UMA CERVEJA NO INFERNO – JEAN-ARTHUR RIMBAUD – por Carlos Loures

 Jean-Arthur Rimbaud nasceu no dia 20 de Outubro de 1854. Ainda hoje, 158 anos depois da sua morte, a sua poesia é hermética. A  expressão «Ladrões de fogo», que tenho repetidamente usado nesta série de pequenos artigos, é de sua autoria. Este, o próximo e, talvez,  um terceiro texto, ser-lhe-ão dedicados. Como sabemos, o seu livro mais divulgado é Une saison en enfer. Uma estação no inferno? Ou Uma cerveja no inferno?

No primeiro destes textos, falando das actividades com que poetas com Pessoa ou O’Neill  ganhavam a vida, criando frases publicitárias ou escrevendo cartas comerciais, dizia  que era como se Prometeu tivesse arrostado com  a ira dos deuses, roubando o fogo do Olimpo para acender um cigarro.  Ficamos sempre surpreendidos quando um grande poeta ou um grande pintor revelam facetas que os mostram como homens iguais a todos os outros. Quando a  correspondência privada de René Magritte com o seu agente em Nova Iorque foi publicada, causou surpresa a minúcia do grande pintor surrealista belga na abordagem das questões comerciais relacionadas com os seus quadros. È natural que o carácter prosaico de algumas dessas actividades choque as pessoas que vêem no artista o demiurgo, o criador de transcendência, não conseguindo vislumbrar para além da persona o ser humano, o homem -comum.Recorrendo dde novo a Pessoa como exemplo, não terá sido um desperdício para a Literatura que tenha perdido tempo a escrever cartas comerciais?  Porém, terá sido essa experiência que lhe permitiu escrever o Livro do Desassossego.

Porém, o caso de Jean-Arthur Rimbaud (1854 -1891), é ainda mais chocante. A sua obra principal – Une Saison en Enfer, Iluminations e Bateau Ivre – foi escrita entre os 15 e os 18 anos, na adolescência, portanto. Com Lautréamont e Alfred Jarry, foi, mesmo assim, um dos maiores poetas do Simbolismo francês e, já no século XX. uma das maiores referências do movimento surrealista. E as suas obras, mais de um século após terem sido escritas, ainda são inovadoras.Numa carta a Izambard e a Paul Demeny explicava o seu método para chegar à transcendência poética ou o poder visionário através do “longo, imenso e sensato desregramento de todos os sentidos.” (Les lettres du Voyant [As Cartas do Vidente]). Como é possível que um poeta luminoso como Jean-Arthur Rimbaud, que um jovem de um tão invulgar génio poético, tenha dado lugar a um adulto tão diferente? A um traficante de armas?

O desregramento de todos os sentidos – o abuso de álcool e drogas – configura uma descida aos infernos. Mas tal como o fogo do Olimpo pode ser usado, não para iluminar o horizonte dos homens, mas para acender um cigarro, o jovem Jean-Arthur desceu ao inferno para beber uma cerveja. É a teoria de Mário Cesariny que traduziu Une saison en enfer por Uma cerveja no infernoSaison era uma marca de cerveja belga. Rimbaud desceu ao inferno, bebeu uma cerveja e voltou so mundo dos homens para traficar armas. Não fez melhor do que Pessoa a escrever cartas comerciais em inglês ou de que Alexandre O’Neill a conceber frases publicitárias para colchões ou berbequins.

 

 

1 Comment

Leave a Reply