SALAZAR E A I REPÚBLICA – 23 – por José Brandão

1913 – A República e os governos de Afonso Costa

A situação política agudiza-se em 1913 com o governo Afonso Costa formado unicamente por membros do partido democrático. Num ambiente de crescente crispação política e social, Afonso Costa ascende à Presidência do Governo. Resiste a diversas tentativas de derrube, ao mesmo tempo que manda encerrar a Casa Sindical e apresenta um saldo positivo nas contas públicas.

A 26 de Janeiro de 1913 Afonso Costa profere em Lisboa a conferência «Catolicismo, Socialismo e Sindicalismo», defendendo a participação dos trabalhadores no projecto democrático, em que poderiam contribuir para levar a bom porto o projecto de «aperfeiçoamento» da sociedade, ao mesmo tempo que condenava o sindicalismo revolucionário e a sua acção. A condenação do sindicalismo e dos seus métodos segue a par com uma aproximação aos ideais socialistas e ao próprio Partido Socialista Português, único interlocutor possível, na medida da ruptura crescente com o anarco-sindicalismo. As suas críticas estendem-se também, como é aliás previsível, ao catolicismo, visto como um obstáculo à emancipação dos trabalhadores e recusando o corporativismo de base católica.

Em 1913, com a estrutura política da República já consolidada, o espectro da guerra perfilava-se no horizonte. Os mercados externos contraíam-se as classes mais abastadas manifestavam a sua desconfiança devido à radicalização da República e ao desenvolvimento reivindicativo. Estava-se em plena crise industrial e financeira, conduzindo esta última ao desaparecimento do Banco Mercantil de Lisboa e do Banco Lusitano.

Afonso Costa, tendo ascendido ao poder quando o ano económico ia a meio, logrou fechar com um pequeno saldo positivo as contas públicas de 1912-13 e as de 1913-14 com cerca de 1 000 000 de libras de superavit. Na base do equilíbrio orçamental estiveram a compressão das despesas públicas e a «lei-travão» que o ministro fizera votar no Congresso, nos termos da qual parlamentar algum podia propor lei que implicasse a diminuição das receitas ou o aumento das despesas enquanto o orçamento estivesse em discussão. A divida flutuante externa que, em Janeiro de 1913, rondava os 9 000 contos, era de cerca de 3 000 contos decorrido um ano, ficando praticamente extinta durante 1914. Outra operação financeira relativa à dívida pública que granjeou louvores àquele estadista foi a libertação de 72.718 obrigações do 1° grau da C.P. (Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses) que constituíam caução de 21 milhões de francos, pagos integralmente pelo Governo em Julho de l913.

A 27 de Abril dá-se uma tentativa revolucionária contra esse governo de Afonso Costa. Em 7 de Julho nova tentativa revolucionária radical com assalto ao Quartel de Marinheiros. Ainda no mês de Julho regista-se algumas tentativas monárquicas de assalto a vários quartéis de Lisboa, contra os quais foram arremessadas bombas.

Entretanto, na revista A Águia, de Julho de 1913, Raul Proença publicava «Carta a um amigo (António Sérgio) do Brasil» onde expõem o seguinte pensamento: […]

Quer isto dizer, caríssimo, que a República esteja absolutamente ao abrigo de todas as críticas e mesmo de todos os ataques?

Não, evidentemente. Eu desejaria, como sumamente liberal que sou, que a República desse aos monárquicos a maior liberdade de crítica, a maior liberdade de manifestação, mesmo nas ruas, onde nós, os republicanos, tantas vezes aclamámos, com delírio, a ideia da República.

No tempo da monarquia havia funcionários públicos que defendiam publicamente a ideia republicana – e a monarquia, não por convicção (oh, sei-o bem!), mas por impotência, deixava que eles colaborassem na propaganda contra o regímen.

Leave a Reply