Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota
Nota de leitura sobre Florange, sobre a siderurgia, sobre um ministro de esquerda em França
Depois de 15 dias sem computador, depois de uma nova reinstalação, abro o computador, leio o Jornal Le Monde e fico “frito”. Um dos ministros mais responsáveis do governo francês ameaça demitir-se, caso uma siderurgia francesa nas mãos de Mittai não seja nacionalizada, a zona industrial de Florange, o berço da siderurgia “fina” de França, a siderurgia das ligas de grande qualidade. Mais uma quebra no aparelho produtivo francês, em nome da submissão dos Estados ao capital, aos mercados, à concorrência desenfreada e movida à escala planetária. Pura e simplesmente é isso
De novo reencontramos aqui a problemática da Desindustrialização, da Globalização, da Deslocalizações, de novo reencontramos aqui o modelo neoliberal da Comissão Europeia e das suas Directivas, de novo reencontramos aqui a visão institucionalizada de que a Europa se faz colocando os seus estados membros uns contra os outros porque isso é concorrência não falseada!
O processo Florange, esse, prometemos que o iremos acompanhar mas deixemos aqui apenas a referência de que a solução de Florange, a solução de Arcelor, a solução da siderurgia em França, pode passar pela sua nacionalização, segundo o actual ministro de tutela. Um outro discurso, portanto, e veremos se o mistro cai ou não cai, por isso mesmo, se ganha ou não ganha, sendo certo que se perde são claramente todos os europeus sem excepção que perdem, mesmo que a deslocalização seja feita para a Plónia ou para outro país de mais baixos salários ainda.
Um processo a acompanhar, pois.
Júlio Marques Mota
O dia em que Montebourg ameaçou com a demissão
Le Monde, AFP e Reuters, 3 de Dezembro de 2012
Arnaud Montebourg, o Ministro da reconfiguração produtiva, ameaçou demitir-se do governo no decorrer de uma reunião, sábado passado, com o presidente, François Hollande, por ter sido desautorizado pelo Primeiro-Ministro quanto ao processo Florange, diz-nos Libération na sua edição de segunda-feira 3 de Dezembro.
“Eu disse a Hollande que se nada fosse feito até ao final deste sábado para reparar os danos sobre esta questão da nacionalização, não iria ficar no governo, e a deslocalização vai começar. François Hollande pediu-me para não fazer nada “, diz Montebourg ao Libération a propósito desta reunião com o Presidente na manhã de sábado no Eliseu. “Não se trata de uma questão pessoal. Por detrás deste processo, de Florange, de Arcelor, há pessoas que trabalham,” foi o ministro dizendo, como o informa o jornal.
De acordo com o Libération, o Elysée “passou este sábado a tentar evitar a ruptura”, depois de que a proposta de nacionalizar Florange emitida por Arnaud Montebourg não ter sido aprovada ontem pelo primeiro-ministro, Jean-Marc Ayrault. Finalmente, no sábado à noite em TF1, Arnaud Montebourg rejeitou qualquer ideia de demissão. “Eu decidi ficar no meu posto de trabalho e lutar”, disse ele.
Domingo, aquando da emissão “Todos políticos” de France Inter / Le Monde / AFP, Claude Bartolone, Presidente da Assembleia Nacional, disse que a ideia de nacionalizar temporariamente a siderúrgica teria “servido para torcer o braço a Mittal ” para que ele aceite um compromisso com o governo.
Em France Info, Bernard Thibault, secretário-geral da CGT, disse que “um relatório oficial tinha preconizado ao estado francês entrar na actividade da metalurgia” e denunciou “uma possível renúncia da parte do governo ” neste processo. O número um da CGT disse que não acreditar que o sítio industrial de Florange venha a ser “salvo”, depois do acordo anunciado sexta-feira.
Bernard Thibault, disse depois que após um plano similar “, na Bélgica, os trabalhadores de Liège tiveram a confirmação de que, após as mesmas promessas que foram feitas pelo governo francês, hoje, as actividades estão rompidas e está-se perante a gestão social dos despedimentos”. Além disso, continuou ele, o acordo “coloca problemas enormes.” “Nós não vamos manter os altos-fornos em inactividade durante anos . A decisão de não reiniciar a actividade no sector dos altos fornos sugere que esta actividade está pura e simplesmente a ser condenada .” “Tecnicamente, não se pode permitir que este tipo de instalações esteja em inactividade durante tanto tempo, ou então é um custo enorme para não se produzir nada”, observou Bernard Thibault.
Uma vitória segundo a CFDT
Lawrence Berger, o secretário-geral da CFDT, disse na segunda-feira que o acordo alcançado foi “uma vitória”. “é porém necessário sublinhar que hoje não haverá supressão de 650 postos de trabalho. E, mesmo assim, para o sindicalista, uma vitória, e esta devemo-la à mobilização dos trabalhadores, à mobilização organizada pela FDT de Florange “, disse ele na RTL.
Mas, para o sucessor de François Chérèque, “o governo tem de encontrar formas e meios para obrigar Mittal a honrar os seus compromissos.” “Ninguém pode à priori confiar em Mittal, e já lá vão 18 meses que os trabalhadores têm estado a viver entre e promessas não cumpridas e duches bem frios “, disse Berger.


