Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
II: Jacques Sapir : ” desvalorizar permitiria redistribuir a riqueza “
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Jacques Sapir est économiste, et directeur d’études à l’EHESS |
(CONCLUSÃO)
Parte IV
Pouco credível, se considerarmos que a UE é construída em torno da moeda única…
Porquê? As coisas estão a mudar, o tabu já saltou. Já existe um país, a Finlândia, que admitiu que estaria muito melhor sem o euro. Quanto aos países da Europa fora da zona euro, incluindo as do Leste, estes já não pretendem adoptar a moeda única, portanto, estamos num momento de balanço. Resta saber quando é que os dirigentes franceses irão incorporar isso nos seus raciocínios. Será que eles vão eles esperar até o último momento ou vão aceitar colocar a questão em agenda ? Tudo é possível…
Claro, se o euro deve desaparecer, é melhor que isso seja decidido pelos europeus e de forma coordenada. Poderíamos então criar um novo SME em que com ele se definiria de comum acordo as paridades e as margens de flutuação das novas moedas .
Sabe-se já e em que proporções os países deverão desvalorizar ou revalorizar a sua moeda para recuperar os níveis de competitividade relativa que prevaleceram em 1999-2000. A França, em particular, deve desvalorizar cerca de 20-22% da Alemanha.
Aqui, enfrenta-se esse problema constantemente levantado pelos nossos políticos: se a nossa moeda, o franco “novo”, está desvalorizada, a nossa dívida, que é denominada em euro, vai explodir.
Calma, isso é uma piada! É um argumento que se agita para assustar as pessoas! Se o euro é dissolvido, todas as dívidas, públicas mas também privadas, serão imediatamente transformadas em dívida agora na respectiva moeda nacional (nova) . A dívida não pode crescer porque ela é estritamente proporcional à nossa riqueza num determinado momento. Um regresso ao franco não mudaria nada do rácio dívida / pib. os únicos perdedores eventuais seriam os credores estrangeiros da França!
Portanto, nós iríamos ganhar?
Sim, é claro. Isso acontece sempre assim: o excesso de dívida acabará por se desfazer em detrimento dos credores e isso sem ter em conta os efeitos benéficos que se teria sobre o comércio internacional e sobre a actividade económica interna. Teríamos uma desvalorização contra a Alemanha da mesma forma que teríamos uma revalorização face à Grécia, à Espanha e à Itália.
Há também o problema do dólar…
Sim, o “novo franco” logicamente deve perder 10% contra o dólar. As nossas importações expressas em dólares seriam pois encarecidas em 10% e, do mesmo modo, as nossas importações em marcos, se a Alemanha revaloriza em 20%.
Sabendo-se que as importações, na França, são responsáveis por cerca de metade do PIB e que nesta metade se encontram 10% do PIB (em dólares (s)) para a energia e 10% com proveniência da Alemanha, nós teríamos respectivamente 2% de aumento de preços mais elevados para os produtos de origem alemã e de 1 a 2% para as nossas compras em produtos energéticos. Se somarmos a isto as nossas actuais taxas de inflação, podemos contar o choque da inflação pós-depreciação em cerca de 6-7%, apenas, para o primeiro ano, evidentemente, pois que o cenário da desvalorização não se produz apenas num só ano e está pois longe de ser dramático.
Mas pode sê-lo para as famílias, especialmente para as pessoas de pequenos rendimentos que vêem as suas despesas, com o combustível, a crescer acentuadamente.
Não estou a dizer que tudo isto se faz sem problemas, mas o que faz actualmente o governo sobre os preços da gasolina pode ser completamente revisto. Além disso, a pequena queda nos preços recentemente decididas é não de todo justa. Com esta baixa subsidia-se e ao mesmo nível tanto o proprietário de um Porsche com o de um Logan…isto é, um cheque-gasolina tendo em conta os rendimentos assim como as distâncias do emprego para casa que deveriam ser tidos em conta, é o que se deveria fazer.
Para o resto, obviamente haverá uma escolha: queremos produtos baratos, ou queremos que haja empregos? Vai ser difícil ter os dois. Neste contexto, a desvalorização monetária prova para ser uma política eficaz de redistribuição da riqueza. Como ela é especialmente cara para aqueles que viajam muito para o estrangeiro e que desejam comprar uma Mercedes ou um Audi!
Como resultado, eu acho que um processo concertado de dissolução do euro não deve ser traumático.
Por outro lado, se estivermos numa lógica de desmembramento gradual da zona euro, o choque será muito maior, económica e politicamente. Não se sabe então qual poderia ser a dureza dos conflitos entre países e mesmo entre regiões dentro do mesmo país, seja a Espanha ou a Bélgica, por exemplo..
Continuar pela via actual é correr o risco de uma desintegração que não atinge somente a divisa, atinge também a existência da própria União Europeia como uma construção política.


