EM VIAGEM PELA TURQUIA – 53 – por António Gomes Marques

(Continuação)

 Porquê falar desta lenda e a que propósito quando do que se trata é de uma viagem pela Turquia? É perfeitamente legítimo que o leitor levante as suas objecções; no entanto, o viajante que fui não pode desligar-se da cultura que o formou e a História da Cultura Clássica, de que a Mitologia Grega (com maiúscula, pois claro!) é parte significativa, teve em tal formação um papel fundamental, como julgamos ser claro depois de tudo quanto já escrevemos neste «Em Viagem pela Turquia».

 Nessa Cultura Clássica, a importância do mito, ensina-nos o Padre Manuel Antunes, «É de grande relevo. Tanto que, (…), boa parte das teorias interpretativas ou explicativas do fenómeno que ele designa, na Hélade tiveram a sua origem» e, ainda, «O fenómeno mítico não é só importante na história da cultura clássica, grega, sobretudo. É importante em todas as outras culturas, orais ou escritas, primitivas ou evoluídas. Daí a abundância de descrições, de teorias, de interpretações, de hipóteses, tendentes a organizar a matéria vasta e diversa, a sistematizá-la, explicando-a. Boa parte dessas “maneiras de ver”, dessas “intencionalidades significativas” ou dessas explicações genético-etiológicas começa na Hélade.» (v. Obra Completa, Tomo I – Volume II, págs. 63/4. Fundação Calouste Gulbenkian, Lx., Janeiro 2008).

 Quanto à importância do Mito da Medusa, pode a mesma ser atestada pela referência que a ele é feita nos Poemas Homéricos, por mim aproveitada ―será oportunismo?―para dele falar ao ver a base das colunas na Cisterna da Basílica. Da «Odisseia», transcrevemos:

630 Teria visto ainda outros homens, que     queria ver,
como Teseu e Pirítoo, gloriosos filhos     de deuses.
Porém, antes que tal acontecesse,     surgiram aos milhares
as raças dos mortos, com alarido     sobrenatural; e um pálido terror
se apoderou de mim, não fosse a temível     Perséfone enviar-me
635 da mansão de Hades a monstruosa cabeça     da Górgona

 

(in Homero, «Odisseia», Canto XI, pág. 198.Trad. de F. Lourenço, Livros Cotovia, 2.ª edição: Julho de 2003)

Mas as referências ao Mito da Medusa nos clássicos não se fica por aqui. Vejamos agora esta fala de «Prometeu Agrilhoado», cuja autoria se tem atribuído a Ésquilo:

«PROMETEU ― Já que tanto o desejais, não me negarei a dizer-vos tudo o que pedis. (…). Perto delas estarão as três irmãs aladas, de cabeleira de serpente, as Gorgonas, temíveis para os mortais, já que nenhum homem as pode ver sem expirar. Recomendo-te cautela com estes monstros. (…)»

(in Ésquilo, Teatro Completo. Trad. de Virgílio Martinho, Editorial Estampa, Lx. 1975, pág.129)

A dúvida levantada quanto à autoria de «Prometeu Agrilhoado» ser de Ésquilo é baseada no que Frederico Lourenço nos diz na sua obra «Grécia Revisitada» (Livros Cotovia, Lx. Abril de 2004, no capítulo «Recensões», pág. 286/7), nomeadamente quando escreve:

«O problema mais aparente é o mais simples de explicar: as restantes seis tragédias esquilianas transmitidas pela tradição manuscrita apresentam-se compostas num estilo difícil, repleto de metáforas ousadas e por vezes (quase) incompreensíveis. Prometeu, por outro lado, foi escrito num estilo claro, límpido ― o que faz dele no original, a peça mais acessível do corpus esquiliano. Em termos de dramaturgia e de métrica, esta tragédia tem mais que ver com Sófocles do que com Ésquilo (aliás, em questões de métrica, Prometeu contraria tudo o que as peças autênticas nos dizem sobre as preferências e hábitos musicais de Ésquilo); e no respeitante ao ideário religioso, é difícil não nos lembrarmos de vez em quando de Eurípides ― ou de um poeta ainda mais “sofístico”. Outro problema é o facto de termos nesta peça vocábulos e expressões que Ésquilo não emprega nas outras tragédias, consideradas autênticas. Muito simplesmente: se a peça tivesse sido transmitida como anónima, não passaria pela cabeça de ninguém dizer que era de Ésquilo.»

Transcrições feitas, será tempo de falar do próprio mito, para aqueles que não o conhecem.

