“VOZES DA LUSOFONIA” EM INGLÊS? (II) – por Àlvaro José Ferreira

O que significa o vocábulo “lusofonia”? Tratando-se de uma palavra composta, nada mais simples que analisarmos os dois elementos lexicais que a formam: “luso” (português) e “fonia” (som). Portanto, “lusofonia” é a expressão fonética dos que falam (e escrevem – quando alfabetizados), como primeira língua, o português ou o mirandês (que são as duas línguas oficiais de Portugal), independentemente do território onde tenham nascido. Por conseguinte, o espaço da lusofonia abarca, além de Portugal (a matriz), os países/territórios do mundo onde residam pessoas cuja língua materna é o português ou o mirandês. Numa concepção mais ampla de lusofonia, podemos também considerar os idiomas dialectais derivados (ou com marcada influencia) do português, como é o caso do crioulo de Cabo Verde, do papiá kristáng de Malaca e do patuá de Macau. No âmbito da lusofonia não cabem, evidentemente, línguas de raiz não portuguesa, ainda que latinas e ainda menos as germânicas, como a inglesa.
Nesta ordem de ideias, constitui uma tremenda aberração editorial contemplar num programa chamado “Vozes da Lusofonia” artistas que usam a língua inglesa, ainda que de nacionalidade portuguesa. O autor do programa, Edgar Canelas, parece não ligar qualquer importância à semântica das palavras e teima em divulgar nesse seu espaço discos cantados em inglês, como aconteceu ontem (dia 11 de Novembro) com o álbum “Change”, do grupo Pitt Broken (liderado pelo bracarense Diogo Lima). Não sei se o faz por simples gosto pessoal, se por eventuais laços de amizade que mantém com tais artistas, se em cumprimento de ordens da direcção de programas ou se por qualquer outra razão que nada tem a ver com a música em si mesma. Isso pouco me importa. O que não posso aceitar é que, enquanto ouvinte de um programa onde espero ouvir repertório lusófono, me seja impingida produção não lusófona. Digo isto perfeitamente à vontade pois até entendo que a rádio pública não deve excluir os bons artistas nacionais (o que não é, flagrantemente, o caso dos Pitt Broken) que optaram por cantar em inglês ou noutro qualquer idioma, desde que isso seja feito em espaços específicos ou mesmo na ‘playlist’, mas sempre fora da quota de música portuguesa (porque “música portuguesa” não quer dizer o mesmo que “música produzida em Portugal”). Não ostracizando os nacionais que preferem não cantar na língua materna, a rádio do Estado tem a obrigação (legalmente instituída) de dar primazia à canção de matriz portuguesa que pressupõe, como não podia deixar de ser, o uso de uma das línguas autóctones.
Sei de antemão que o Sr. Edgar Canelas não vai tomar em consideração a minha reclamação, mas mesmo assim não quero deixar de dizer de minha justiça, ademais estando ciente de que muitos outros ouvintes subscrevem estas palavras.

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