ANGELA MERKEL, NOVO MAQUIAVEL – por UlrichBeck

No rescaldo do trabalho de ontem dedicado aos povos europeus face à presença insultuosa de Merkle em Portugal, um texto de UlrichBeck, sociólogo e filósofo alemão, sobre Merkle, sobre a Europa, sobre a crise. Um texto que dispensa comentários.

Júlio Marques Mota

O novo poder alemão na Europa está, portanto,   baseado não, como foi o caso no passado, sobre a violência como uma última   ratio. Este poder não tem necessidade de recorrer a nenhuma arma para impor a   sua vontade sobre os outros Estados. Eis pois porque é errado e absurdo falar   de “Quarto Reich”. O novo poder, que assenta as suas bases na   economia, é muito mais flexível e muito mais móvel : este está presente em   todos os lugares, sem que para isso seja necessário mandar as suas tropas[   como o fez Hitler].

Angela Merkel quer prescrever e até mesmo impor aos   seus parceiros o que passa por ser uma fórmula mágica na Alemanha a nível   económico e político. O imperativo alemão é isso mesmo: Economizar!   Economizar ao serviço da estabilidade . Mas, na realidade, esta política   económica revela que na maior parte ela é sinónimo de cortes claros ao nível   das pensões de reforma, da formação, da investigação, das infra-estruturas,   etc. Nós estamos assim a lidar com um neoliberalismo de uma violência   extrema, que vai ser agora incorporada no Constituição Europeia, sob a forma   de um pacto orçamental – sem fazer caso da opinião pública europeia,   demasiado fraca para se lhe opor.
Para expandir para a Europa e em forma de   obrigação, a austeridade da Alemanha, as normas democráticas podem ser   flexibilizadas, de acordo com a vontade de    Merkiavel, ou até mesmo contornadas.

Há muitos que vêem a chanceler alemã como a rainha sem coroa da Europa. Quando se levanta a questãode onde é que vem o poder deAngela Merkel somos reenviados a uma das suas características que definem a sua forma de o ter, de o fazer: uma habilidade maquiavélica.

De acordo com Nicolas Maquiavel(1467-1529), primeiro pensador a preocupar-se com a natureza do poder, o príncipe só deve manter a sua palavra dada ontem se e só sese com isso estiver a obter benefícios. Se agora transpusermos estamáxima para a situação actual, esta seria então : é possível fazer hoje o oposto do que anunciámos ontem, se com isso aumentamos hoje as possibilidades de ganhar as próximas eleições . As afinidades políticas entre Merkel e Maquiavel – o famoso modelo de Merkiavel, como lhe chamo – baseiam-se em quatro componentes destinadas a completarem-se umas às outras.

1. A Alemanha é economicamente o país mais poderosoe mais rico daUniãoEuropeia. No actual contexto de crise financeira, todos os países endividados e dependentes da boa vontade dos alemães a estarem dispostos a ficarem comogarantes dos créditosnecessários. O maquiavelismo da Chanceler deve-se ao facto de que, no conflito virulento que opõe os arquitectos da Europa e os ditos soberanistas, ela tem o cuidado de não tomar partido – ou melhor, ela permanece aberta às duasopções, entre si opostas.

Ela nãoé solidariacom os europeus (nem na Alemanha nem no exterior) que procuram insistentemente garantiasalemãs nem apoia sequer a fracçãodos eurocépticos que se opõem a qualquer ajuda. Merkel prefere – e é aqui que está toda a a ironia maquiavélica da suapostura – fazer dependera disposição daAlemanha em conceder créditosda disposição dos paísesendividados em aceitaremas condições da política alemã da estabilidade. É o primeiro princípio de Maquiavel: quando se trata de ajudar os países endividadoscom dinheiro alemão, a posição de Angela Merkel não é nem um sim franco nem não-categórico, mas um “sim forçado” entre as duas posições.

 2. Como é possível chegar a esta posição paradoxal na prática política? Em Maquiavel, seria conveniente a este nível fazerprova devirtude, uma mistura de uma políticacheia de energia e de combatividade . É aqui que podemos atingir uma outra forma de ironia: o poder do Merkiavel baseia-se no desejo de nada fazer, sobre a sua tendência a não actuar ainda, a actuar mais tarde, ahesitar. Trata-se daarte de atraso selectivo, esta mistura de indiferença, de recusa da Europa e do compromisso para com os europeus,  está na origem da posição da Alemanha numa Europa agredida pela crise.

