Análises sobre a crise, olhares sobre a Europa, olhares sobre o crime que contra esta os seus dirigentes estão a cometer

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

A Alemanha é o passageiro de primeira classe do Titanic que é a  zona Euro – I

Edward Harrison

Na minha opinião, a Europa pode continuar a andar em forma de rendilhados por muito  bom tempo. Não tem nenhum  sentido andar a fazer previsões sobre a destruição iminente da zona  euro porque a Europa tem muitos instrumentos na sua caixa de  ferramentas para continuar a manter-se neste seu estado de enorme excitação, de agitação. Mas, enquanto os meus comentários podem ser menos estridentes  do que as  previsões recentes de George Soros sobre a situação da Europa, eu respeito a sua análise e ainda continuo a estar muito preocupado com a situação. Deixem-me dizer porquê.

Os líderes políticos europeus estão agora a enfiarem-se politicamente num beco sem saída que vai terminar numa terrível desordem. A Europa está muito longe da trajectória da  consolidação orçamental e dos resgates que possam actuar   muito rapidamente para assim se  evitar a deflação da dívida pública que agora está a tomar  conta da Europa. A Alemanha também irá eventualmente sucumbir como um resultado desta trajectória da deflação da dívida.

O mito de consolidação orçamental expansionista

Quando a crise começou no início de 2010, a Alemanha defendeu  uma linha dura em dizer Não ao resgate financeiro sobre a Grécia.  Mas como a situação na Grécia se agravou, tornou-se claro que sem um resgate financeiro haveria uma situação de incumprimento Ao invés de arriscar as consequências de uma falência grega nos mercados globais e sobre os credores da Grécia, a Alemanha cedeu e socorreu a Grécia.

Mas há nisto um custo: a austeridade. Hoje vê-se  o povo alemão, que nunca votou  a favor do euro, ficar  apoplético com o facto de que a Alemanha iria salvar a Grécia. Isso, eles previram acertadamente, foi o custo oculto do euro. A Grécia foi amplamente considerada como um um país fortemente gastador, um devasso fiscal,  e em que se  tinha revelado ter havido  uma fraude fiscal para poder entrar para a zona euro. Assim, para que o governo alemão pudesse resgatar a Grécia e salvar os bancos alemães e os mercados de capitais globais do contágio que  uma situação de incumprimento grego iria criar, foi preciso adicionar-lhe condições duras, para lhes darem depois os fundos necessários.

Isto levou a estabelecer uma trajectória de política internamente inconsistente de resgates, salvamentos e de cada vez mais austeridade. Infelizmente, a austeridade não funciona como se anunciava, como o governo alemão pensava. A consolidação orçamental nunca  é expansionista. A austeridade resulta sempre em contracção, exactamente o que a palavra  “consolidação” a palavra implica. Agora, deixem-me  lembrar que mesmo o governo britânico tentou vender-nos a ideia de uma política de consolidação orçamental expansionista em 2011, alegando  que uma fada imaginária asseguraria a confiança que iria levar ao crescimento. Como seria previsível, o Reino Unido está em recessão como resultado dessa política. Em Outubro passado a fuga de um documento confidencial  sobre o resgate da Grécia  demonstrava que a UE sabia que a política de consolidação orçamental expansionista havia falhado na Grécia também.

A minha questão é: Como eu afirmei  quando a crise eclodiu em 2010, a trajectória de política económica seguida na Europa  levaria a uma recessão em W , isto é, uma forte quebra da actividade, uma leve expansão a seguir e, depois, uma nova quebra forte da actividade económica e do emprego na Europa.

Durante toda essa crise, a abordagem da Europa tem sido resgates e mais resgates, austeridade, e mais austeridade. Nos países considerados periféricos isto levou directamente a errar as metas orçamentais, uma vez, outra vez e assim sucessivamente. Na altura,  e na minha opinião, a  ideologia que iria dominar seria a seguinte:

Vai-se continuar a austeridade orçamental  até que se consiga reduzir os défices de modo  significativo. Se a depressão que isto irá criar provocar  então que se errem as metas orçamentais pensadas, redobrem-se os esforços, aumentem-se as politicas de austeridade  sob o olhar atento da Troika.

E ainda, aqueles que defendem que a austeridade é a solução para a crise continuarão a tentar  apresentar alguns exemplos de onde e como a austeridade realmente tem dado bons resultados. A Letónia é o exemplo mais recente. Toda a linha de argumentos  é falsa. Como o escrevi em  2011 quando o Reino Unido estava a puxar pela varinha mágica que geraria a confiança:

Pessoas como Hugh Hendry podem fazê-lo. Ele não anda a defender a contracção fiscal porque acredita que esta será imediatamente expansionista. Em vez disso, ele argumenta que não há remédio para a política de deflação da dívida. Mais do que permitir que os níveis da dívida governamental possam  subir e ocupem o espaço da procura do sector privado como defende Richard Koo,  Hendry recomenda apenas que se deixe  cair a procura agregada e começar de novo. Mas isto conduz à depressão, como é agora bem claro.

E é aqui  que a periferia da Europa tem agora  razão.

(continua)

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