
Reformar a Libor, ” porque é necessário restabelecer a confiança dos investidores nos mercados financeiros,” afirma Martin Wheatley, o Director de Financial Services Authority. Esta deve publicar as suas propostas no final de setembro.”
A Libor (London Interbank Offered Rate) deve sobreviver ao escândalo da sua manipulação pelos traders de 20 grandes bancos e pelas suas filiais. A manutenção desta ferramenta, a taxa que determina a taxa à qual os bancos emprestam uns aos outros e serve como um valor de referência para 350 000 mil milhões (278 000 milhões de euros) de produtos financeiros a prazo que se negoceiam diariamente deve, no entanto, passar por mudanças sérias no que diz respeito à sua gestão e à sua elaboração, ou seja, deve ser sujeita a alterações na metodologia usada para o seu cálculo.
A Comissão Europeia lançou na quarta-feira, 5 de Setembro, uma consulta para determinar se ela deve legislar sobre a formação dos índices. “É essencial que sejam tomadas medidas para garantir a integridade e o processo de criação dos índices de referência” argumenta o Comissário Europeu responsável pelos serviços financeiros, Michel Barnier.
É urgente a reforma da Libor, “porque esta deve restabelecer a confiança dos investidores nos mercados financeiros”, diz também, Martin Wheatley, director da Financial Services Authority, nomeado pelo governo britânico para estudar e tirar as devidas conclusões deste escândalo . Martin Wheatley apresentará o seu processo de consulta na sexta-feira, 7 de Setembro e deverá publicar as suas propostas no final do mês.
Nas últimas semanas houve imensas revelações sobre abusos cometidos em torno da taxa interbancária. Nada menos que dez reguladores a nível mundial estão a trabalhar nesta matéria.
Ganhar dinheiro, muito dinheiro, e ganhá-lo muito facilmente
O escândalo rebentou em 27 de Junho, quando o banco britânico Barclays revelou que iria pagar mais de 360 milhões de euros para pôr fim às investigações dos reguladores britânicos e americanos.
O Royal Bank of Scotland (RBS) também negociou um acordo à amigável com as autoridades americanas e britânicas. Um dos seus traders em Singapura, Tan Chi Min, demitido em 2011 pelo seu suposto papel no escândalo, disse que a filial de Londres ignorou as suas advertências sobre a manipulação de um de seus colegas. Segundo este trader os dirigentes queriam esconder os problemas da instituição escocesa aquando do rebentar da crise financeira no Outono de 2008.
Os bancos participantes na determinação da Libor comunicam diariamente as suas estimativas quanto às taxas em que eles pensam poder levantar fundos no mercado interbancário junto dos seus homólogos da British Bankers’ Association (BBA), a associação dos banqueiros britânicos responsáveis para pelo cálculo da Libor.
A flexibilidade dos candidatos é tanto maior quanto o BBA nunca levanta qualquer questão sobre a qualidade e a veracidade das informações concedidas. A composição do seu Comité é secreta, o seu funcionamento é opaco. Quanto às autoridades reguladoras estas têm estado completamente desinteressadas face ao que acontece na sede da associação.
Os traders do Barclays tinham percebido que poderiam ganhar muito dinheiro e de maneira muito fácil: aumentando ou diminuindo de alguns pontos base a taxa que o banco deve apresentar para o BBA, eles poderiam assim prever a orientação da Libor e de consequentemente apostarem nos mercados sem correr muitos riscos. Estes estavam “associados” alguns homens e mulheres do Tesouro, encarregados de apresentarem essas taxas e que seriam em princípio independentes.
ABORDAGEM MUSCULADA
Apesar da falta de transparência e das disfunções do mecanismo, ninguém levantou ousou levantar um dedo. A Libor escapa a toda e qualquer supervisão regulamentar. “Enquanto parecia não haver problemas com a Libor, os reguladores não viram motivo para intervir. Do seu ponto de vista o mecanismo funcionava mesmo bem ” “assegura o advogado Owen Watkins, antigo responsável pelos mercados.
Durante as suas inspecções frequentes, os reguladores da autoridade dos mercados nunca se queixaram dos estreitos contactos entre o tesouro e os traders. Quanto aos controladores internos e aos responsáveis pela deontologia todos eles são incapazes de saber o conteúdo das conversas numa sala de mercados ou mesmo fora do banco.
O Tesouro britânico gostaria de ter uma abordagem pesada para acabar com as práticas dos faltosos . Martin Wheatley optou por uma acção conjunta, concertada, com a City que aumentou a pressão ao mais alto nível para limitar os objectivos e o alcance da sua investigação – e tê-lo-á feito com sucesso.
No seu relatório, Martin Wheatley defende que se mantenha a ferramenta que é a Libor. “Não é certo que as propostas alternativas sejam significativamente melhores. Qualquer que seja o novo índice esta terá as suas fraquezas, disse Anthony Murphy, um dos directores do consultor Promontory Financial, que acaba de publicar um estudo sobre o assunto. “Devido ao grande volume e à variedade de contratos com base na Libor, o seu substituto terá um custo substancial.” Desembaraçarmo-nos da Libor também provocaria um quebra-cabeça jurídico dada a necessidade de se reescreverem todos os contratos.
Aos olhos de Murphy, o cálculo da taxa deve basear-se mais nas transacções efectivas do que nas estimativas do que sobre as taxas que não passam de estimativas e pertencem mais ao domínio da arte de adivinhar . Outras informações de mercados relacionados com a Libor, a como por exemplo o euro-dólar ou os mercados sobre futuros de divisas poderiam ser incluídas nos cálculos. O número de participantes deve ser limitado para evitar o aumento do risco de derrapagem.
Wheatley sugeriu então: a responsabilidade de Libor poderia ser confiada ao regulador. Além disso, os participantes ficariam sujeitos ao Financial Services and Markets Act autorizando a instauração de processos criminais em caso de abuso. As propostas que Wheatley fará devem ser integradas posteriormente numa futura lei de regulação financeira.