Certamente, há várias razões que a levam a estahesitação – a situação mundialé tão complexa que ninguém é capaz de a desembrulhar; frequentemente já não se tem mais a escolha entre alternativas de que não se pode medir o risco. Mas estas razões ao mesmo tempo justificama política do retardar,comouma estratégia política de poder. Angela Merkel tem levado a um elevado nível de perfeição estaforma de soberania involuntária legitimada pelo credo da austeridade.

O novo poder alemão na Europa está, portanto, baseado não, como foi o caso no passado, sobre a violência como uma última ratio.Este poder não tem necessidadede recorrera nenhumaarma para impor a sua vontade sobre os outros Estados. Eis pois porque é errado eabsurdo falar de “Quarto Reich”. O novo poder,que assenta as suas bases na economia,é muito mais flexível e muito mais móvel : esteestá presente em todos os lugares, sem que para isso seja necessário mandar as suastropas[ como o fez Hitler].

3. É neste caminho que pode ser alcançado o que parecia ser a quadratura do círculo: reunir numa mesma pessoa, a capacidade de ser reeleitano seupróprio país e ao mesmo tempo passar por ser a arquitecta destaEuropa. Mas isso também significa que todas as medidas necessárias para a recuperação do euro e da União Europeia devem primeiro passar o teste de aptidão no interior dasfronteiras alemãs -e o teste é saber se as medidas são favoráveis aos interesses alemãese à posição de força de Merkel.

Mais os alemães se tornam críticos relativamente àEuropa, mais eles sesentem cercados por populosos países de devedores que nada mais querem a não sera carteira dos alemães, mais será difícil então manter essa grande distância. Merkiavel respondeu a este problema, a este desafio, tirando a sua cartade “Europa alemã”, que é um verdadeiro activo real tanto no interior como no exterior da Alemanha .

Na política interna, a Chanceler tranquiliza os alemães, que temem pelas suaspensões de reforma, pela sua pequena casa de campo, e peloseu milagre económico, e ela defende com rigor à boa maneirados protestantesa política do não- bem doseada – ao mesmo tempo que aparece como o único professorcapaz de dar lições àEuropa. Ao mesmo tempo, Merkleprojecta,nas relações externas , “aresponsabilidade europeia”, integrando países europeus numapolítica do mal menor.A suaoferta que tem também valor de isca atirada aoseuropeus pode ser resumida na seguintefórmula: mais vale que o euro seja alemãodo que não haver euro nenhum .

Neste sentido,. Merkel continua a revelar-se uma muito boaaluna de Maquiavel. ” Será que mais vale ser amado do que receado?” pergunta ele no Príncipe. “A resposta é que deveria ser  uma e outra  coisa, mas como é difícilser as duas , é muito mais seguro ser temido do que amado, se tivéssemos que ter apenas um destes atributos. .” Merkel usa este princípio selectivamente: quer sertemida no exterior e amada no seu país – talvez exactamenteporque ela tem ensinado o medo aos outros países. Neoliberalismo brutal para o exterior, tingida de social-democracia no interior : essa é a fórmula que permitiu a Merkiavel consolidar a sua posição de força e a da Europa alemã.

4 Angela Merkel quer prescrever e até mesmo impor aosseus parceiros o que passa por seruma fórmula mágica na Alemanha a nível económico e político. O imperativo alemão é isso mesmo: Economizar! Economizarao serviço daestabilidade . Mas, na realidade, esta política económica revela que na maior parte ela é sinónimo de cortes claros ao nível das pensões de reforma, da formação, da investigação, das infra-estruturas, etc. Nós estamos assima lidarcom umneoliberalismo deuma violência extrema, que vai ser agoraincorporada no ConstituiçãoEuropeia, sob a forma de um pacto orçamental – sem fazer caso da opinião pública europeia, demasiado fraca para se lhe opor.

