NOTA INFORMATIVA SOBRE AS ESTRUTURAS INSTITUCIONAIS CRIADAS NA UEM PARA APROFUNDAR A CRISE
Por Júlio Marques Mota
Temos vindo a afirmar que devemos responsabilizar Bruxelas e os restantes organismos encarregados de responderem à situação de crise, não só como os grandes responsáveis pela incapacidade de reagir à crise como, e sobretudo, pelas medidas tomadas que só a têm agravado. Com isto não queremos ilibar os governos nacionais, seja ele o governo do PS que assinou o Memorando com a Troika, seja ele o de Passos Coelho e do seu governo, que quis ir mais longe do que a Troika, mas no mesmo sentido e montado no cavalo da maior ignorância e desonestidade jamais vista, uma vez que cada um destes dois governos e à sua maneira entregou a bandeira de Portugal a Bruxelas. Simples, portanto.
Na base de tudo isto está uma figura sinistra, madame Merkel, com a sua visão luterana do mundo e da punição, do pecado colectivo, do pecado à escala nacional, bem apoiada pelos homens escondidos nas caves do Bundesbank e por um mecanismo bem especial e bem oleado definido por três pólos bem articulados, a saber, as agências de rating, os mercados financeiros e as regras contabilísticas mark to market.
A prova disto é o facto de a Comissão Europeia, passo a passo, correcção a correcção dos Tratados ter vindo sistematicamente a reforçar a lógica do mecanismo acima configurado pelos três pólos e um exemplo disso é o Tratado sobre Estabilidade, Coordenação e Governação na União Económica e Monetária, mal escrito, pouco ou nada claro no que lhe é fundamental, e com regras de ferro a impedir que se possa sair da crise.
Sendo um Tratado desta configuração é estranho que não se tenha exigido um referendo, um debate nacional aberto sobre os seus objectivos, sobre as suas regras, sobre os seus limites, sobre as suas consequências e feito em todos os Estados membros. Não, em vez disso temos os deputados desde o PS à extrema-direita CDS, ou com outros nomes noutros países, a aprovarem-no de cruz e nas costas do Povo, muitos deles sem saberem exactamente o que estariam a aprovar. Ainda agora foram claras as entorses feitas em França à Democracia quando o seu Presidente, François Hollande, ganha as eleições, sobretudo na base da oposição ao referido Pacto, e logo que chegado ao Poder “obriga” os seus deputados a aprovarem-no da mesma maneira que a direita do seu país, a direita capitaneada por Sarkozy. Diferenças, onde estão elas? Até mesmo nas reacções aos media. Vejam-se as reacções das autoridades francesas por exemplo, à peça do The Economist sobre a França ao considerar a França “como uma bomba ao retardador e no centro da Europa” e ilustrada pela seguinte imagem:
E um outro exemplo vem-nos de Itália: em vez de se questionar as políticas que se fazem e nos desfazem nesta Europa onde há um bando à solta, o bando dos quatro, com a sua sede em Berlim, quer-se alterar as leis eleitorais para que aqueles que perigosamente contestam o que se anda a fazer com as políticas de austeridade não venham a ganhar. Como nos referencia o economista Paolo Manasse, no seu blog, “É de uma enorme gravidade e sem precedentes a afirmação do Presidente do Senado, a segunda posição institucional da República, segundo a qual a reforma eleitoral deve ser feita para deter o avanço eleitoral de um partido que lhe é indesejável (“se não em vez dos 30%, Beppe Grillo alcançará os 80 %”). O Presidente Napolitano deve exigir a sua demissão”. Mais uma vez simples, a visão da Democracia que é oferecida por estes europeístas virados para Bruxelas e para Berlim.
Em Portugal o trajecto do Tratado foi exactamente o mesmo que nos outros países, com algumas salutares abstenções vindas dos deputados do PS, Pedro Delgado Alves e Rui Pedro Duarte. Curioso ver agora a dança de muitos deputados a exigirem medidas para o crescimento económico quando votaram e aprovaram um Tratado que as impede de serem postas em prática.
E é nesta armadura institucional dos quadros legais produzidos no ambiente de crise que claramente vemos a mão-de-ferro de uma nova Dama de Ferro, Madame Merkel, ou madame Merkiavel, como assim a chamou o sociólogo e filósofo Ulrich Beck .
Uma análise crítica a este quadro legislativo impõe-se-nos a todos nós como cidadãos desta Europa martirizada por este bando dos quatro, Draghi, Durão Barroso, Lagarde, Juncker, às ordens da sua chefe, Merkiavel. E é essa análise crítica que iremos expor ao longo de um pequeno conjunto de textos a todos aqueles que nos quiserem acompanhar nesta Viagem dos argonautas, cujo barco está sediado num porto que dá pelo nome de viagemdosargonautas.net/ , a serem publicados diariamente e por alguns dias, mas à noite .
E boa recepção, portanto.
Júlio Marques Mota

