Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Parte I
De todas as óperas escritas durante a República Alemã de Weimar (1919-33), será a última delas provavelmente a mais espantosa.
A peça Silver Lake de Kurt Weill, escrita com o dramaturgo Georg Kaiser, conta a história de dois perdedores – um policia provinciano de muito bom coração e um ladrão que foi baleado e ferido – como eles fizeram o seu caminho, as suas vidas, através de uma sociedade arruinada pelo desemprego, pela corrupção e pelo vício.
Depois de passar novamente uma semana na Grécia – entre tumultos, fome e violência da extrema direita – eu finalmente entendi.
A ópera foi concebida para ser o caminho de regresso de Kurt Weill, ao meio musical da época. Tinha sido o seu primeiro intervalo na colaboração com Bertolt Brecht e foi programado para ser estreada simultaneamente em três cidades alemãs a 18 de Fevereiro de 1933.
Mas em 30 de Janeiro Adolf Hitler foi nomeado Chanceler da Alemanha.
As primeiras apresentações da peça The Silver Lake foram interrompidas por activistas nazis na plateia e foi proibida a 4 de Março de 1933. O cartaz foi incendiado, juntamente com os seus desenhos de preparação do conjunto, na infame cerimónia da queima do respectivo guião, fora do edifício da ópera em Berlim.
É fácil ver porque é que os nazis não gostaram de Silver Lake. Weill era judeu; os críticos nazis de teatro consideraram a música “feia e doentia”. Além disso, o enredo contém uma alegoria sobre a situação política na véspera da ascensão dos nazis ao poder.
Mas houve sempre alguma coisa mais sobre The Silver Lake que vai para além da política. Algo que é difícil de entender.
A passar algum tempo na Grécia, quando a extrema-direita Aurora Dourada irrompe e impede uma representação de teatro com toda a impunidade e em que a sua violência nas ruas é habitual, eu finalmente entendi essa alguma coisa mais que estava para lá de The Silver Lake e que vai mesmo para além da política.
A peça The Silver Lake é, finalmente, uma obra sobre a maneira como as pessoas se sentem quando elas mudam da situação de resistentes para a situação de falta de esperança, para a situação de desesperados. E é uma obra também sobre como é que a desesperança pode ser tão estranhamente libertadora.
Agora, a Grécia é um lugar em que há muita gente sem esperança. O seu próprio primeiro-ministro, Antonis Samaras, comparou já este ambiente com o ambiente da República de Weimar .
“A democracia grega permanece sobretudo pelo que é, talvez, o seu maior desafio” , disse o senhor Samaras ao jornal alemão Handelsblatt. Este afirmou que a coesão social “está ameaçada pelo aumento do desemprego,” tal como aconteceu no final da República de Weimar, na Alemanha.
A comparação parece plausível: aqui há gangs de extrema direita a estabelecer a violência nas ruas – um relatório na semana passada identificava mais de metade de todos os ataques de base racista oficialmente registados como tendo sido realizados por pessoas em uniformes paramilitares. Cada demonstração termina com gás lacrimogéneo e com cargas do bastão.
Há desemprego em massa. Há também o colapso dos principais partidos. Os meios de comunicação social e de televisão inclusive estão a lutar para permanecerem independentes, sem dúvida, para permanecerem solventes.
Porém a comparação com o “fim de Weimar” também se mantém se e só se não soubermos nada sobre a República de Weimar.
Infelizmente, esta condição é muito comum. Os alunos das escolas são correctamente ensinados e muito sobre a Alemanha nazi – mas não são ensinados o suficiente sobre os detalhes que levaram ao seu aparecimento, não são suficientemente ensinados sobre as razões que levaram à sua implantação social .
Aqui está um breve resumo. Nas eleições de 1928, os nazis, que tinham – como o partido Aurora Dourada na Grécia – sido reduzidos a um grupo de dissidentes nestes anos de recuperação económica, obtiveram apenas 2,7%.
Mas em Março de 1930, como a queda de Wall Street abriu crateras na economia alemã, um governo de coligação de partidos de centro-esquerda e de direita desmoronou-se. Foi substituído pelo primeiro dos três governos “nomeados” – designado para evitar que os comunistas ou os nazis na altura a crescer, ganhassem o poder.
Foi dirigido por Heinrich Bruning. Confrontados com uma recessão, Bruning seguiu uma política de forte austeridade, mantendo a moeda da Alemanha ligada ao padrão-ouro (tal como a Grécia que leva a cabo uma política de austeridade com uma taxa de câmbio fixa face aos seus principais parceiros- a moeda única, os outros membros da zona euro ). Isso fez com que se agravasse ainda mais a recessão.
Como o desemprego disparou, assim disparou também o voto nos nazis : num avanço arrasador ficou em segundo lugar nas eleições de Setembro de 1930, com 18%. Mas Bruning estava determinado a reprimir tanto à direita à direita como à esquerda: ele proibiu a organização paramilitar nazi, a sturmabteilung, juntamente com a milícia rival comunista, uniformizada.
Como a recessão piorou, os nazis cresceram maciçamente: ganharam as eleições em 1932, conseguindo 14 milhões de votos (37%). Os socialistas e comunistas juntos obtiveram uma percentagem de votos superior. E os partidos do centro entraram em colapso. No entanto, o sistema presidencial de nomeação de governo na altura permite que os partidos verdadeiramente centristas governem a Alemanha – agora sob um novo chanceler, o aristocrata Franz von Papen.
Von Papen autorizou as forças nazis em Junho de 1932 e, como o historiador Ian Kershaw coloca na sua biografia definitiva de Hitler: “a guerra civil latente. ameaçava tornar-se uma guerra civil real.”
No final de 1932, com os comunistas, agora também a crescerem muito rapidamente, os meios políticos de então fizeram uma última tentativa para manter Hitler fora do poder. O general Kurt Von Schleicher, um membro da ala direita foi nomeado Chanceler e tentou formar um governo com todos desde a ala esquerda dos nazis aos socialistas das confederações sindicais . Mas isso também caiu, abrindo-se assim as portas para a ascensão de Hitler.
Kershaw escreveu: “somente os erros crassos cometidos pelos governantes do país poderiam abrir o caminho a Hitler]. E só um flagrante desrespeito das elites de poder na Alemanha pela salvaguarda da democracia – na verdade, a esperança que a crise económica poderia ser utilizada como um veículo para conseguir o desaparecimento da democracia e a sua substituição por uma forma de autoritarismo – poderia induzir tais erros. Foi precisamente isso o que aconteceu.”
Estes nomes – Bruning, Papen, Schleicher – por problemático que sejam lembrá-los , devem ser tão famosos como as palavras de Estalinegrado, Arnhem e Dunquerque.
Estes foram os homens que tentaram e falharam ao quererem utilizar uma “mix” bem especial, uma combinação de forte austeridade junta com um endurecimento político e repressivo a que agora se poderia chamar de regra de um ” governo tecnocrático” para salvar a democracia alemã. Eles falharam.

