SETE NUVENS NEGRAS SOBRE O MUNDO, SOBRE A EUROPA NESTE FIM DE VERÃO, NESTE PRINCÍPIO DE OUTONO DE 2012.

Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota

(CONCLUSÃO)

Sétima nuvem

7.  Uma nova ameaça na já grande desordem desta pobre Europa e do Mundo – parte II

Cremos que a partir daqui se compreendem bem os sinais de alerta de Albert Edwards em sublinhar que não seria então de espantar que a   China reiniciasse uma política de desvalorização do yuan. Pior ainda se, no quadro desta Europa, juntarmos agora à ignorância, à cobardia, à posição criminosa e de alta traição dos dirigentes europeus, no dizer de François ASSELINEAU – Presidente  de UPR, se juntarmos a tudo isto o oportunismo  mercantilista dos alemães,  a  subserviência dos dirigentes do sul da Europa mais transformados em criados domésticos da imperial senhora Merkel –  cuja demonstração de força desnecessária se fez hoje pisando o solo grego por si ocupado já com as  armas da dívida-   do que em serem os representantes eleitos dos povos que os elegeram, se agora a tudo isto  juntarmos então uma possível política comercial chinesa ainda mais agressiva, percebemos então que sob a orquestração feita pelo FMI  é mais uma nuvem bem negra que paira sobre o céu desta Europa que  alguns querem destruir.

É aqui que ganha igualmente sentido a posição do alto quadro técnico do banco Société Générale, Albert Edwards, que defende ser provável uma política cambial agressiva por parte da China face à dinâmica dos desequilíbrios internos e externos assim como aos efeitos de repercussão da crise na economia global sobre a sua situação interna e que passamos a citar longamente:

“ Basta olhar para a tendência recente do yuan enquanto divisa para se depreciar dentro da anterior banda de variação ± 0,5% (Ver gráfico abaixo). Com o mega excedente de conta corrente da China praticamente a ir-se embora, o FMI admitiu que estavam errados e que o yuan não está subavaliado. Como ao longo do tempo temos sublinhado, as forças que tendem a fazer descer o valor do yuan estão a aumentar de pressão. Não só será provável  uma dura aterragem na China como também o  recente alargamento da banda faz com que a desvalorização se torne ainda mais provável.

Em termos de potencial impacto das recentes reformas da moeda chinesa sobre a futura evolução  do yuan, a nossa excelente economista chinesa  Yao Wei resumiu muito bem a perspectiva: “a abertura de conta de capital e o aumento da  flexibilidade do  valor do yuan essencialmente dão incrementalmente mais poder , digamos assim, ao mercado para determinar o caminho do yuan… Depois do alargamento da  banda de variação face ao fixing determinado  diariamente pelo Banco Central Chinês , há mais uma razão para esperar mais alguma  pequena depreciação contra o  dólar a curto prazo, dada a nossa expectativa de desaceleração do crescimento económico da  China e o cenário global de risco na economia mundial.”

Do ponto de vista desta economista ela pensa que o yuan se irá apreciar no final do ano, se, como ela espera, houver sinais claros de que se evitou uma aterragem rápida da economia. O FMI na sua última publicação Perspectivas Económicas fez uma análise especial do saldo externo da China. É, em parte, um mea culpa sobre o que incorretamente o FMI andou a defender em que argumentavam que o  yuan estava  “substancialmente subavaliado”.

Na mesma temática diz-nos   Martin Wolf do  Financial Times  “… O  ajustamento  interno agora exigido é ainda maior do que antes da crise”. Wen Jiabao, o primeiro-ministro, tem   frequentemente descrito o desenvolvimento económico da China   como “desequilibrado, insustentável e descoordenado”. Plus ça change! Com tais desequilíbrios  internos, evitar uma aterragem rápida  será extremamente difícil.

Se estamos correctos e se verificar então uma aterragem rápida na economia chinesa, aumenta  a capacidade das autoridades chinesas em  desvalorizarem o yuan, tanto tecnicamente na sequência das recentes reformas como  politicamente à luz das mudanças perspectivadas e publicadas pelo FMI”. E vejamos, mesmo que por um gráfico apenas , a estrutura do excedente comercial da China e as conclusões são imediatas quanto ao perigo de uma maior agressividade comercial do Império do Meio via taxa de câmbio e tanto mais assim quanto se admita que os restantes países da zona e concorrentes com a China possam vir a  fazer o mesmo. Valida-se assim uma eventual descida das moedas do Sueste Asiático contra esta Europa completamente indefesa, manietada nos esquemas que ela construiu e permitiu que dela fizessem  um espaço cativo. Vejamos o gráfico seguinte:

Repare-se  que já pesa mais no excedente comercial da China a fileira maquinas  e equipamento industrial  do que o têxtil,  a mostrar que a China está a subir na própria especialização internacional e com qualidade, coisa que em Portugal se parece ignorar. Mostra-se assim que a desregulação pode também ser entendida como um processo de desindustrialização que desta concorrência são vítimas e de na Europa os seus sinais devastadores são já bem evidentes por todo o lado.

O texto de Albert Edwards é bem claro. Esperemos apenas que haja outros ventos que dissipem estas nuvens negras que sobre todos nós se abatem. Tal como o FMI mudou totalmente de linha de conduta face ao yuan, por interpostas forças acredita-se,  quem nos diz que não pode haver uma mudança total de orientação da Troika   quanto às políticas impostas até agora a esta pobre Europa já, e por isso mesmo, à beira do colapso total?

Estes ventos, cabe-nos a todos nós criá-los, nas ruas, nas fábricas,  nos hospitais, nos campos, nas Universidades,  em todos os sítios onde haja quem trabalha e que volte a ganhar coragem de dizer NÃO a este absurdo civilizacional: à  destruição da Europa, à  destruição de todos nós.

E, para esses ventos criar, juntemo-nos, sejamos todos como um  rio, como as águas que se juntam pouco a pouco ao longo do seu trajecto e ao longo dele vão ganhando a força necessária,  a caminho do ponto de chegada, com ordem mas de forma bem  determinada.  E só desta forma  se ganha a força necessária para esta dramática situação combater, só  assim se ganha a disponibilidade em força transformada  para a mudança os poderemos convencer, só assim se ganha a capacidade para a mudança os poderemos vencer.  E antes que seja tarde. Desta força assim alcançada, as gerações passadas sentir-se-iam dignificadas  e as gerações futuras disso sentir-se-ão também todas elas honradas.

Bibliografia

  1. Albert Edwards, no site   ZeroHedge.
  2. Asian Development Bank, Asian development outlook 2012 update. Services and Asia’s future growth.
  3. Blog Insider Business, diversos artigos de Albert Edwards
  4. Diversos artigos do Financial Times
  5. Diversos artigos da publicação Econotes da Société Generale, Paris.
  6. Fabius Maximus What You’re Not Being Told About the World Economy, but Should Know
  7. FMI, PEOPLE’S REPUBLIC OF CHINA 2012, ARTICLE IV CONSULTATION, Julho de 2012.
  8. MarketWatch, Wall Street Journal, Beware China’s quantitative tightening
  9. The Economist, A lesson from the Weimar Republic about balancing the budget, Fevereiro de 2010.
  10. FMI, World Economic Outlook, Coping with High Debt and Sluggish Growth, Outubro 2012.

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