UMA OUTRA NUVEM NEGRA, A OITAVA, PAIRA ENTRE WASHINGTON E PEQUIM E SOBRE TODO O MUNDO TAMBÉM

Selecção, tradução e nota de leitura por Júlio Marques Mota

4.   A propósito das propostas de Mitt Romney sobre o comércio externo com a China

A matemática eleitoral quanto á postura de Romney sobre o comércio externo com a China, um texto do New York Times

WASHINGTON – Entre todos os itens do plano de Mitt Romney estão 59 pontos sobre economia, está a sua promessa de acabar com a política comercial actualmente praticada pela China e é esta que parece ser a mais invulgar de todos eles.

Isso não é por causa da sua promessa de considerar a China de ser um país “manipulador da sua taxa de câmbio” e da imposição de tarifas como penalização, não é pois porque esta seja uma posição única, que não é. Muitos políticos de ambos os lados expressam fortes críticas à política comercial da China.

O que é fora do comum é que Romney, um antigo executivo financeiro identificado com os republicanos defensores da livre-troca, da ala pró-negócios, tenha prometido ir mais longe do que os presidentes Obama e George W. Bush no confronto com a China. Alguns outros seus amigos republicanos igualmente da ala pró-negócios avisam que esta sua abordagem poderia desencadear uma guerra comercial contraproducente e que prejudicaria a economia dos EUA.

A questão política é saber se a posição de Romney pode atrair votos suficientes para lhe dar a oportunidade de a colocar em prática. Esta questão ecoa através das primárias republicanas, em que ele se esforçou para se ligar com a classe operária conservadora, e surge perante a possibilidade de uma eleição contra Obama.

Estrategas republicanos e democratas dizem que efectivamente um confronto com a China pode desencadear um sentimento público de ansiedade no quadro do mal-estar da economia. A administração Obama apresentou recentemente uma queixa junto da Organização Mundial do Comércio contra a manipulação da China relativamente às cruciais exportações de terras minerais raras e impôs tarifas sobre os painéis solares de origem chinesa para combater o que considera como subsídios desleais concedidos a esta fileira industrial por parte de Pequim.

“Entre os eleitores especificamente os ditos de colarinho azul, há uma percepção de que temos um adversário económico na China que não joga pelas mesmas regras”, disse Geoff Garin, um pesquisador democrata. E esta preocupação “atravessa todas as linhas socioeconómicas”, disse Tony Fabrizio, um investigador republicano, que disse que os eleitores de rendimentos mais altos temem que a detenção pela China de grande parte da dívida pública dos Estados Unidos ameace a segurança americana.

No entanto, figuras proeminentes que geralmente partilham as perspectivas económicas de Romney criticaram a sua atitude, o que o editorial do Wall Street Journal chamou de “Romney Blunder China.” Os líderes de negócios, enquanto que pressionam a China para que esta abra os seus mercados e proteja os direitos de propriedade intelectual, garantem que a rotulagem da China como um país manipulador da sua taxa de câmbio pode ser um tiro que venha a sair pela culatra aos Estados Unidos e que pode prejudicar os esforços referidos.

Jon M. Huntsman Jr., que foi embaixador na China, antes de embarcar na sua tentativa fracassada de nomeação presidencial republicana, acusa Romney de ser “um verdadeiro crápula ” sobre esta matéria antes de sair da corrida e de lhe dirigir este adjectivo. Rick Santorum, agora em concorrência com Romney para os votos de colarinho azul, assumiu também uma posição semelhante.

“Nós todos sabemos o que Mitt Romney fará e que dirá seja o que for para conseguir votos”, disse Hogan Gidley, director de comunicações de Santorum, candidato às primárias republicanas.

Os assessores de Obama consideram a postura de Romney como hipócrita. Uma família Romney que tem uma confiança cega numa participação num fundo de investimento, estabelecido pela sua antiga empresa, a Bain Capital, que “comprou uma empresa chinesa de vigilância vídeo. E no seu livro de 2010, ” No Apology “, Romney critica Obama por ter imposto uma tarifa sobre as importações de pneus vindos da China. Ao acusar Obama de agir desta forma para recompensar os seus apoiantes dos sindicatos, Romney escreveu, “O proteccionismo sufoca a produtividade.”

