BREVE MEMÓRIA SOBRE O TERRAMOTO DE 1755 . por Carlos Loures

«Sábado, primeiro de Novembro, e vigésimo oitavo da Lua, amanheceu o dia sereno, o Sol claro, e o Céu sem nuvem alguma». (…) «Pouco depois das nove horas e meia da manhã» (…) «começou a terra a abalar com pulsação do centro para a superfície, e aumentando o impulso, continuou a tremer formando um balanço para os lados de Norte a Sul, com estrago dos edifícios, que ao segundo minuto de duração começaram a cair, ou a arruinar-se, não podendo os maiores resistir aos veementes movimentos da terra, e à sua continuação. Duraram estes, segundo as mais reguladas opiniões, seis para sete minutos, fazendo neste espaço de tempo dois breves intervalos de remissão este grande Terremoto. Em todo este tempo se ouvia um estrondo subterrâneo a modo de trovão quando soa ao longe».

São palavras de uma testemunha ocular – Joaquim José Moreira de Mendonça na sua História Universal dos Terremotos que tem Havido no Mundo, de que há notícia, desde a sua criação até o século presente, Lisboa, 1756 – citado por Helena Carvalhão Buescu em O Grande Terramoto de Lisboa, 2005.

Na manhã de 1 de Novembro de 1755, dia de Todos-os-Santos. Pelas 9, 30 com as igrejas cheias de gente. Sucessivos abalos de grande magnitude, um tsunami e, finalmente, um incêndio, destruíram uma das maiores cidades da Europa, à época com 275 mil habitantes.  O cálculo das vítimas mortais vai, segundo alguns, às cem mil pessoas. Supõe-se que o terramoto de Lisboa terá atingido o grau 8,7 na escala logarítmica de Richter. Mas este não foi o primeiro grande sismo de Lisboa.

Em 26 de Janeiro de 1531 Lisboa foi em grande parte destruída por um abalo sísmico de grande magnitude. À época, a cidade teria 100 mil habitantes. Fala-se em 30 mil vítimas mortais As zonas mais afectadas não foram as mesmas nos dois terramotos. A informação sobre o sismo de 1531 não é tão abundante como a de 1755. Sabe-se que houve grandes prejuízos – na  principal rua, a Rua Nova, caíram varandas e os edifícios abriram enormes fendas. Uma ala do palácio real, o Paço da Ribeira, sofreu grandes estragos. A Torre de Belém e  o Mosteiro de Belém (Jerónimos) foram também duramente atingidos. O Bairro Alto, um dos primeiros bairros europeus com planta em quadrícula, foi construído para colmatar a destruição causada pelo sismo de 1531. Garcia de Resende na »Miscelânea», descreve: Todos com medo que haviam/deixaram casas, fazendas;/nos campos, praças dormiam//em tendilhões e em tendas,/casas de ramas faziam;/as mais noites velando,//temendo e receando;/porque tremor não cessava;/a gente pasmada andava/com medo, morte esperando».

.A explicação científica envolve áreas como a sismologia, a geotecnia, a engenharia e não tem cabimento num texto como este. Digamos apenas que o contacto entre as placas tectónicas Euro-Asiática e Africana, será o motivo da frequência com que se verificam sismos em Portugal. Em 1531, o conhecimento  que explica estes fenómenos  era reduzido o que abria caminho à crendice e superstição – frades de Santarém atribuíram catástrofe á presença de «cristãos novos», Gil Vicente rebateu a tentativa de culpar os judeus, em carta que leu ante os próprios frades. Atacou as homilias que afirmavam que os cataclismos resultavam da ira divina pelos pecados dos homens e escreveu  uma carta a D. João III condenando a perseguição aos judeus.

 As obras de Cristóvão Rodrigues de Oliveira, Lisboa em 1551 (Em que brevemente se contêm algumas coisas assim eclesiásticas como seculares que há na cidade de Lisboa, Grandeza e Abastança de Lisboa em 1552, de João Brandão (de Buarcos) e na Descrição da Cidade de Lisboa, de Damião de Góis, dão-nos uma ideia de como a cidade de Lisboa ficou após a reconstrução. Em 1755 a cidade seria semelhante ao que lemos nas descrições seiscentistas.  Perante a nova cidade construída em cima das ruínas da urbe medieval, é difícil imaginar como seria se não tivesse havido o terramoto. É incalculável o valor do que se perdeu – conventos, palácios, igrejas, o Castelo,  a Casa da Relação, o Paço da Ribeira (e a sua biblioteca de 70 mil volumes), a Torre do Tombo, seis hospitais, incluindo o de Todos-os-Santos, 33 palácios da grande nobreza,. a Patriarcal, o Arquivo Real, a Casa da Índia, o Cais da Pedra, a Alfândega, as livrarias do marquês de Louriçal e dos conventos de S. Domingos, do Carmo, do Espírito Santo, documentos, quadros, baixelas valiosas, a faustosa Ópera do Tejo, inaugurada sete meses antes…

