DUAS CARTAS ABERTAS – AOS RESPONSÁVEIS DA CRISE

De Júlio Marques Mota e Maria Negreponti-Delivani

Parte I

Uma carta aberta, mais uma, a minha e uma outra que tomo como minha e escrita pela economista grega Maria Negreponti-Delivani,  de que me apropriei, endereçadas agora as duas cartas, e supostamente enviadas também, a todos os que considero como  sendo os responsáveis institucionais pela crise que  estamos a  atravessar, Durão Barroso, Mário Draghi, BCE, FMI,  Madame Merkel, e de todos estes é  hoje sobretudo a esta que a presente carta é muito especialmente  dedicada. Naturalmente, a sua leitura fica disponível para todos os seus vassalos e fieis servidores, entre os quais o governo português e um antigo aluno meu, um dos homens fortes da Troika em Atenas . 

Ex.ªs

Pela origem de classe que nunca reneguei ou, antes, em que sempre me integrei e de que dela nunca descolei, por ser português, por ser vítima de uma destruição a que me vejo sujeito eu próprio e o meu país devido à acção de forças externas, a Troika, o BCE, a Comissão Europeia, o FMI, e devido à acção de forças internas também, o Presidente da República, o Primeiro-ministro e os seus ministros, os seus acólitos, os seus deputados e todos aqueles que:

– vivem do sangue e da seiva que escorre pelas nossas vidas de agora e pela dos nossos filhos e netos amanhã, se não hoje já, ou seja, devido à acção de todos aqueles que vivem do sangue e da seiva que se esvai do País pelas privatizações ao desbarato ao estrangeiro oferecidas e de boas vantagens a eles garantidas;

– vivem do sangue e da seiva que se esvai pelas gerações formadas que deste país são para o estrangeiro mandadas, que vivem do esfumar de uma capacidade produtiva de homens, máquinas, saberes, que se vão desfazendo nas brumas dos nossos sonhos confiscados.

Por tudo isto sinto o presente texto abaixo traduzido e que foi escrito pela economista Maria Negreponti-Delivani, pelo seu conteúdo e pelo sofrimento que dele transpira, como sendo propriedade não de um povo, aquele de onde o texto nasceu, a Grécia, mas como sendo propriedade e como sendo o grito de todo um continente, a Europa, vítima da nova barbárie, a da deflação da dívida, a das políticas de austeridade que por um milagre os nossos Gaspar, de aqui ao Bundesbank, nos garantem que ricos nos hão-de fazer, mas que por pobres teremos de passar.

Por tudo isto, sinto-o como uma exigência a apresentar não a Christine Lagarde apenas, como é o texto de referência, mas como uma exigência a apresentar a todos os responsáveis institucionais pela crise que nos amarra o presente e nos destrói o futuro.

Hoje, hoje que a representante máxima, madame Merkel, desse crime hediondo que contra um continente, a Europa, está a ser feito e ao mesmo tempo que se prepara a sua venda global ao Império do meio, preparando-se para lhe entregarem as chaves da fortaleza Europa numa bandeja de prata, hoje, dia em que a sua inspecção ao domínio pela Alemanha assim conquistado está pela imprensa a ser relatado, hoje, sobretudo hoje, é dia de dizer Não ao crime de alta traição que as elites no poder nos estão a organizar e com o qual a liberdade e a dignidade de viver nos querem usurpar.

Como expressão pensada desse grito, façamos nosso, de todos nós, o texto de Maria Negreponti-Delivani e que às autoridades citadas deve ser enviado. De resto, praticamente todo o seu texto se aplica ao caso português e nem será pois por acaso que alguns dos argumentos nele expostos foram também por nós apresentados numa carta aberta ao Presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso sob o tema de um tsunami silencioso que tinha invadido a Europa, e que lhe foi enviada há mais de um ano.

Face ao texto abaixo da economista grega, apenas haveria de alterar os dados da dívida e do défice e ainda aqui, se os valores são diferentes a tendência é, porém, a mesma, ficamos todos mais pobres e mais endividados depois do assalto organizado pelas forças externas que nos governam. Na Grécia, tal como em Portugal, hoje, como na Espanha e na Itália amanhã, como na França depois de amanhã[1], a lógica é, portanto, exactamente a mesma:

Portugal 2008 2009 2010 2011
PIB (em milhões de euros) 171 983 168 504 172 670 170 909
Défice público (-)em milhões de euros -6 236 -17 103 -16 950 -7 525
Défice público em percentagem do PIB -3,6 -10,2 -9,8 -4,4
Despesas públicas em percentagem do PIB 44,8 49,8 51,3 49,4
Receitas públicas em percentagem do PIB 41,1 39,6 41,4 45,0
Dívida Pública em milhões de euros 123 302 140 226 161 530 184 669
Dívida Pública em percentagem do PIB 71,7 83,2 93,5 108,1

Mais pobres, sem património, e também ainda mais endividados, eis a sequência da política seguida e imposta pelas autoridades acima citadas. Significa isto que a Europa, que deveria assegurar e constituir o nosso futuro, deixou de desempenhar este seu papel, para se tornar quase que exclusivamente um grande mercado assente na livre-troca, pressuposta não falseada, mas em que no universo global, não só desprotege por absoluto os seus produtores, trabalhadores e pequenas empresas, como se esvai produtivamente a caminho do Sueste Asiático, onde as armas do outro lado não são as mesmas, com as suas deslocalizações, com as sucessivas transferências de tecnologia, com a suas sucessivas concessões ao Império do Meio e a uma parte do Sueste Asiático. Para onde foi o Porto de Sines, a REN, a EDP, então?

