EDITORIAL: CLASSE ESTABILIZADORA OU CLASSE DOMINANTE?

 

Os políticos normalmente propõem-se fazer inovações, introduzir alterações, melhorar o estado das coisas no seu país, ou até internacionalmente. Depois na prática,  os que conseguem chegar ao poder, na sua maioria, limitam-se a gerir o estado de coisas que encontram , e a  introduzir alterações que os ajudem a continuar no poder. Isto é verificável facilmente, comparando os programas eleitorais, os desígnios anunciados, com o trabalho desenvolvido no poder.

Alguns dirão: nem todos os políticos são assim intencionalmente. Muitos têm convicções sinceras, mas falta-lhes a capacidade ou a oportunidade para as conseguir pôr em prática. No Guardian de ontem, Slavoj Zizek analisa a presidência de Obama, num artigo intitulado Why Obama is more than Bush with an human face,  e tira a conclusão de que ele conseguiu ser eleito porque conseguiu o voto da classe estabilizadora, a qual, informa-nos, segundo o filósofo Jean-Claude Milner, é formada por todos que, embora possam defender mudanças, pretendem estas enquanto contribuírem para manter a estabilidade e a continuidade da ordem social, económica e política existente. Contrapõe esse conceito ao de classe dominante, e conclui que foi devido à opção dessa classe estabilizadora que os republicanos foram derrotados, com os seus fundamentalismos religiosos e de mercado.

Zizek assinala que Obama, embora a sua reforma no campo da saúde tenha deparado com muitos obstáculos, conseguiu lançar um amplo debate e libertou muita gente do império do discutível conceito da liberdade de escolha, que na realidade só existe com o apoio de uma complexa rede de condições legais, educacionais, éticas, económicas, etc.

Para além de outras análises, não será exagero comparar esta situação à que actualmente se vive em Portugal. É verdade que nas últimas legislativas, os portugueses votaram  maioritariamente à direita. Mas nessa altura terão votado sobretudo contra os PEC de José Sócrates, que ameaçavam o relativo e pouco bem-estar alcançado nos últimos decénios, graças sobretudo a algumas políticas iniciadas no período a seguir ao 25 de Abril. O problema foi que votaram em forças que têm acentuado e não menorizado as políticas de José Sócrates. É verdade. E vamos a ver como decorrerá o segundo mandato de Obama. Ao fim e ao cabo Mitt Romney perdeu, mas não foi por uma margem grande. E as reformas que realmente resultam levam muito tempo a implantar-se. Mas pouco tempo a destruir-se, sobretudo quando não devidamente consolidadas. Como estamos a ver em Portugal. Ao fim e ao cabo, Passos Coelho só veio falar do empobrecimento do país, depois de estar no poder.

 

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