António Pinho Vargas fala-nos da grande conspiração mundial sem rosto que já vislumbramos mas ainda não sabemos como combater

Do blogue do autor, com o nosso agradecimento

Tenho de confessar que não quero comentar o orçamento. Basta dizer que é medonho. O resto dizem milhares de pessoas das mais diversas maneiras.
Aquilo que me preocupa mais, neste momento, é o facto de me parecer que, em Portugal, se fala, em simultâneo, de dois mundos completamente diferentes, separados por um vácuo intransponível na actual vida política. Uma linha abissal atravessa o país entre … aqueles (o governo e os seus apoiantes quase sozinhos) que dizem que não há outra maneira de pagar aos credores que nos “ajudam”; e os outros, em muito maior quantidade, que dizem que há alternativas e que mais austeridade não pode ser. Estes dois discursos ao mesmo tempo provocam uma cacofonia pública que, acompanhada da tremenda lentidão de tudo o resto, é profundamente exasperante.
Sei que vivemos numa “sociedade invisível” como a bem designou Daniel Innerarity. Opaca. Incompreensível. Na qual quem manda verdadeiramente deixou de ter rosto. Alguém já viu a cara de um mercado que fosse? Só um? Ou da Moody’s? Não viram porque não têm rosto. Nesse sentido a democracia parece ser um exercício obsoleto. Vota-se num partido qualquer e depois quem manda “não tem rosto”? Há quem chame a isto a “crise da democracia”. Claro, votar para quê, se quem realmente tem poder não se submete a eleições?
Suspeito que tudo começou quando Nixon abandonou a paridade entre o dolar e o ouro em 1971, salvo erro. Essa paridade ligava a finança à riqueza real. Existiu longo tempo. Esse foi o primeiro lance que permitiu o descalabro financeiro de 2008 e o jogo com a compra e venda de dinheiro, afinal, inexistente. Vivemos no tempo em que este dinheiro – um que existe – estará nos bancos, nos offshores de todo o mundo, na Suíça, e por aí fora. Mas as entidades financeiras oficiais do mundo do capitalismo já não se entendem entre si. Isso é patente.
Só duas coisas mais: uma clara, outra talvez inexplicável. A clara é que, para a Troika, as crises são belos negócios. O que aqueles 3 senhores vem cá fazer é assegurar que o estado português continua a ter dinheiro suficiente – seja onde for que o vá buscar (ao meu bolso por exemplo) – para lhes pagar a eles, como diz o eufemismo mais hipócrita da linguagem corrente, a “ajuda financeira”. Com juros daqueles até eu emprestava se me pedissem. Mas não pedem, tiram-mo com as leis do Estado.
A opaca é a seguinte: já sei da globalização, etc., que este mundo está todo ligado especialmente do ponto de vista da circulação do capital, etc., etc.  Mas, não consigo compreender completamente como é que a crise dos EUA, se transformou, como que por magia, na crise das dívidas soberanas pos países europeus das periferias. Existe um  livro The Global Minotaur de Yanis Varoufakis – aliás existe um site com o mesmo nome – que tenta explicar esse processo. Mas é de tal modo complexa e técnica a explicação que não fiquei, nem de perto, totalmente esclarecido. A tese principal é que os EUA conseguiram que seja o resto das populações do mundo a pagar a sua dupla dívida. Deu para perceber que quem conseguiu arquitectar – talvez um G20 ou G7 qualquer, essas reuniões antidemocráticas por excelência – essa transferência do “olho do furacão” da crise dos EUA para os países periféricos da UE – e depois, como se verá, para os do Norte – é um colectivo e sábio manipulador dos obscuros mecanismos do capitalismo desregulado. Mas tudo isto é Banksterismo sofisticado.
Wallerstein afirma, num livro recente, Uncertain Worlds, que, não apenas estamos já em plena transição para a crise terminal do capitalismo – tese que defende há muito, tal como Fernand Braudel defendia enquanto foi vivo – como tudo parece indicar que a nova espécie de estabilidade de mercado, economia e capital, que se virá a criar, da qual já se vislumbram muito vagamente alguns contornos, talvez venha a ser ainda pior do que o capitalismo histórico. É relativamente perceptível que este tipo de capitalismo financeiro actual já tem muito pouco a ver com o anterior, que vigorou, sob várias formas históricas desde do século XVII até ao começo da crise que eclodiu em 1973 e as várias outras, cada vez mais perto umas das outras – no Japão, no Sudoeste Asiático, na Inglaterra, etc –  que se seguiram no mundo até esta em que estamos a viver. O futuro não está escrito mas, de facto, parece muito ameaçador. Nem Passos Coelho, nem Gaspar contam nesta história. É muito mais grave e alargado. Antes fossem apenas esses dois ultraneo-liberais obedientes e incompetentes. Seria fácil substituí-los.
Agora o resto, invisível, pleno de opacidade, criminoso, obscuro, sinistro, não se percebe como enfrentar. Talvez daqui resulte como pequena consequência a esquizofrenia dos discursos actuais no nosso país. É que ninguém sabe nada sobre o que fazer. E, se sabem, não explicam bem. Um bom discurso anticapitalista teria que ser capaz de neutralizar os argumentos dos outros e então venceria. Até agora não conseguiu. As pessoas sentem na pele os seus vários sofrimentos mas isso, por doloroso que seja, por si só, não constitui uma alternativa consistente. Nem sei se existe. Basta pensar em Hollande ou Obama que tanto nos despertaram alguma esperança, cada um a seu tempo, para se perceber que eles não têm nenhum poder. Aparentam ter, apenas. Nem Merkel, sequer. São instrumentos, bonecos articulados, manipulados por fios que não conseguimos discernir nem interpretar.
António Pinho Vargas

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