EDITORIAL – UM GOVERNO A BRINCAR COM O FOGO

Este governo está literalmente a brincar com o fogo.

Ontem, milhares de militares (fala-se em dez mil), acompanhados de familiares concentraram-se na Praça dos Restauradores em Lisboa numa manifestação silenciosa. O silêncio foi interrompido pelo Grândola, Vila Morena”. Otelo Saraiva de Carvalho, em declarações aos órgãos de informação, disse que esta manifestação constitui um aviso para que o executivo recue nas «medidas brutais de austeridade». Acrescentou que as razões que motivam o protesto dos militares “são perfeitamente justificadas”, tendo em conta “a retirada de receitas” que “está a prejudicar e a violentar as garantidas de contrato” dadas aos militares, como são exemplos a redução das pensões e subsídios e a alteração dos limites de idade para passarem à reserva.

As duas  intervenções militares na vida política ao longo do último século, foram de sinal diferente – em 28 de Maio de 1926, intervieram para pôr termo ao caos em que a I República mergulhara e de que a Noite Sangrenta de 19 de Outubro de 1921 foi exemplo trágico – o chefe do governo, António Granjo, José Carlos da Maia e Machado Santos, heróis da República, entre outras figuras, foram assassinados numa revolta de marinheiros e de arsenalistas, cujas motivações nunca ficaram bem claras.

As tropas que desceram de Braga a Lisboa em 1926, tinham como objectivo pôr ordem no País. Uma Ditadura Nacional, que logo no ano seguinte, durante a chamada revolta de Fevereiro de 1927, se viu que não era tão provisória quanto tinha prometido. Jugulada a rebelião no Porto e em Lisboa, todos os revoltosos apanhados com armas na mão foram fuzilados. E foram 48 anos de ditadura em que a demagogia reaccionária nunca se esquecia de alegar a paz que trouxe á sociedade portuguesa. Isto, apesar de nos últimos 13 anos estarmos a contas com uma guerra colonial em três frentes.

E as Forças Armadas intervieram e repuseram a democracia que 48 anos antes, as tropas comandadas pelo general Gomes da Costa tinham retirado ao País.

Portanto, as Forças Armadas podem intervir a favor da reposição da legalidade democrática que este governo tem repetidamente violado. Mas a inabilidade deste executivo é de tal natureza que está também a pôr em causa interesses do poder económico. E uma intervenção para «pôr ordem na casa» também não estará completamente fora da questão.

A própria natureza das Forças Armadas dos nossos dias, nada tem a ver com o que eram em 1974 e muito menos ainda com o que eram em 1926. A imprevisibilidade do que pode acontecer se esta gente não for demitida é grande. Passos Coelho, Vítor Gaspar e companhia, estão a brincar com o fogo.

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