DIÁRIO DE BORDO, 19 de Outubro de 2012

Há pouco deu televisão, na RTP, uma notícia assim: um ministro grego disponibilizou ao Aurora Dourada, partido de extrema-direita, dados sobre crianças de famílias imigrantes que estão a frequentar infantários. O Aurora Dourada, formado por neo-nazis, prometeu quando das últimas eleições, expulsar as crianças imigrantes dos hospitais e infantários, para dar lugar a nacionais, entre outras barbaridades. A notícia não indicava o nome do ministro. Será talvez o ministro da polícia Nikos Dendias, cujo fervor anti-imigração já tinha sido referido aqui em A Viagem dos Argonautas (ver http://aviagemdosargonautas.net/2012/09/01/grecia-os-nazis-do-seculo-xxi-por-laurie-penny/), em 1 de Setembro último. Entretanto parece ser cada vez maior a proximidade entre as forças policiais e a extrema-direita, havendo notícias de que as primeiras encaminham pessoas que aparecem nas esquadras a queixarem-se de violências cometidas por imigrantes para pedirem ajuda à Aurora Dourada. Esta, por sua vez, não se faz rogada para controlar pessoas na rua e promover violências contra pessoas e grupos.

Na Grécia, assim, verifica-se o que já têm acontecido noutras alturas em épocas de crise: governos que se proclamam democráticos invocam princípios e recorrem a procedimentos próprios da extrema-direita, fomentando nacionalismos absurdos, que incluem o ódio ao estrangeiro e perseguições a minorias, a começar pelos imigrantes, depois os homossexuais, os judeus e os deficientes, a seguir impondo o regresso das mulheres ao lar, e não só. Parece que ali já vão avançados, pelas notícias. Entretanto, não vamos pensar que isto vai ficar pelos Balcãs. A esquerda tem de estar muito atenta a este tipo de manifestações. Olhando os governos que se dizem democráticos, verificamos que na maioria só o são no papel, como tem sido o caso dos governos autodenominados como social-democratas, democrático-sociais, passos-portas-seguros, ou parecido. E infelizmente a maioria desses governos (Diário de Bordo é moderado, e não quer dizer todos, mas não seria exagero), da Europa e não só, nestas situações não hesita em recorrer à xenofobia e ao preconceito em geral para desviar a atenção das populações das asneiras que cometem e dos vícios que encobrem. Encostam-se à direita sem complexos, diabolizando quem se opõe e confundindo as populações. São épocas de grande controlo da informação, de repressão policial, de declarações enfáticas sobre a importância da democracia ao mesmo tempo que se vai dando cabo dela.

Entretanto, François Hollande, cuja actuação nestes poucos meses de governo não tem entusiasmado, mais do tipo uma no cravo, outra na ferradura, deu agora um passo que se pode revelar como muito importante, pelo seu significado. Anteontem, 17 de Outubro, emitiu um comunicado lamentando os graves acontecimentos ocorridos em 1961, na mesma data, na grande manifestação a favor da independência da Argélia em Paris, e reconhecendo ter havido então uma repressão sangrenta. Há quem ache que se tratou de uma declaração insuficiente, e motivada pela próxima deslocação à Argélia do presidente francês. A direita, claro, reprova e diz que se estão a reabrir feridas, etc. Contudo, tem significado sem dúvida que, mesmo tanto tempo depois, que se recordem acontecimentos tão terríveis, tanto tempo menorizados, para não dizer ocultados. Calcula-se que naquele dia terão sido mortas pelo menos 150 a 200 pessoas, nas ruas e nas esquadras de Paris, e inclusive um número considerável de corpos terão sido atirados ao Sena. Uma das falhas do comunicado será o de não referir responsabilidades e a necessidade de as apurar.

Leave a Reply