REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

NOTA INFORMATIVA SOBRE AS ESTRUTURAS INSTITUCIONAIS CRIADAS NA UEM PARA APROFUNDAR A CRISE

Por Júlio Marques Mota

Temos vindo a afirmar que devemos responsabilizar Bruxelas e os restantes organismos encarregados de responderem à situação   de crise, não só como os grandes responsáveis  pela incapacidade de reagir à crise como, e sobretudo, pelas medidas tomadas que só a têm agravado.  Com isto  não queremos ilibar os governos nacionais, seja ele o governo do PS que assinou o Memorando com a Troika,  seja ele o de Passos Coelho e do seu governo,  que quis ir mais longe  do que a Troika, mas no mesmo sentido e montado no cavalo da maior ignorância e desonestidade jamais vista, uma vez que cada um destes  dois governos e à sua maneira entregou a bandeira de Portugal a Bruxelas. Simples, portanto.

Na base de tudo isto está uma figura sinistra, madame Merkel, com  a sua visão  luterana do mundo e da punição, do pecado colectivo, do pecado à escala nacional,  bem apoiada pelos homens escondidos nas caves do Bundesbank e por um mecanismo bem especial e bem oleado definido por  três pólos bem articulados, a saber,  as agências de rating, os  mercados financeiros e as regras contabilísticas mark to market.

A prova disto é o facto de a Comissão Europeia, passo a passo, correcção a correcção  dos Tratados ter vindo sistematicamente a reforçar a lógica do mecanismo acima configurado pelos três pólos e um exemplo disso é o Tratado  sobre Estabilidade, Coordenação e Governação na União Económica e Monetária,  mal escrito, pouco ou nada claro no que lhe é fundamental,   e com regras de ferro a impedir que se possa sair da crise.

Sendo um Tratado desta configuração é estranho que não se tenha exigido um referendo, um debate nacional aberto sobre os seus objectivos, sobre as suas regras, sobre os seus limites, sobre as suas consequências e feito em todos os Estados membros. Não, em vez disso temos os deputados desde o PS à extrema-direita CDS, ou com outros nomes noutros países,  a aprovarem-no de cruz e nas costas do Povo,  muitos deles sem saberem exactamente o que estariam a aprovar. Ainda agora foram claras as entorses feitas em França à Democracia quando o seu Presidente, François Hollande,  ganha as eleições, sobretudo na base da oposição ao referido  Pacto,  e logo que chegado ao Poder “obriga” os seus deputados a aprovarem-no da mesma maneira  que a direita do seu país, a direita capitaneada por Sarkozy. Diferenças,  onde estão  elas? Até mesmo nas reacções  aos media. Vejam-se as reacções das autoridades francesas por exemplo, à peça do The Economist sobre a França ao considerar a França “como uma bomba ao retardador e no centro da Europa”  e ilustrada pela seguinte imagem:

E um outro exemplo vem-nos de Itália: em vez de se questionar  as políticas que se fazem e nos desfazem nesta Europa onde há um bando à solta, o bando dos quatro, com a sua sede em Berlim, quer-se alterar as leis eleitorais para que aqueles que perigosamente contestam o que se anda a fazer com as políticas de austeridade não venham a ganhar. Como nos referencia o economista Paolo Manasse, no seu blog, “É de uma enorme  gravidade e sem precedentes a afirmação do Presidente do Senado, a segunda posição institucional da  República, segundo a qual a reforma eleitoral deve ser feita para deter o avanço eleitoral de um  partido que lhe é indesejável  (“se não em vez dos 30%, Beppe Grillo  alcançará os 80 %”). O Presidente Napolitano deve exigir a sua demissão”. Mais uma vez  simples, a visão da Democracia que é oferecida por estes europeístas  virados para Bruxelas e para Berlim.

Em Portugal o trajecto do   Tratado foi exactamente o mesmo que nos outros países, com algumas salutares abstenções vindas dos  deputados do PS,  Pedro Delgado Alves e Rui Pedro Duarte. Curioso ver agora a dança de muitos deputados a exigirem medidas para o crescimento económico quando votaram e aprovaram um Tratado que as impede de serem postas em prática.

E é nesta armadura institucional dos quadros legais produzidos no ambiente de crise  que claramente vemos a mão-de-ferro de uma nova Dama de Ferro, Madame Merkel, ou madame Merkiavel, como assim a chamou o sociólogo e filósofo  Ulrich Beck .

Uma análise crítica a este quadro legislativo impõe-se-nos a todos nós como cidadãos desta Europa martirizada por este bando dos quatro, Draghi, Durão Barroso, Lagarde, Juncker, às ordens da sua chefe, Merkiavel. E é essa análise crítica que iremos expor ao longo de um pequeno conjunto de textos  a todos aqueles que nos quiserem acompanhar nesta Viagem dos argonautas, cujo barco está sediado num porto que dá pelo nome de  viagemdosargonautas.net/ , a serem publicados diariamente e por alguns dias, mas à noite .

E boa recepção, portanto.

Júlio Marques Mota

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