Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
A Alemanha é o passageiro de primeira classe do Titanic que é a zona Euro – I
Na minha opinião, a Europa pode continuar a andar em forma de rendilhados por muito bom tempo. Não tem nenhum sentido andar a fazer previsões sobre a destruição iminente da zona euro porque a Europa tem muitos instrumentos na sua caixa de ferramentas para continuar a manter-se neste seu estado de enorme excitação, de agitação. Mas, enquanto os meus comentários podem ser menos estridentes do que as previsões recentes de George Soros sobre a situação da Europa, eu respeito a sua análise e ainda continuo a estar muito preocupado com a situação. Deixem-me dizer porquê.
Os líderes políticos europeus estão agora a enfiarem-se politicamente num beco sem saída que vai terminar numa terrível desordem. A Europa está muito longe da trajectória da consolidação orçamental e dos resgates que possam actuar muito rapidamente para assim se evitar a deflação da dívida pública que agora está a tomar conta da Europa. A Alemanha também irá eventualmente sucumbir como um resultado desta trajectória da deflação da dívida.
O mito de consolidação orçamental expansionista
Quando a crise começou no início de 2010, a Alemanha defendeu uma linha dura em dizer Não ao resgate financeiro sobre a Grécia. Mas como a situação na Grécia se agravou, tornou-se claro que sem um resgate financeiro haveria uma situação de incumprimento Ao invés de arriscar as consequências de uma falência grega nos mercados globais e sobre os credores da Grécia, a Alemanha cedeu e socorreu a Grécia.
Mas há nisto um custo: a austeridade. Hoje vê-se o povo alemão, que nunca votou a favor do euro, ficar apoplético com o facto de que a Alemanha iria salvar a Grécia. Isso, eles previram acertadamente, foi o custo oculto do euro. A Grécia foi amplamente considerada como um um país fortemente gastador, um devasso fiscal, e em que se tinha revelado ter havido uma fraude fiscal para poder entrar para a zona euro. Assim, para que o governo alemão pudesse resgatar a Grécia e salvar os bancos alemães e os mercados de capitais globais do contágio que uma situação de incumprimento grego iria criar, foi preciso adicionar-lhe condições duras, para lhes darem depois os fundos necessários.
Isto levou a estabelecer uma trajectória de política internamente inconsistente de resgates, salvamentos e de cada vez mais austeridade. Infelizmente, a austeridade não funciona como se anunciava, como o governo alemão pensava. A consolidação orçamental nunca é expansionista. A austeridade resulta sempre em contracção, exactamente o que a palavra “consolidação” a palavra implica. Agora, deixem-me lembrar que mesmo o governo britânico tentou vender-nos a ideia de uma política de consolidação orçamental expansionista em 2011, alegando que uma fada imaginária asseguraria a confiança que iria levar ao crescimento. Como seria previsível, o Reino Unido está em recessão como resultado dessa política. Em Outubro passado a fuga de um documento confidencial sobre o resgate da Grécia demonstrava que a UE sabia que a política de consolidação orçamental expansionista havia falhado na Grécia também.
A minha questão é: Como eu afirmei quando a crise eclodiu em 2010, a trajectória de política económica seguida na Europa levaria a uma recessão em W , isto é, uma forte quebra da actividade, uma leve expansão a seguir e, depois, uma nova quebra forte da actividade económica e do emprego na Europa.
Durante toda essa crise, a abordagem da Europa tem sido resgates e mais resgates, austeridade, e mais austeridade. Nos países considerados periféricos isto levou directamente a errar as metas orçamentais, uma vez, outra vez e assim sucessivamente. Na altura, e na minha opinião, a ideologia que iria dominar seria a seguinte:
Vai-se continuar a austeridade orçamental até que se consiga reduzir os défices de modo significativo. Se a depressão que isto irá criar provocar então que se errem as metas orçamentais pensadas, redobrem-se os esforços, aumentem-se as politicas de austeridade sob o olhar atento da Troika.
E ainda, aqueles que defendem que a austeridade é a solução para a crise continuarão a tentar apresentar alguns exemplos de onde e como a austeridade realmente tem dado bons resultados. A Letónia é o exemplo mais recente. Toda a linha de argumentos é falsa. Como o escrevi em 2011 quando o Reino Unido estava a puxar pela varinha mágica que geraria a confiança:
Pessoas como Hugh Hendry podem fazê-lo. Ele não anda a defender a contracção fiscal porque acredita que esta será imediatamente expansionista. Em vez disso, ele argumenta que não há remédio para a política de deflação da dívida. Mais do que permitir que os níveis da dívida governamental possam subir e ocupem o espaço da procura do sector privado como defende Richard Koo, Hendry recomenda apenas que se deixe cair a procura agregada e começar de novo. Mas isto conduz à depressão, como é agora bem claro.
E é aqui que a periferia da Europa tem agora razão.

