RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

PORTUGAL: O AUMENTO DA AMARGURA

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Charlotte Bozonnet, Lisboa, enviada especial, Le Monde

Sábado, 29 de Setembro no final da tarde na praça do Comércio em Lisboa era uma enorme mancha negra de manifestantes  REUTERS/JOSE MANUEL RIBEIRO

Não, nem gritos nem lágrimas. Quando no início do ano, Maria Campos (1) compreendeu que ela não poderia pagar o seu apartamento, foi ao banco para lhes entregar as chaves. Nenhum processo de expulsão nem nenhuma tentativa de negociações. Esta mãe de família de 44 anos, que vive nos arredores de Lisboa, simplesmente fez suas contas: hipoteca de 774 euros para pagar mensalmente , um salário mensal de ajudante de cozinheira de 450 euros, mais os 400 euros de subsídio de desemprego do marido. Em Abril, a família deixou a sua casa – dois quartos e uma sala de estar – e mudou-se para um apartamento mais barato.

Maria Campos e o seu marido, não andaram a fazer as coisas ao acaso. Quando contraíram este empréstimo em vinte e cinco anos, em 2003, precisa ela, o seu marido, carpinteiro ganhava 1 500 euros por mês, e tinham largamente com que pagar as suas contas. Mas este perdeu o emprego em Abril de 2011, na esteira do colapso do sector da construção. Hoje, a família tenta manter a cabeça fora da água, pede ajuda ao banco alimentar. Mas o futuro é angustiante.

O declínio social da família Campos, que se tinha pouco a pouco alcançado um estatuto social já perto da pequena  classe média não é um caso isolado. No Cacém, onde trabalha Maria, o Director do centro social Sérgio Gomes Baptista, no cargo desde 2001, olha com inquietação para este subúrbio popular de Lisboa, habitado por uma muito pequena classe média – trabalhadores da construção, funcionários, empregados da indústria, a afundar-se com a crise. “Na região de Sintra [de que faz parte Cacém], duas famílias por dia perderam as suas casas em Junho”, diz ele. O centro social, que ajuda cerca de 70 famílias, tem cada vez menos meios para as ajudar. “O povo português é capaz de resistir a muita coisa, mas o que irá acontecer na altura em que todas as ajudas acabarem ?” Questiona-se ele.

Menos agitação do que a Espanha e na Grécia, Portugal tem sido um pouco esquecido nas notícias  sobre a crise europeia. Os efeitos da crise presente e dos planos de austeridade continuam a ser muito graves . O aumento do desemprego, de 7,6% em 2008 para 15,5% em 2012, a diminuição das prestações sociais e das pensões de reforma, os aumentos de impostos sobre o rendimento e o aumento do IVA reduziram o poder de compra num país onde o salário médio é de apenas 800 euros por mês.

A austeridade não é de ontem , mas esta endureceu-se significativamente desde 2011. Estrangulado pela sua dívida e incapaz de contrair empréstimos nos mercados financeiros, Portugal, então dirigido pelo socialista José Sócrates, teve que pedir ajuda internacional. A União Europeia (UE), o Banco Central Europeu (BCE) e o Fundo Monetário Internacional – a ‘ Troika’ – concordaram em emprestar 78 mil milhões de euros, mas exigiram  como contrapartida uma redução drástica de seu défice de 9,1 por cento do PIB em 2010 para 4,5% em 2012 ( objectivo revisto depois para 5%).

O bom aluno da União Europeia parece aceitar o seu destino com resignação. Mas o país surpreendeu toda a gente, com uma mobilização sem precedentes contra as políticas de austeridade em 15 de Setembro. Centenas de milhares de portugueses de todas as idades e filiações políticas vieram para as ruas protestarem contra um novo anúncio do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho (PSD, centro-direita), eleito em Junho de 2011: o aumento das contribuições de segurança social pago pelos trabalhadores combinado com uma diminuição das contribuições pagas pelos patrões. O executivo finalmente fez marcha atrás. A grandeza da manifestação teve o efeito de uma verdadeira tempestade repentina  sobre a classe política em Portugal, mas também no resto da Europa.

“Os portugueses estavam dispostos a fazer sacrifícios, mas desde que existam resultados, explica Antonio Barreto, director da Fundação Francisco Manuel Santos, que ausculta a sociedade portuguesa. Ora, as autoridades estavam muito enganadas. As medidas adoptadas tiveram um impacto bem mais forte do que o esperado: o desemprego aumenta a recessão instala-se e aumenta de intensidade. “Para o sociólogo, se a contestação não é propriamente considerada um ponto de viragem, esta tem vindo a subir gradualmente: “há uma crescente preocupação que afecta todos e há também uma grande amargura.” No entanto, a amargura é o sentimento que precede a indignação e a raiva.” O outro motor deste despertar social é bem uma especificidade para o país, acrescentou: “Os portugueses ainda se lembram e muito fortemente da pobreza, que era o destino de muitos deles, há ainda muito pouco.”

Economicamente, Portugal passou em poucas décadas do nível de um país do Norte de África para o nível de um país europeu, lembremo-nos aqui. A “revolução dos cravos”, que, em 1974, terminou com 44 anos de ditadura de Salazar e, depois, a entrada na Comunidade Económica Europeia (CEE) em 1986, deram origem a uma expansão muito rápida do país. Mas se Portugal não conheceu os excessos da Espanha e da Grécia, o seu modelo de desenvolvimento não está isento de críticas, quando se trata de entender a crise que se atravessa actualmente . “A velha economia dos tempos de Salazar super-protegida não foi substituída por uma economia moderna. Houve aqui uma euforia com a chegada dos fundos europeus, mas a sua utilização não criou as condições para um verdadeiro crescimento “, disse o historiador Fernando Rosas. O dinheiro da Europa, financiou principalmente grandes obras públicas: infra-estruturas, auto-estradas e incontáveis rotundas encomendadas pelas câmaras municipais. O Estado tem feito avançar a construção que se tornou, aliás, um pilar da economia, mas muito para além das necessidades reais. Ao mesmo tempo, a agricultura e a pesca foram abandonadas. Quanto à sua indústria, Portugal centrou-se em produções fortemente utilizadoras de mão-de-obra de baixo nível de qualificação, mais barata e que rapidamente foi ultrapassada pelos baixos salários da China e dos países de Leste.

(continua)

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