RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

Na Europa, como na Grécia, estamos prisioneiros dentro da nossa própria casa- um exemplo do modo de  vida de quem trabalha e vive na Grécia

Os dois anos de crise e de descida aos infernos

Grécia - IV

Lia Tsouvalakis e a sua filha Angelina no seu pequeno apartamento de quarto e sala em que habitam num bairro pobre junto do porto do Pireu, em Atenas a 22 de Novembro de 2012.

 “Em certos meses ganho 400 euros, há meses que não ganho nada “, diz-nos Georges Tsouvalakis, 31 anos de idade, carpinteiro, que como modo de vida só tem a venda de objectos em madeira que ele fabrica ou de metais que recupera. Com a sua mulher, Lia e a sua pequena Angelina, eles enfrentam um futuro bem mais que incerto.

 Grécia - V

Há dois anos atrás, no início da crise da dívida da Grécia, Georges era carpinteiro na construção civil, tinha dois carros e uma moto.

A sua descida aos infernos é paralela à da Grécia, atingidos ambos pela crise financeira e pelos planos de austeridade que se lhe seguiram.

Hoje, o país está em depressão. O desemprego atinge um terço dos jovens adultos com menos de trinta anos e um quarto da população activa, enquanto a taxa de desemprego geral era simplesmente de 11,8 por cento no segundo trimestre de 2010.

Para George, a crise e todos os seus males quebraram toda e qualquer esperança de uma vida melhor. Os estaleiros da construção civil simplesmente desapareceram. Com Lia, de 30 anos, que era vendedora numa loja de roupa, eles ganharam, os dois em conjunto, mais de 2.500 euros por mês.

Grécia - VI George Tsouvalakis fabrica pequenos objectos em madeira no seu apartamento em Atenas, no dia 22 de Novembro de 2012.

“Em 2011, deixamos a nossa casa porque nós já não podíamos a pagar a renda de casa. . Nós viemos para aqui na esperança de que seria uma solução para os nossos problemas, mas nós aguentaremos sempre ” como diz Georges, ao mesmo tempo que mostra o pequeno e rudimentar apartamento de dois quartos em que eles vivem na zona desfavorecida de Palia Kokinia, perto do Porto de Pireu.

Por esta habitação escura pertencente à mãe de Georges, o jovem casal não paga o aluguer nem os custos de electricidade e água que compartilham com o irmão de Georges, que vive na porta ao lado, com a sua mãe.

A sala comum é animada somente pelos brinquedos da sua filha pequena Angelina de dois anos, que nasceu com a crise. Sobre um móvel, um retrato de Georges vestido à militar  envolve os ícones de rigor na maioria das salas gregas.

 Grécia - VIILia Tsouvalakis e a sua filha no seu pequeno apartamento em Novembro de 2012.

Mas o frigorífico está vazio. Aí, apenas há gelo. Um prato de salada à base de grão-de-bico é a refeição naquele dia. Para a ia naquele dia  à mercearia da esquina, Georges tem apenas 10 euros. E estes servem-lhe para comprar um pacote de Pampers e leite. O resto pode ou tem que esperar.

“Às vezes, nós beneficiamos de distribuições gratuitas de comida feita nas paróquias, na maioria das vezes são os meus pais nos ajudam”, disse Lia. Mas o seu pai, agora aposentado, também viu a sua pensão diminuir com as medidas de austeridade. Hoje, esta está apenas 370 euros.

O casal diz-se que anda muito deprimido e não têm outra ambição na vida que não seja a de se irem embora da Grécia, para bem longe. ” Eu espero que precisem de carpinteiros no estrangeiro, na Austrália, Noruega e na Suíça”, diz-nos Georges em voz alta. Os gregos já tiveram várias vagas de emigração no decorrer da sua história tumultuosa e a crise acelera as partidas.

Mas para Georges e Lia, é impossível conseguir o dinheiro para comprar um bilhete de avião.

“Aqui, não há nenhum futuro” uma frase que deixa cair, ” não há para a minha geração nem para a próxima “. “Do que nós precisamos é de reencontrarmos os nossos sorrisos, as nossas rizadas, o nosso optimismo. Eu não quero viver o que estou a viver” acrescenta Lia. .

Aqui, toda a via social desapareceu. George passa os seus dias vagueando pelas ruas à procura de materiais para reciclar ou revender. Lia cuida da sua filha.

“Vou para casa da minha sogra, jogar um pouco às cartas, podemos olhar para um filme. Estamos prisioneiros dentro da nossa própria casa. Não se pode fazer nada “, diz Lia, que desistiu desde há já muito tempo de  uma ida ao cinema e ao restaurante.

“Os meus pais ajudam-nos  tanto quanto o podem fazer, mas eles também têm os seus próprios problemas. Eles não sabem sequer no que é se vai transformar a pensão de reforma que recebem  ou se a continuam a receber ou não”.

Grèce Georges et Lia, deux ans de crise et de descente aux enfers, revista Marianne .

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