada, adotaram como sua.
Nas alegações para atribuição do prémio há depois outros pontos não apenas falsificados como absolutamente invertidos. A União Europeia é considerada a “pacificadora” dos Balcãs quando se sabe que grandes potências da União desencadearam a explosão da Jugoslávia – e que hoje retiram os dividendos económicos e estratégicos respetivos. A União Europeia participou e participa ativamente em guerras como as do Iraque, do Afeganistão, da Líbia e da Síria. Não vale a pena tentar encontrar outras leituras porque elas arriscar-se-ão a ser ainda mais ridículas que as do Comité Nobel.
Mesmo que, por redução ao absurdo, todos os argumentos tivessem algum fundamento, a atribuição do Nobel da Paz à União Europeia a seguir a Barack Obama, que tem usado e abusado do galardão como senhor da guerra, às vezes bem suja, veja-se a longa lista de execuções extra judiciais a que as tropas dos Estados Unidos têm procedido durante o seu mandato, seria confirmação de uma estratégia. Uma estratégia que é a da viciação do conceito de paz fazendo-o confundir com a implantação do regime único, o dos mercados, correspondente à globalização. Mesmo que para isso seja necessário fazer guerras, como a cada passo acontece nos tempos que correm.
Estamos perante um processo de apodrecimento da ideia de paz a par da liquidação organizada de direitos laborais e sociais e da subversão de valores essenciais como são os direitos humanos, liberdade e democracia. Assim sendo, há razões fortes para suspeitar que o capitalismo sente de uma forma muito aguda esta crise como sendo de facto a sua e na qual existe cada vez menos espaço para gerir os seus interesses e a respetiva sobrevivência em sistema democrático. Já houve outros períodos assim na História, bem negros por sinal.
O Comité Nobel do prémio da Paz, o mais político de todos, espelha muito bem esta situação, porque também ele deixou de ter espaço para simular uma dignidade que, afinal, não tem.
Para que o dito comité conclua a glorificação do triângulo das Bermudas da guerra só lhe falta agora atribuir o Nobel da Paz à NATO. Talvez já para o ano.

Exactamente o que me aconteceu foi sentir um arrepio na espinha quando ouvi este anúncio, por comparação com o Nobel atribuído a Barak Obama que, após tê-lo recebido, desatou a fazer mais guerra. E não sou supersticiosa.