A postura de Romney quanto á moeda chinesa “é quase tão autêntica como o é o seu breve namoro com os buracos do queijo”, disse David Axelrod, estratega principal da política de Obama. “Quando se constrói uma carreira em torno de externalização da produção, em torno da redução de salários e de empregos e se lucra generosamente com a falência de empresas, eu não acho que as pessoas se vão interessar pelo que é uma óbvia conversão para este ano de eleições.”

Um assessor de Romney, Vin Weber, inicialmente espantado questionou- se se esta posição era ou não o reflexo de um cálculo político. Quando ele se juntou no ano passado às discussões internas sobre o futuro plano económico de Romney, Vin Weber disse que procurou persuadir outros assessores económicos para abandonarem a prometida política fortemente agressiva contra a moeda chinesa até porque a considera ainda um erro político. Logo que pode Vin Weber foi discutir directamente o assunto com o candidato – que rejeitou o seu apelo e insistiu que a sua política é o caminho certo.

“Esta política é directamente dele”, disse Weber a um lobista em Washington e antigo congressista republicano de Minnesota. “Ele acredita que vai endurecer substancialmente a posição americana. Mitt Romney é uma pessoa que vê a si mesmo como um negociador de sucesso. “

O argumento que está na base da argumentação de Romney é sua afirmação de que os presidentes recentes de ambas as partes foram ” tocados como um violino” (played like a fiddle) pelos líderes chineses. Ao manter o valor do yuan contra o dólar mais baixo do que as forças de mercado o ditariam, Pequim torna as exportações para os Estados Unidos mais baratas e as importações dos Estados Unidos mais caras. Num debate dos republicanos no ano passado, Romney disse que o interesse da China em cordiais relações com um grande cliente, gigante com um mamute como é o caso dos Estados Unidos, impediria a sua política de lhe sair pela culatra.

“Acha que eles querem fazer uma guerra comercial?” questionou Romney. “Se não está disposto a levantar-se contra a China, será atropelado pela China, e isso é o que já aconteceu há 20 anos.”

Essa afirmação é também uma crítica aos veteranos da administração de Bush, que em 2006 iniciou um “diálogo económico estratégico” com a China liderada pelo secretário do Tesouro, Henry M. Paulson Jr., um antigo presidente do Goldman Sachs. A administração Obama alargou este diálogo, pressionando Pequim a aumentar o valor do yuan enquanto deixava de declarar a China como um manipulador da sua taxa de câmbio.

“Tanto a Administração Bush como a de Obama foram tão agressivas quanto lhes foi possível enquanto simultaneamente protegeram o povo americano”, disse Neel T. Kashkari, um funcionário do Tesouro do governo Bush agora a trabalhar na Pimco, a empresa gigante na gestão de títulos. “O lançamento de uma guerra comercial com a China ir-nos-ia fazer tanto mal a nós como a eles.”

O plano económico que Romney assume soa como se ele esteja já disposto a correr esse risco. Ele considerou a luta contra a política cambial chinesa como uma das cinco decisões que se compromete a emitir no “Dia 1” da sua presidência.

Mas uma leitura atenta da linguagem usada sugere que ele próprio se deixou de fora. Ele compromete-se a rotular a China de manipulador da taxa de câmbio “se a China não deixar rapidamente flutuar sua moeda.”

A China já esteve a aumentar de alguma coisa o valor da moeda em relação ao dólar nos últimos anos, inclusive de 4,7 por cento em 2011. Alguns especialistas sobre a política chinesa prevêem que a política de Romney como presidente iria descobrir uma maneira de contornar a sua promessa eleitoral e uma vez que esta promessa lhe venha a dar a governação.

“É uma campanha, apesar de tudo”, disse Nicholas R. Lardy, um investigador do Instituto Peterson em Economia Internacional. ” A minha previsão é de que, se Romney se tornar presidente, haverá pouca ou nenhuma mudança na nossa política para com a China.”

The Electoral Math of Romney’s Stance on Trade With China By JOHN HARWOOD. Disponível em:

http://www.nytimes.com/2012/03/23/us/politics/mitt-romneys-stance-on-china-trade.html?pagewanted=all

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