MUNDO CÃO – NUTRICIONISMO TORCIONÁRIO – por José Goulão

Diz-se muitas vezes que os paralelismos são abusivos, perigosos. Quando lemos escrito numa parede de Telavive “Arab raus” e nos lembramos das inscrições “Judden raus” em casas de Berlim sob o nazismo convirá não estabelecer logo confusões, mais de setenta anos de história separam os dois apelos; ou quando encontramos comunidades palestinianas encafuadas atrás de um muro com três metros de altura e muitos quilómetros de comprimento, impossibilitadas de aceder às terras e aos bens essenciais e pensamos em Bantustões e outras formas de segregacionismo abolidas na África do Sul há 20 anos, é aconselhável refletir muito bem antes prosseguir nas comparações…

Serão estas associações de ideias assim tão abusivas, perigosas? E perigosas para quem, além das vítimas, obviamente?

Seja. Concedamos que coisas assim não passam, digamos, de coincidências para não atormentar as boas consciências das autoridades israelitas em funções e respetivos apaniguados que distribuem com zelo inquisitorial pelo mundo a chancela de “anti semita”. Deixo-vos então com um caso, mais um, dos nossos dias. Conto-o conforme o aprendi, numa fonte que não teria razões para inventar um episódio tão escabroso e nem sequer tiraria vantagens de perder tempo com uma história tão elaborada, o jornal israelita Haaretz.

Conta Amira Hass no Haaretz que o Coordenador do Governo (israelita) das Actividades nos Territórios (COGAT) estabeleceu, sob orientação do próprio ministro da Saúde, um programa de racionamento alimentar para a população bloqueada em Gaza (milhão e meio de pessoas) que a par da redução da água, gás e eletricidade e da limitação de movimentos de pessoas, de importações e exportações, façam com que esses palestinianos sintam quem manda.

O estabelecimento de um programa alimentar associado ao cerco é o requinte do processo de bloqueio, que a chamada comunidade internacional diz condenar enquanto estabelece cada vez mais acordos económicos – e militares, claro – preferenciais com Israel. Explica o Haaretz que, a partir da média de consumo alimentar de cada israelita, “ajustada à cultura e à experiência de Gaza”, seja lá o que isso for e que não nos é revelado, cada palestiniano internado em Gaza – espero que o adjetivo não seja considerado insultuoso – terá direito a 2279 calorias por dia, a fornecer através de 1836 gramas de alimentos, um total 2575,5 toneladas de produtos alimentares para os habitantes da Faixa. Para isso seria necessária a entrada em Gaza de 170,4 camiões cinco dias por semana, mas esse número é cortado em 68,6 camiões por conta da alimentação produzida no território e ainda outros 13 camiões para aplicar o tal princípio do “ajustamento à cultura e experiência” dos autóctones. As medidas já têm em consideração que os palestinianos de Gaza estão a ser obrigados a reduzir de mil para 500 toneladas por dia a produção interna de frutos e legumes através de um programa de restrição à importação de sementes e, também, ao racionamento forçado de água imposto pelos sitiantes.

Os organismos das Nações Unidas em Gaza dizem que o número de camiões autorizados por Israel em cada cinco dias não atinge nem de perto nem de longe os 88,8 (descontos já incluídos) e além disso as perdas de produtos alimentares durante o transporte, não compensadas, podem avaliar-se em cinco milhões de dólares anuais. Mas como é a ONU que o afirma, isso não passa, dirão os governantes israelitas, de mera ficção, mal intencionada por definição.

O Haaretz informa que este programa está em vigor há cerca de cinco anos e segundo os autores foi estabelecido de modo a “não provocar uma tragédia humanitária” com o cerco de Gaza. O ministro da Saúde recusou-se a comentar o assunto, aliás tem toda a razão, os factos e motivações dispensam quaisquer comentários.

Não, e agora não fiquem à procura dos tais perigosos paralelismos históricos. Com tal requinte serão difíceis de encontrar. O nutricionismo torcionário aplicado a uma população inteira só agora foi estabelecido em bases científicas. O seu a seu dono.

2 Comments

  1. Até um ministro israelita, de que não me lembro o nome, há anos atrás, disse que a situação dos palestinianos lhe recordava a que se vivia na Rua da Mila, no gueto de Varsóvia, Entretanto, que será feito de Marwan Barghouti?

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