Estas quatro componentes do merkiavelismo- a ligação entresoberania e a liderança da construção europeia, a arte de retardar asdecisõescomo estratégia de fazer as coisas à sua maneira , a primazia dada para o ciclo das eleiçõese, finalmente, a cultura alemã da estabilidade – são consistentes entre si e constituem o núcleo duro da Europa alemã.

E há aqui mesmo em Merkle um paralelo com o que Maquiavel chamaanecessità, esta situação de emergência à qual opríncipe deve ser capaz de reagir: a Alemanha como um hegemon “amigável”, como o pais dominante mas amável , posição tão elogiada porThomas Schmid, o editor do jornal Die Welt,vê-se pois forçada emcolocar o que daí resultacomo um perigo acima do que é proibido pelas leis. Para expandir para a Europa e em forma de obrigação, a austeridade da Alemanha, as normas democráticas podem ser flexibilizadas, de acordo com a vontadede Merkiavel, ou até mesmo contornadas.

Certamente que se assiste, neste momento,à emergênciade uma frente de oposição formada por aqueles que pensam que o rápido avanço da europeização põe emcausa os direitos do Parlamento alemão e que é contrário à lei fundamental, o equivalente da Constituição. Mas, com manobras extremamente hábeis,Merkel conseguiu utilizaresses bastiões de resistência, integrando-os na sua política de domesticação pelo enredo e demora nas decisões a tomar . Mais uma vez, ela ganhou nos dois tabuleiros: mais poder sobre a Europa e mais popularidade no interior da Alemanha,colocando os eleitores alemães a seu favor.

Pode, no entanto, acontecer que o método Merkiavelatinja progressivamente osseus limites,porque devemos reconhecer que a austeridade alemã não registou até agora nenhumsucesso. Pelo contrário: a crise da dívida ameaça agora também a Espanha, a Itália e, talvez, amanhã a França. Os pobres tornam-secada vez maispobres, as classes médias estão em risco de serem desclassificadas enquantotale ainda nãosevê o fim do túnel.

Neste caso, também pode levar ao aparecimento de um contrapoder, especialmente desde que Angela Merkel perdeu um dos seus mais fortes aliados na pessoa de Nicolas Sarkozy. Desde queFrançois Hollande chegou ao poder, os equilíbrios mudaram. Os representantes dos países endividados poderiam agrupar-se em torno dos promotores da Europa em Bruxelas e em Frankfurt para pôrde pé a criação de uma alternativa para a austeridade da Chanceler alemã, frequentemente muito populista, especialmentecentradanos interesses alemães e motivadapelo medo da inflação e, portanto, repensar assim a função do Banco Central Europeu para que estese encaixe muito mais sobre a política de crescimento como o faz oBanco Central americano.

Um outro cenário é também possível: poder-se-áassistir a um duelo entre AngelaMerkiavel, a Europeia hesitante e PeerSteinbrück, o candidato do SPD contra MadameMerkel em 2013, apaixonado pelo xadrez, que se descobriucomo uma vocação à WillyBrandt, ao nível europeu. Se a fórmula vencedora deste último era “mudar através da aproximação” [entre a Leste e a Ocidente], a fórmula de Steinbrück poderia agora ser: mais liberdade, mais segurança social emais democracia – através de Europa. Poder-se-ia então assistir a uma escalada de dois pró-europeus. SejaPeerSteinbrück consegue colocarMerkiavel em cheque a nível europeu; sejaMerkiavel vence-oporque ela terádescoberto a importância estratégica da ideia Europeia e então ter-se-á convertido em fundadora dos Estados Unidos da Europa.

De uma formaou de outra, a Alemanha enfrenta a grande questão da Europa: ser ou não ser. Tornou-se demasiado poderosa para se poder darao luxo de não tomar nenhumadecisão.

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Ulrich Beck,   Angela Merkel, nouveau Machiavel, Le Monde, 12.11.2012.

Ulrich Beck, sociologue et philosophe allemand,Le Monde.

Ulrich Beck est l’auteur notamment de “La Société du risque” (Aubier, 2001) et, avec Edgar Grande, de “Pour un empire européen” (Flammarion, 2007). Il enseigne à la London School of Economics et à Harvard. Dernierouvrage: “L’Europeallemande” (non traduit, éd. Suhrkamp).

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