Entretanto, em Março de 1911, aumentam as prisões de párocos, acusados de desobedecer às ordens do Ministério da Justiça e terem lido em público a Pastoral dos Bispos contra as leis anti-clericais da República. Há, ainda, incidentes em Coimbra, a propósito da criação da Universidade do Porto e da Faculdade de Direito em Lisboa.
No final do verão de 1911 Salazar adoeceu provocando nos familiares algum alarme. Porém, nos últimos dias de Outubro estava restabelecido e pôde regressar a Coimbra. Desocupou o quarto da Couraça da Estrela passando para outro numa casa da Rua João Jacinto. E inscreveu-se, para o ano lectivo de 1911-1912, em todas as restantes cadeiras do 2.º ano de Direito e matriculou-se na 10.ª cadeira do 3.º ano.
Mas, além dos seus estudos, Salazar encontrava a academia em exaltação de violenta luta política. De um lado estavam os republicanos e do outro os monárquicos e os católicos. Salazar não tem dúvidas a que lado pertence. Católico fervoroso e anti-republicano extremado milita em tudo o que lhe pareça apropriado à defesa das suas convicções e nestas não cabem qualquer afeição à República.
República que ia andando com a nomeação, em 3 de Setembro de 1911, do primeiro Governo Constitucional da República, dirigido por João Chagas. E a 21 do mesmo mês, com o Partido Republicano Português a cindir-se em quatro tendências: democráticos ou radicais, dirigidos por Afonso Costa, unionistas, dirigidos por Brito Camacho, evolucionistas, de António José de Almeida e, ainda, os independentes, onde pautava Machado Santos cada vez mais inconformado com o rumo da «sua» República.
No meio desta divisão republicana surge a primeira incursão monárquica em Trás-os-Montes, em 5 de Outubro de 1911.
Sob o comando do inconformado Paiva Couceiro uma coluna de monárquicos, com cerca de 700 a 1000 homens, vinda da Galiza, entra em Portugal pelo distrito de Bragança (Cova da Lua, Espinhosela e Vinhais). Deu-se um combate entre republicanos e monárquicos perto de Bragança. A coluna realista, depois deste recontro recua para a fronteira, entrando em Espanha. A resposta republicana estava nas mãos do Ministro da Guerra, general Pimenta de Castro. A sua actuação, vista como muito branda por alguns dos seus colegas de gabinete, leva à sua exoneração. Durante o Verão de 1911, os republicanos já haviam montado um sistema de vigia na fronteira do Minho e de Trás-os-Montes, prendendo os principais suspeitos. Quando se verifica a incursão de Paiva Couceiro, as tropas republicanas, superiores em número e armamento, e reforçadas por efectivos e voluntários deslocados de Lisboa, empurram a coluna monárquica para fora das povoações, provocando a deserção de muitos dos seus elementos e, sobretudo, impedindo-a de recolher apoios locais.
Sem perda de tempo, Afonso Costa defende, no Parlamento, legislação que permitisse o julgamento rápido dos conspiradores monárquicos, defendendo uma «política de intransigência» para com os inimigos da República, exigindo o confisco dos bens dos conspiradores e declarando que os únicos aliados dos republicanos deviam ser o «quarto estado», os trabalhadores. A proposta de Afonso Costa seria rejeitada, por cinquenta e sete votos contra quarenta e oito, sendo aprovado o projecto do governo, apresentado por João Chagas, que avançava com a suspensão das garantias constitucionais para debelar a crise provocada pelas conspirações monárquicas.
Com essas conspirações aumentavam ainda mais as acções repressivas contra os que estivessem ligados ao regime derrubado, ou que suscitassem desconfiança quanto ao seu republicanismo, como era o caso dos católicos a contas com desenfreada perseguição aos seus hábitos e costumes. No entanto, os católicos, os monárquicos e outros inimigos da República começavam por seu lado a unir-se e a lançar as suas próprias organizações de combate e resistência.
Entre os vários grupos, que entretanto haviam surgido, os católicos escolhem o Centro Académico de Democracia Cristã (CADC) que já constituía um dos principais veículos da oposição católica à I República.
Cada vez mais interventivo, Salazar ingressa na política activa através do CADC.
É no CADC que vai pôr em prática as suas raízes doutrinárias. A Democracia-Cristã dos papas sociais, em especial Leão XIII, e a tradição anti-liberal consolidada pelo pensamento reaccionário do francês Charles Maurras e da sua Action Française, movimento francês ultra nacionalista, contrário à democracia parlamentar e favorável à monarquia hereditária.
No CADC encontrará alguns estudantes que virão a ser também figuras de relevo na sociedade portuguesa. Formam um grupo irmanado pela defesa dos mesmos ideais, onde tem destaque o padre Manuel Gonçalves Cerejeira.
Um ano mais velho do que Salazar, Manuel Gonçalves Cerejeira, nasceu em Santa Marinha de Lousado, Vila Nova de Famalicão, a 29 de Novembro de 1888.
Frequentou os seminários de Guimarães e Braga e foi ordenado sacerdote a 1 de Abril de 1911 e a 1ª Missa em 23 de Abril seguinte.
Estuda na Faculdade de Teologia entre 1909 e 1911. Por ela se licencia, com a elevada nota de 18 valores.
Durante estes estudos recebe a primeira tonsura a 1 de Outubro de 1910 e os quatro graus das ordens menores no dia seguinte; é ordenado diácono a 17 de Dezembro de 1910 e presbítero a 1 de Abril de 1911, o dia seguinte à assinatura de uma carta do episcopado português ao ministro da Justiça, Afonso Costa, pela qual os bispos procuravam evitar que o Governo Provisório aprovasse o que viria a ser a lei da separação.
Reestrutura, com o apoio de António de Oliveira Salazar, o Centro Académico de Democracia Cristã, CADC, um fórum de estudantes e professores, que defendia as teses das Encíclicas do Papa Leão XIII e que lutava contra os regimes republicanos, considerados como maçónicos, anticlericais e individualistas.
Associado em torno de Salazar e do padre Cerejeira, forma-se o grupo que se desdobra numa acção doutrinária sem descanso. Multiplicavam-se as palestras, os debates, os panfletos no aliciamento e na busca de novos recrutas. No inverno de 1911 o grupo lançava-se em novos projectos. Salazar está definitivamente no combate político contra a República.
Pelo CADC passaram, e nele em parte se formaram, gerações sucessivas de estudantes de Coimbra; por outro lado inúmeros sócios desta instituição destacaram-se depois em todos os sectores da vida pública nacional (política, magistratura, magistério, ciência, arte e sacerdócio). Todos eles, mesmo os que chegaram a assumir as mais altas responsabilidades no Estado, na Igreja e na Sociedade Civil, testemunharam sempre quanto haviam ficado a dever à experiência juvenil no CADC.
Nas primeiras décadas do século XX, o CADC assumiu-se como espaço de diálogo e reflexão cristã.
«Embora nos apelidemos democratas-cristãos», dizia Salazar em 1912 no CADC de Coimbra, «nem por isso reconhecemos outra democracia verdadeira que não seja a fundada no cristianismo, porque fora do cristianismo não compreendemos o que seja ou possa ser a liberdade, a igualdade e a fraternidade humana.»