Numa época em que os filósofos punham em causa princípios que pareciam sagrados, a destruição em minutos de uma das maiores cidades da Europa vinha demonstrar a insustentável leveza do ser humano face à incomensurável grandeza… de quê? De  Deus? Da Natureza? O terramoto agitou a Europa das Luzes. Serviu de pretexto para equacionar questões relacionadas com a religião, com conceitos filosóficos, com o papel do homem no universo. A principal interrogação que se colocava pouco antes da Revolução de 1789, era a da prevalência da vontade divina –  que poder de decisão o homem assumia quanto ao seu devir. – quem mandava – Deus ou o homem?  Os exemplos mais referidos são O Poema sobre o desastre de Lisboa, escrito em 1756 por Voltaire  e a resposta de Rousseau – Carta a Voltaire,  os Escritos sobre o Terramoto de Lisboa, de Kant e palavras de Goethe: “porventura em algum tempo o demónio do terror espalhou por toda a terra, com tamanha força e rapidez, o arrepio do medo”. O poema de Voltaire tem um subtítulo – «Ou exame do axioma “”Tout est bien quand finit bien”», contesta que o mundo criado por Deus, foi tão bem concebido que, quando um «mal»  ocorre, a Divina Providência compensa os homens com um «bem» superior a esse mal.

O terramoto que destruiu Lisboa foi um forte argumento contra àquele conceito optimista e ao fatalismo que não valoriza a intervenção humana. A reflexão voltaireana introduz o determinismo como elemento fundamental. O alvo eram os postulados metafísicos de Leibniz, de acordo com os quais o nosso mundo é o melhor, pois foi o escolhido e criado por Deus. Na Teodiceia, Leibniz ataca a negação filosófica de  Deus. Voltaire, no poema, pergunta com ironia se Deus é tão bom como permitiu tal tragédia. Em Candide, ou l’optimisme (1759) o terramoto de Lisboa é  a negação do optimismo de Leibniz.

Jean-Jacques Rousseau, em  1756, na sua Lettre sur la Providence, contraria Voltaire, sem apoiar Leibniz – nem a culpa do que ocorreu em Lisboa seria de Deus, nem terá decorrido de causa natural. O motivo da tragédia teriam sido a falta de «integridade» dos homens, provocada pela degradação social, por aquilo que Marx no século seguinte definiria como a vertigem da acumulação do capital. Como exemplo, Rousseau, referia o facto de em Lisboa haver cerca de vinte mil casas com seis e mesmo sete andares, o que era contrário à Razão. A cupidez, a ânsia de lucro, a corrupção da natureza humana que Deus atribuiu aos homens, eis a causa da tragédia. Kant, nos Ensaios , referindo-se à generalidade das pessoas: «Como o terror lhes rouba a reflexão, julgam que estas grandes desgraças são das tais que não se podem minorar por qualquer precaução e supõem que a dureza do destino só pode ser abrandada por uma submissão cega e entregam-se completamente à misericórdia ou à cólera divina». J.R.A. Piderit (1710-1791), em Freye Betrachtung über das neuliche Erdbeben zu Lisabon (Marburgo, 1756, citado por Isabel Barreira de Campos em O Grande Terramoto -1755, Lisboa, Parceria, 1998), narrou sem especular: «Aqui uma caterva de gente contorcia-se sob os escombros, nas mais cruenta agonia. Além gritos lancinantes de morte coavam através das pedras e da terra, e a ninguém era possível acudir aos desventurados que se debatiam sozinhos. Mas além um desgraçado rasgava as unhas e a carne até aos ossos, a fim de salvar a sua pobre vida de uma cova – tal, porém, para nada mais lhe valendo senão para se tornar em coveiro de si mesmo, porquanto, com suas mãos, preparava o próprio túmulo».

