DIÁRIO DE RUTH MAIER – 4 – por Manuela Degerine

Conclusão

Ruth conclui o liceu e quer ganhar a vida: conquistar autonomia. Através do Serviço do Trabalho Feminino encontra Gunvor Hofmo, uma jovem norueguesa que se tornará poeta, a sua grande amiga e, no deserto em que vagueia, uma grande paixão. Encontra outras amigas. Sente-se porém muito vulnerável e é internada de 3 de fevereiro a 27 de março de 1941; sofre de depressão. Desenha e pinta todavia com assiduidade, ouve, observa e narra o que a rodeia. Após a leitura de Sigmund Freud: analisa os seus sonhos, os sonhos de Gunvor. Continua a interessar-se pelos outros. Na primavera e verão seguintes trabalha ou viaja, feliz por compartilhar escrita, leituras, paisagens e vida quotidiana com a amiga; depois inscreve-se (com Gunvor) numa escola de secretariado. Começa a posar para artistas plásticos. Escreve poemas. Continua a pintar. Continua atenta ao que a rodeia, pessoas, lugares, política, sentimentos; admira a coragem e a dignidade dos noruegueses.

No ano seguinte Ruth consegue alugar quarto num lar de raparigas. Em setembro de 1942 escreve: ” Há uma pequena estante ao lado da cama. Está escuro e o candeeiro, uma luminária branca de hospital, não ilumina nada. Gunvor aparece, de vez em quando, no seu casaco cinzento. Leio. Agora leio muito.” Vai a aulas de desenho nas Belas Artes de Oslo; começa a admitir que poderá ser pintora. Embora viva de modo mais equilibrado, o nazismo sobrepõe-se a cada instante: “E não te sobressaltes cada vez que uma porta se abre ou fecha. Ninguém te vem buscar. Ninguém te vem buscar!” (1.09.1942)

É presa no dia 26 de novembro de 1942. Tem vinte e dois anos. As amigas prometem que lhe guardam o relógio até ela voltar, Ruth replica: “Não voltarei”. É levada para Auschwitz com cerca de quinhentos noruegueses. São mortos nas câmaras de gás e a seguir queimados. (Como dizer o que não cabe nas palavras?…)

A partir da correspondência, oito diários, desenhos, poemas e outros textos, assim como as fotografias que restam, Jan Erik Vold publicou a obra que agora saiu em tradução francesa: Le Journal de Ruth Maier, Une jeune fille face à la terreur nazie, 1933-1942, (O Diário de Ruth Maier, Uma rapariga perante o terror nazi, 1933-1942), edição de Jean-Claude Gawsewitch, Paris, 2012 ( 23,90 euros). Vivemos com Ruth Maier durante quase dez anos, vemo-la lutar, sentir, pensar, aprender, desejar, interrogar… Vemo-la crescer. Vemo-la construir, com tanta dor, com tanto esforço, com tanto talento, o seu caminho. E, quando chegamos ao fim da leitura, Ruth Maier passou a fazer parte de nós.

Tenho sonhado com Ruth Maier: uma amiga distante no tempo. Tão singular. Tão corajosa. Tão generosa. E, quando converso com a minha sogra, apenas oito meses mais nova do que ela, penso que Ruth Maier poderia estar hoje viva, ter escrito, pintado, representado… Ter vivido.

Todos sabemos o peso – a responsabilidade – que representa ser hoje alemão. E se pensarmos no que se passou por quase toda a Europa: não só alemão. Muitos cidadãos encaram este passado com indiferença, mas muitos outros assumem a responsabilidade. (Não a culpabilidade, os culpados morreram.) Entretanto passaram-se quase setenta anos e, na História comum dos países europeus, nunca houve uma paz tão longa: ganhámos milhões de vidas. Mesmo se a Europa representasse apenas isto, valia a pena continuarmos a construí-la. Ruth Maier merece-o.

Leave a Reply