O PATO ALGEMADO – VIII – por Sérgio Madeira

o Pato algemado

É VELHA, MAS TEM GRAÇA

 

O ESTRANHO CASO DO PASTOR ALEMÃO – Como falar com Deus em vinte lições – por Sérgio Madeira

A Pastelaria Alsácia ficava na Avenida de Berna e exibia logo na fachada um cartaz que dizia – «As melhores bolas de Berlim do mundo!».

– E o que tem isso a ver com o assassínio do senhor comendador Emanuel de Sousa Figueira? – perguntara o Pais que naquela manhã ia no quarto pastel de bacalhau.

Filipe explicou. Marília descobrira casualmente que o proprietário da pastelaria era um ex-cunhado do comendador Sousa Figueira. Libânio Teixeira Lobo. Era conhecido entre os comerciantes vizinhos como o «Lobo da Alsácia».

– E então? – o Pais estava um pouco impaciente e sem disposição para ouvir mais uma vez a história do Palim sexto, o tal rei da Barbilónia…

Filipe soubera que o senhor Lobo era um fiel da igreja luterana e que fora ele quem tentara arranjar um patrocínio da Fundação Sousa Figueira para a edição do livro de Boagren. Tudo isto fora, por mero acaso, descoberto por Marília que consultando no Google a genealogia dos Sousa Figueira, chegara ao senhor Lobo, irmão da ex-madame Figueira – Almerinda Lobo de Sousa Figueira.

Nesta altura da conversa, o Pais tirara da pasta um dossiê: «Como falar com Deus em vinte lições, do pastor Franz Boagren, traduzido do alemão por João Paralelo de Sousa, era um texto, um print com cerca de cem páginas em Times New Roman, corpo 12, entrelinhado a 1,5 estava

Quando o inspector Pais o mostrara a Filipe Marlove, num dos matinais encontros no café da Duque de Loulé, a dois passos da Judiciária, logo a suspeita assaltara Filipe – «O pastor alemão», dissera o comendador Emanuel de Sousa Figueira. A polícia tentara encontrar o senhor João Paralelo de Sousa, mas os respeitáveis ministros da Igreja luterana em Lisboa, não o conheciam. Como sabemos, Filipe Marlove, confiando numa intuição que tropeçava ainda mais nas ideias do que os seus pés em tapetes, carpetes e capachos, partira para Darmstadt. Franz Boagren não fazia ideia do que se passara em Pero Pinheiro. Não sabia onde era. _

– Near Lisbon…

– Ah, yes, Lisbon, Spain.

E mostrara a Filipe provas de que no dia e à hora do crime, oficiava na Igreja de Darmstadt. Tudo acompanhado por uma solicitude escarninha que as pessoas caridosas costumam ter para com os atrasados mentais.

No avião, Filipe passara os olhos pelo texto. Coisa hábil e bem escrita (embora com um português eivado de castelhanismos…). Numa primeira parte, desenvolvia os princípios da verdade luterana. Dava-os como verdade incontestável e depois, assente em pressupostos, dizia como estabelecer contacto com o ente supremo em vinte passos, em vinte lições.

Coisa bem feita – cada lição terminava com um questionário com perguntas pertinentes. A resposta era sempre dada por uma transcrição da Bíblia  – «a palavra de Deus» . Falar com Deus era aprender a encontrar na Bíblia a resposta para cada pergunta: Estava Filipe recordando estes pormenores quando Marília, ruborizada pela emoção, quase gaguejando lhe veio trazer a noticia: – O senhor Lobo, morrera. Ingestão de veneno misturado no creme de uma bola de Berlim.

A seguir – o post it amarelo sobre João Paralelo de Sousa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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