A “recherche” do darwinismo social – Augusta Clara

Cá volto eu à mesma tónica: o darwinismo social. E, se volto, é porque  um tema, até agora, praticamente só abordado nos tratados e em outras obras da área da sociologia, passou a andar na boca de comentaristas da rádio, da televisão e até em cartas de leitores dos jornais.

Agora todos dizem que este regime em que vivemos é darwinismo social. Pois é, já era. Darwinismo social e neoliberalismo são uma e a mesma coisa. Tem graça que só agora se tenha descoberto. Vão-se inventando novos termos para significar o mesmo mas isso não pode passar despercebido a quem estuda a evolução das sociedades.

Já aqui tinha dito em várias ocasiões que a referência à teoria de Herbert Spencer não se deveria fazer de forma acrítica pelos intelectuais de esquerda, claro. Agora saltou para a ribalta e ocupou o lugar que lhe compete: o duma teoria oportunista e abusiva do nome do grande cientista que foi Charles Darwin. Uma teoria que cavalgou o prestígio, o trabalho científico rigoroso e a honestidade intelectual dum homem que pôs acima dos interesses da sua classe social, a burguesia inglesa do século XIX,  os resultados a que chegou mercê de aturado e prolongado trabalho de investigação sobre a evolução orgânica das espécies que habitam a Terra.

A atestar o seu impoluto comportamento como homem e cientista estão dois factos importantes que já aqui referi noutra ocasião, mas nunca é de mais relembrar:

– Karl Marx, homenageando estas qualidades que lhe admirava, apesar da divergência das suas opções de sociedade, propôs-se dedicar-lhe um dos volumes de “O Capital”. Darwin não aceitou porque não se revia naquelas teorias. Ainda que fosse um cientista bem integrado na Academia, não sei se muitos outros teriam esta atitude de verticalidade perante um convite que continha indubitável prestígio, umas vez que Marx não era, de modo algum, um pensador de menor categoria naquela época;

–  Quando embarcou no Beagle, segundo testemunhos de marinheiros do navio, Charles Darwin lia a Bíblia. Contudo, a crença religiosa que isso faz entender, não o impediu de ter construído uma teoria até hoje inatacável do ponto de vista científico e que contraria a do livro sagrado. Darwin não deixou que um milímetro do seu racional e rigoroso trabalho de investigação cedesse à posição da Igreja, então dominante.

Darwin e Spencer pertenciam à mesma classe social mas dum ao outro vai uma abissal diferença, sobretudo em termos de comportamento humano, para além do comportamento científico. Um foi intelectualmente honesto, o outro não.

A investigação de quem perfilhava e perfilha a teoria do darwinismo social, cuja bandeira se arvorou ao som da frase “a sobrevivência do mais apto”, cunhada por Herbert Spencer e não por Darwin que não a aceitou nem a rejeitou, isto é, “não lhe ligou nenhuma”, não pretendia mais do que conduzir, em termos sociais, àquilo a que estamos a assistir hoje: à sobrevivência do mais apto … para roubar os seus congéneres.

Como se prova à saciedade, são muito aptos mas, apesar disso, de se sentirem legitimados em tudo o que fazem, não têm cara. Não sabemos quem são. Será porque lhes resta algum pingo de consciência da maldição que espalharam? Ou é só por medo?

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