Eram três irmãs, Medusa, Esteno e Eurídice, conhecidas como as irmãs Górgonas, filhas de Fórcis e de Ceto, divindades marinhas. Ora, Medusa terá feito amor com o deus do mar, Poseidon, num dos templos de Atena, a deusa da sabedoria, a qual não gostou e, danada, resolveu transformar não só Medusa mas também as suas irmãs em monstros, com pele escamosa e com serpentes na cabeça. Mas o castigo inflingido a Medusa não ficou por aqui; Atena tornou-a mortal e deu-lhe um poder terrível que faria com que todos que para ela olhassem e fossem atingidos pelo seu olhar seriam transformados em pedra, o que a fez temida, assim como às suas irmãs.

Perseu com a Cabeça da Medusa, de Benvenuto Cellini

(fotografia que tirámos em Florença, em 30/07/2009)

Entretanto, o rei da ilha de Cíclades, de nome Polidectes, chantageou o jovem Perseu, filho de Dánae e de Zeus, engendrou um plano que levasse o jovem até à caverna onde as Górgonas se refugiaram para cortar a cabeça a Medusa, cabeça esta que seria a melhor prenda que alguém lhe poderia oferecer. Na verdade, Polidectes tinha-se apaixonado por Dánae e queria-a sem o filho, incitando Perseu a matar Medusa com a certeza de que o jovem seria transformado em pedra. Anunciou o seu casamento com Dánae, para o qual os convidados trouxeram um presente para a noiva. Perseu, que nada tinha para oferecer, decidiu então fazer o que Polidectes dele pretendia: ir até à caverna das Górgonas e matar Medusa, ou seja, o plano de Polidectes parecia estar a resultar.

Entretanto, Hermes e Atena resolveram proteger Perseu ¾ o primeiro ofereceu-lhe uma espada que nem sequer as escamas de Medusa poderiam dobrar ou quebrar, por muito duras que fossem, a deusa da sabedoria, Atena, ofereceu-lhe um escudo: «Quando atacares a Górgona olha para este escudo! ¾ disse ela. ¾ Vê-la-ás reflectida como num espelho e, desse modo, conseguirás evitar o seu poder mortífero.»

Outros auxílios, com a ajuda das divindades, Perseu teve, nomeadamente, as ofertadas pela gente feliz que encontrou no seu caminho: umas sandálias aladas, que lhe permitiam voar; uma carteira mágica, que assumia o tamanho do objecto que deveria conter e, ainda, um capacete que o tornaria invisível. Com tais oferendas e com a espada e o escudo, foi conduzido por Hermes e Atena até junto das Górgonas, os quais lhe indicaram Medusa, a única que poderia ser morta pois as irmãs não tinham perdido a imortalidade. Com o escudo a servir de espelho, possibilitando não ter de olhar directamente a Górgona mortal, a sua mão conduzida por Atena, com um só golpe cortou o pescoço de Medusa, meteu-a na carteira mágica, colocou o capacete para se tornar invisível, impossibilitando assim que as outras irmãs o pudessem perseguir.

Outras aventuras se seguiram em que o herói foi combatendo e derrotando tiranos, encontrou o seu amor em Andrómeda, que desposou, regressando à ilha ao encontro da mãe. Esta tinha-se recusado a desposar o tirano, o que obrigou a mãe e o pescador que o havia tratado como filho, entretanto viúvo, a fugirem da ilha. Perseu dirigiu-se ao paço, onde, protegido pelo escudo brilhante de Atena e a carteira ao lado, todos o olharam, tendo ele levantado a cabeça cortada de Medusa petrificando todos os presentes, o rei Polidectes incluído.

De seguida, procurou a sua mãe, que encontrou, e o pescador, que era irmão de Polidectes, fazendo deste rei da ilha, regressando com a sua mãe e Andrómeda à Grécia.

Para o leitor interessado em toda a história de Perseu, poderá ler «A Mitologia», de Edith Hamilton (Publicações D. Quixote) ou outras histórias de tal mitologia, com a certeza de que não dará o seu tempo por perdido. Aqui, o que mais nos interessava era falar do mito da Medusa, o que foi provocado pelas duas bases de colunas com a sua cabeça que encontrámos na Cisterna da Basílica, em Istambul.

Felizes ficaríamos se, com esta nossa referência, conseguíssemos mais leitores não só para a história da mitologia grega, mas também para a leitura dos clássicos e dos especialistas Padre Manuel Antunes e Frederico Lourenço, que temos citado ao longo deste «Em Viagem pela Turquia».

Falemos agora do Palácio Topkapi.

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