Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota
(CONCLUSÃO)
Sétima nuvem
7. Uma nova ameaça na já grande desordem desta pobre Europa e do Mundo – parte II
Cremos que a partir daqui se compreendem bem os sinais de alerta de Albert Edwards em sublinhar que não seria então de espantar que a China reiniciasse uma política de desvalorização do yuan. Pior ainda se, no quadro desta Europa, juntarmos agora à ignorância, à cobardia, à posição criminosa e de alta traição dos dirigentes europeus, no dizer de François ASSELINEAU – Presidente de UPR, se juntarmos a tudo isto o oportunismo mercantilista dos alemães, a subserviência dos dirigentes do sul da Europa mais transformados em criados domésticos da imperial senhora Merkel – cuja demonstração de força desnecessária se fez hoje pisando o solo grego por si ocupado já com as armas da dívida- do que em serem os representantes eleitos dos povos que os elegeram, se agora a tudo isto juntarmos então uma possível política comercial chinesa ainda mais agressiva, percebemos então que sob a orquestração feita pelo FMI é mais uma nuvem bem negra que paira sobre o céu desta Europa que alguns querem destruir.
É aqui que ganha igualmente sentido a posição do alto quadro técnico do banco Société Générale, Albert Edwards, que defende ser provável uma política cambial agressiva por parte da China face à dinâmica dos desequilíbrios internos e externos assim como aos efeitos de repercussão da crise na economia global sobre a sua situação interna e que passamos a citar longamente:
“ Basta olhar para a tendência recente do yuan enquanto divisa para se depreciar dentro da anterior banda de variação ± 0,5% (Ver gráfico abaixo). Com o mega excedente de conta corrente da China praticamente a ir-se embora, o FMI admitiu que estavam errados e que o yuan não está subavaliado. Como ao longo do tempo temos sublinhado, as forças que tendem a fazer descer o valor do yuan estão a aumentar de pressão. Não só será provável uma dura aterragem na China como também o recente alargamento da banda faz com que a desvalorização se torne ainda mais provável.
Em termos de potencial impacto das recentes reformas da moeda chinesa sobre a futura evolução do yuan, a nossa excelente economista chinesa Yao Wei resumiu muito bem a perspectiva: “a abertura de conta de capital e o aumento da flexibilidade do valor do yuan essencialmente dão incrementalmente mais poder , digamos assim, ao mercado para determinar o caminho do yuan… Depois do alargamento da banda de variação face ao fixing determinado diariamente pelo Banco Central Chinês , há mais uma razão para esperar mais alguma pequena depreciação contra o dólar a curto prazo, dada a nossa expectativa de desaceleração do crescimento económico da China e o cenário global de risco na economia mundial.”
Do ponto de vista desta economista ela pensa que o yuan se irá apreciar no final do ano, se, como ela espera, houver sinais claros de que se evitou uma aterragem rápida da economia. O FMI na sua última publicação Perspectivas Económicas fez uma análise especial do saldo externo da China. É, em parte, um mea culpa sobre o que incorretamente o FMI andou a defender em que argumentavam que o yuan estava “substancialmente subavaliado”.
Na mesma temática diz-nos Martin Wolf do Financial Times “… O ajustamento interno agora exigido é ainda maior do que antes da crise”. Wen Jiabao, o primeiro-ministro, tem frequentemente descrito o desenvolvimento económico da China como “desequilibrado, insustentável e descoordenado”. Plus ça change! Com tais desequilíbrios internos, evitar uma aterragem rápida será extremamente difícil.
Se estamos correctos e se verificar então uma aterragem rápida na economia chinesa, aumenta a capacidade das autoridades chinesas em desvalorizarem o yuan, tanto tecnicamente na sequência das recentes reformas como politicamente à luz das mudanças perspectivadas e publicadas pelo FMI”. E vejamos, mesmo que por um gráfico apenas , a estrutura do excedente comercial da China e as conclusões são imediatas quanto ao perigo de uma maior agressividade comercial do Império do Meio via taxa de câmbio e tanto mais assim quanto se admita que os restantes países da zona e concorrentes com a China possam vir a fazer o mesmo. Valida-se assim uma eventual descida das moedas do Sueste Asiático contra esta Europa completamente indefesa, manietada nos esquemas que ela construiu e permitiu que dela fizessem um espaço cativo. Vejamos o gráfico seguinte:
Repare-se que já pesa mais no excedente comercial da China a fileira maquinas e equipamento industrial do que o têxtil, a mostrar que a China está a subir na própria especialização internacional e com qualidade, coisa que em Portugal se parece ignorar. Mostra-se assim que a desregulação pode também ser entendida como um processo de desindustrialização que desta concorrência são vítimas e de na Europa os seus sinais devastadores são já bem evidentes por todo o lado.
O texto de Albert Edwards é bem claro. Esperemos apenas que haja outros ventos que dissipem estas nuvens negras que sobre todos nós se abatem. Tal como o FMI mudou totalmente de linha de conduta face ao yuan, por interpostas forças acredita-se, quem nos diz que não pode haver uma mudança total de orientação da Troika quanto às políticas impostas até agora a esta pobre Europa já, e por isso mesmo, à beira do colapso total?
Estes ventos, cabe-nos a todos nós criá-los, nas ruas, nas fábricas, nos hospitais, nos campos, nas Universidades, em todos os sítios onde haja quem trabalha e que volte a ganhar coragem de dizer NÃO a este absurdo civilizacional: à destruição da Europa, à destruição de todos nós.
E, para esses ventos criar, juntemo-nos, sejamos todos como um rio, como as águas que se juntam pouco a pouco ao longo do seu trajecto e ao longo dele vão ganhando a força necessária, a caminho do ponto de chegada, com ordem mas de forma bem determinada. E só desta forma se ganha a força necessária para esta dramática situação combater, só assim se ganha a disponibilidade em força transformada para a mudança os poderemos convencer, só assim se ganha a capacidade para a mudança os poderemos vencer. E antes que seja tarde. Desta força assim alcançada, as gerações passadas sentir-se-iam dignificadas e as gerações futuras disso sentir-se-ão também todas elas honradas.
Bibliografia
- Albert Edwards, no site ZeroHedge.
- Asian Development Bank, Asian development outlook 2012 update. Services and Asia’s future growth.
- Blog Insider Business, diversos artigos de Albert Edwards
- Diversos artigos do Financial Times
- Diversos artigos da publicação Econotes da Société Generale, Paris.
- Fabius Maximus What You’re Not Being Told About the World Economy, but Should Know
- FMI, PEOPLE’S REPUBLIC OF CHINA 2012, ARTICLE IV CONSULTATION, Julho de 2012.
- MarketWatch, Wall Street Journal, Beware China’s quantitative tightening
- The Economist, A lesson from the Weimar Republic about balancing the budget, Fevereiro de 2010.
- FMI, World Economic Outlook, Coping with High Debt and Sluggish Growth, Outubro 2012.



