O QUE É FALAR – JOÃO DOS SANTOS E UMA TASCA COM UM PAPAGAIO por clara Castilho

Num artigo publicado no “Sol” de 6.7.2012, falava-se de um restaurante com um papagaio, numa rua junto ao Jardim das Amoreiras. Um sinal de alerta tocou nas minhas memórias de conversas com João dos Santos, que já falava num papagaio no mesmo sítio, junto ao Centro de Saúde Mental Infantil, do qual foi director, precisamente na Rua João Penha. E mais, de ele ter disso falado numa crónica no Jornal de Educação (Julho,1979), depois publicada nos Ensaios sobre Educação – II ( Livros Horizonte -2ªed.1991). E porque é deliciosa, e porque a partir de papagaios nos dá grande lição, aqui fica parte do texto.

O PAPAGAIO E OS PAPAGAIOS – O FALAR E O CALAR

“Quando fui para aquele sítio, neste hábito de trabalhar de janela aberta, pelo bom tempo, comecei a achar incómodo um miúdo da rua que, pensava eu, assobiava e reassobiava a “raspa”. Mais tarde, recordo-me de ter notado a existência auditiva dum cãozinho irritante que ladrava de falsete horas seguidas. Um dia fui lá baixo tomar um café e ouvi alguém dizer: “Olá!”. Olhei, era o papagaio. Descobri depois que o papagaio não só falava, como também ladrava de falsete e assobiava a “raspa”.

“O papagaio” é uma tasca que conheço onde se come barato e melhor que nos restaurantes. É mesmo dos poucos sítios em Lisboa onde, hoje em dia, se pode comer comida de gente, num ambiente de gente. Bom, eu explico. Ela, a D. Natália, faz tudo como as nossas mães faziam, quando a gene lá vivia em casa delas. Ele, o sr. André, tem todas as atenções de um pai, que impõe ordem e disciplina, sem chatear.

Para cúmulo, faz-nos pagar só à saída, sendo a conta feita de acordo com o que a gente diz que comeu! Isto, é claro, dá uns pruridos de honestidade às pessoas, que as leva a ficarem sempre a duvidar se ditaram ou não, para a conta, todos os copinhos de tinto que beberam e todas as migalhas que comeram. São galegos, são daquela qualidade de gente lírica, amável e doce na qual se recrutam as melhores mães e as casas de pasto mais maternais deste país.

A D. Natália tem muitas atenções connosco: explica o custo de vida e ensina como se faz a boa cozinha: dá conselhos sobre diversas coisas. O patrão e de menos falas, é mesmo um patrão ou patrono como deve ser.

(…) Na loja do mestre André toda a gente fala, toda a gente se conhece e se fala, quer na mesa corrida, quer nas mesas pequenas, dumas para as outras.

Sei de um restaurante ali ao pé onde a comida é de papas e onde as conversas chateiam: é assim uma espécie de psitacismo para uso das famílias. Sabem o que é? É uma expressão científica que serve para designar um falar como o papagaio, sem se saber e sem se sentir o que se diz.

(…) Aqui na casa do André, fala-se um falar de falar, um falar de gente, não um papaguear. Não sei se isto é só porque as pessoas gostam de comer bem, também gostam de falar bem ou se é também porque a “alimentação faz os homens” e, portanto, faz bem ou mal à mente das pessoas, conforme a qualidade. Será que a alimentação do Snack estupidifica as pessoas?

Saber palavras, conhecer frases, dizer coisas, não é falar. Falar é comunicar.

(…) Do jogo equilibrado entre o falar e o calar, resulta a adequação da linguagem. Por vezes a criança cala a verbalização emocional e então a emoção exterioriza-se apenas sob a forma de tique. O falar do papagaio – bicho ou criatura humana – é uma espécie de tique ou de “doença dos tiques”. Outras vezes a criança aprende a utilizar uma linguagem convencional e a dizer em frases feitas uma conversa sem conteúdo a que se chama psitacismo. A inteligência que tem muito a ver com a emoção, com a imaginação e com a maneira de comunicar, acaba por se bloquear. Falar como um papagaio, no dizer popular, significa não só exprimir-se sem espontaneidade, mas também ter falta de inteligência.” (…)

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