Como é bem claro esta Europa não pretende ser nada mais do que um grande mercado único assente na livre-troca, na concorrência dos Estados membros uns contra os outros, mesmo ao nível da concorrência fiscal e o dos paraísos fiscais que lhes servem de suporte, um grande mercado aberto a todos os ventos, que deixou de proteger os cidadãos, abandonados ao seu próprio destino e às tempestades que a economia globalizada e desregulada nos vai trazendo. Só a classe dominante e os seus mais directos servidores beneficiam desta globalização selvagem. A classe trabalhadora sofre e começa a descer para os níveis do princípio do séc. XX e a classe média vê as suas condições de vida a degradarem-se e a confundirem-se elas com a situação da classe operária dos anos 70. A descida de nível destas classes sociais, é então a regra em que assenta a política europeia, bem visível aliás quando transforma em inimigo público nº 1 o próprio trabalhador com os seus direitos adquiridos e se quer ir agora mais longe, criar um segundo inimigo público, o desempregado, inimigo porque existe, inimigo porque ainda tem direitos, e que por isso mesmo é um dos alvos das Troikas, da Comissão Europeia, do BCE, do FMI.

A crise do modelo económico do Ocidente, o neoliberalismo, mergulha as nossas sociedades na desordem económica e social e na incerteza do amanhã de todos nós, uma vez que deixa de ter como função a própria reprodução das classes sociais e do sistema estruturante que é característica do Estado-Providência, que é o Estado servir como espaço onde se compatibilizam os projectos sociais, os poderes, os interesses, as aspirações, dos diferentes agentes económicos e sociais, em suma, é o espaço de representação da Democracia. A crise de 2008 sancionou a financeirização da economia. A crise da dívida soberana sancionou, é esse o objectivo até da refundação do Estado, a destruição do modelo social agora em vigor. Os objectivos são pois bem claros e nem é pois por acaso que no horizonte das políticas concebidas e exigidas aos países em dificuldade ou aos que se contorcem de toda as formas possíveis para evitarem estar sob a ameaça das agências de rating e de seguirem depois o mesmo caminho, a saída do euro aparece e é afirmada por eles mesmos como sendo hoje como impossível, para assim melhor nos sujeitarmos às políticas impostas e mais uma vez estamos perante a política do medo. Será ainda tanto mais assim quanto os nossos dirigentes apenas têm como instrumentos de política económica directos a deflação salarial e a destruição do nosso sistema social, de ensino, de formação, de investigação, de saúde, a desarticulação dos mercados de trabalho e da sua reprodução e como instrumento indirecto para a saída da crise, a esperança que a procura interna da China se dinamize para dinamizar assim o Ocidente. Em síntese, a saída encarada ao nível das Instituições Europeias é então, a imposição de um empobrecimento generalizado e à escala de todo o continente pois até a própria Alemanha, a China europeia, assenta a sua dinâmica na precarização alargada das suas condições laborais.

E, de toda esta precarização da Europa, a política económica imposta a Portugal é pois um bom exemplo, como é um outro muito bom exemplo a precarização crescente das relações laborais na Alemanha, ou ainda a falta de quadros técnicos nos países ditos ricos e sem problemas de dívida soberana que assim, com os custos de “criação” e de formação” de técnicos totalmente nulos para eles, obtém de países como Portugal e a Espanha mão-de-obra especializada e ainda altamente seleccionada nos países de origem, a nata portanto, para lhes suprir a carência de pessoal médico, paramédico, das engenharias e das informáticas, que não formaram e agora aos preços de saldo, aos valores e às condições de trabalho internacionais, isto é, relativamente mais baixos. Apropriação do excedente, exploração organizada pelos países do Norte aos países do Sul, é o nome que se dá a estas “deslocalizações”, a estas migrações. O exemplo mais claro é agora confirmado pelos dados da própria União Europeia, em, com base em dados do Eurostat, calcula-se que nos “GIPSI” (Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália), a população em idade activa se tenha reduzido no primeiro semestre num intervalo de 0,1 a 0,9% em relação ao mesmo período em 2011, mas aumentou de 0,2% na Alemanha. Simples, portanto.

(continua)

[1] Hollande e o seu primeiro- ministro acabam de mostrar claramente que vão iniciar, também eles, o calvário das políticas deflacionistas com o programa em 35 pontos de Marc Ayrault, incidindo sobre a baixa dos custos salariais, sempre esta, sobre a subida do IVA, sobre a baixa das despesas públicas.

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