Em Portugal, com a Inquisição a ser usada pelo marquês como polícia política, quase não houve especulações filosóficas, embora se tenham publicado muitas obras sobre a catástrofe, descritivas, na sua maior parte, pois o marquês depressa fez saber a sua opinião através de um panfleto que  profusamente distribuído – o sismo fora motivado por causas naturais, não haviam intervindo forças sobrenaturais. Ponto final.  Paulino António Cabral, Abade de Jazente com  Ao Terramoto do Primeiro de Novembro de 1755. Romance Fúnebre!. arrisca uma reflexão sobre o efeito que «um só momento» pode ter no frágil mundo dos humanos e a imponderabilidade do destino. Outros livros houve, como por exemplo a Nova e Fiel Relação do Terremoto, que experimentou Lisboa e todo Portugal no 1º de Novembro de 1755, de Miguel Tibério Pedegache, ou, de D.J.F.M., Teatro Lamentável, Cena Funesta: Relação Verdadeira do Terremoto do primeiro de Novembro de 1755», ambos publicados em 1756. A lista completa de títulos é grande e, para o que pretendo dizer, inútil. Entre as excepções à onda descritiva ou meramente oratória,  pois ir mais longe era perigoso.

Acabaram mal as duas transgressões – a do padre Malagrida e a de Cavaleiro de Oliveira. O jesuíta Gabriel Malagrida no opúsculo Juízo da Verdadeira Causa do Terramoto que Padeceu a Corte de Lisboa no 1º de Novembro de 1755, considerava que a catástrofe fora um castigo divino para os desmandos humanos. Foi desterrado, mas sendo depois envolvido no processo dos Távoras, foi condenado à morte, estrangulado, o corpo queimado e as cinzas deitadas ao rio. Francisco Xavier Oliveira, Cavaleiro de Oliveira, com um Discurso Poético sobre as Calamidades presentes sucedidas em Portugal. Seguimento do Discurso Patético, ou Resposta às Objecções e aos Murmúrios que esse escrito sobre si atraiu em Lisboa, dirigindo-se ao rei, acusava, Voltaire e o próprio Marquês de Pombal de ateísmo. Conseguiu escapar, sendo apenas queimado em efígie

O Marquês de Pombal proibiu as especulações e preocupou-se com as questões práticas – como reconstruir uma cidade numa região sísmica. Ordenou um inquérito à escala nacional – um formulário foi impresso com elevada tiragem. A forma mais expedita de o fazer chegar a todas as partes, foi encarregando as paróquias de o distribuir, ajudar no preenchimento e recolha. Dizem os especialistas que este inquérito foi redigido de forma notável, procurando com o seu leque de perguntas a obtenção de informações de tipo «macrosísmico». Ainda hoje seriam correctas.

 Num trabalho de 2005, Hubert Reeves diz que a construção urbana lisboeta fugia à tipologia-padrão da época. Prédios muito altos e ruas muito estreitas, pelo que o colapso de um edifício implicava a queda de outros, num literal efeito de dominó. Os maiores danos foram no tecido urbano da Baixa onde se concentrava o centro medieval por excelência – casas com o exterior em alvenaria e o interior em madeira (ou taipa) e que subiam até seis pisos.

Uma cidade nova,  muito moderna para a época em que foi construída e, pormenor importante, edificada de acordo com um sistema anti-sísmico – a famosa estrutura  flexível de madeira dos edifícios, «em gaiola». Como disse José Augusto França, a nova Lisboa saída do inspirado traço de Eugénio dos Santos,  surge como uma autêntica «cidade das luzes», uma obra emblemática do espírito do iluminismo. A necessidade de uma reconstrução rápida, implicou optar por um estilo que, segundo Nelson Correia Borges, se inspira «num passado arquitectónico, recente ou longínquo, de Lisboa, numa combinação de maneirismo revivido com alguns pormenores empobrecidos do barroco e do rococó». Em todo o caso, apesar do despojamento formal que caracteriza o «pombalino», a reconstrução deu – nos uma praça de beleza ímpar, como é o Terreiro do Paço.

Um desenvolvimento deste tema, pode ser lido nos seguintes textos já publicados:

http://aviagemdosargonautas.net/2011/10/28/o-terramoto-de-1755-1-por-carlos-loures/

http://aviagemdosargonautas.net/2011/10/29/o-terramoto-de-1755-2-o-antecedente-de-1531-por-carlos-loures/

http://aviagemdosargonautas.net/2011/10/30/o-terramoto-de-1755-3-por-carlos-loures/

http://aviagemdosargonautas.net/2011/10/31/o-terramoto-de-1755-4-por-carlos-loures/

http://aviagemdosargonautas.net/2011/11/01/o-terramoto-de-1755-5-por-carlos-loures/

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