REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota

europe_pol_1993

Será que  os governantes da Europa estão a  copiar  as políticas de Herbert Hoover, em 1929, ou as da  monarquia francesa em 1789?

 (Parte I)

“ Os povos europeus poderão ter uma  palavra a dizer quanto à  definição do seu destino antes mesmo que este ciclo de austeridade absurda termine. Quando eles se tornarem suficientemente corajosos ou desesperados para falar”, para se expressarem, eles a dirão, eles a realizarão.

Esperemos que o façam em 2013 são os nossos votos de Bom Ano- Júlio Marques Mota

 

Maximus Fabius

Síntese: Há dois caminhos possíveis para a Europa. Um dos caminhos é o que poderá levar a Europa no futuro a uma mudança fundamental e  dolorosa. E o outro caminho, com riscos desconhecidos e muito dolorosa, igualmente, mas a oferecer a possibilidade de um futuro melhor. O caminho escolhido pelos líderes europeus revela muito sobre o que eles são, sobre o que eles querem.  O resultado final revelará muito sobre os povos da Europa.

Dois relatórios importantes foram esta semana publicados e em que se descreve  a condição perigosa da economia mundial. Ambos valem bem a sua leitura. Ambos levantam sérias dúvidas sobre o caminho que a Europa está a percorrer.

–   “Global Recovery Stalls, Downside Risks Intensify“, World Economic Outlook Update of the IMF, 24 Janeiro de 2012

–  “A Crise europeia aprofunda-se” de Peter Boone (Professor associado  na London School of Economics) e Simon Johnson (ex-chefe economista do FMI, Profof Economics no MIT) e ainda no Peterson Institute for  International Economics (PIIE),

O relatório PIIE entra em maiores detalhes sobre o tratamento para os  males da Europa, apresentando as soluções recomendadas pela nosso sistema  bancário — que domina estas discussões no Ocidente. Observe especialmente dois aspectos, um recomendado — e um outro por omissão.

(1) Liquidar o povo dos  GIIPS e as instituições que os apoiam

O segundo ingrediente é um programa muito mais agressivo para reduzir os défices orçamentais e melhorar a competitividade nos países considerados como sendo os países da periferia da zona euro. Estas nações precisam de ser altamente competitivas se   devem e querem  gerar crescimento e rapidamente  dado os grandes riscos que ameaçam as  suas economias. Isto exige grandes cortes de salários, cortes nas despesas do sector público,  mudanças na política fiscal para atrair investimentos e negócios e exige ainda uma política estável de gastos públicos.

… Uma nação com uma taxa de câmbio flexível, o reajustamento é geralmente feito com cortes no orçamento do Estado e uma desvalorização acentuada da sua moeda. Uma vez que as  Nações da zona euro  renunciaram, por definição, ao  seu direito de desvalorizar, elas precisam de recuperar a competitividade através de cortes de preços e salários, mesmo que  ainda mais acentuadamente, cortando nas despesas públicas. Em suma,  estas nações  precisam  de  aumentar a volatilidade dos  seus salários, preços e orçamentos públicos , se estão dispostos a abrir mão de alterações semelhantes que poderiam ser alcançadas através de variações  na  taxa de câmbio.

As evidências disponíveis desde os resultados dos programas da Troika em Portugal, Irlanda e Grécia, bem como os projectos  de orçamento anunciados  recentemente em Itália e Espanha, sugerem que as políticas actuais acordadas com a Troika  irão falhar nesta tarefa.

No entanto, até agora, há muito pouca vontade de tomar estas medidas necessárias. A economia europeia continua a estar, portanto, numa situação altamente perigosa.

Boone e Johnson recomendam mudanças muito conservadoras quanto às políticas a serem utilizadas. Largos cortes nos salários, largos cortes na despesa pública. Alterações na política fiscal para ajudarem os ricos e as empresas. Para estes países serem assim ser forçados através de forte pressão das Nações do norte da Europa e das instituições que eles controlam como  (por exemplo, o FMI e o BCE). Bismarck gostaria de considerar estas políticas muito à direita

Apenas uma fórmula do  {Secretário do Tesouro norte-americano Andrew Mellon}: liquidem o trabalho, liquidem as bolsas, liquidem os agricultores e liquidem o sector imobiliário. O liquidacionismo  irá limpar a podridão do sistema. Os altos custos de vida e os altos níveis de vida irão descer. As pessoas irão trabalhar bem mais duramente, vão viver a sua vida de uma forma moralmente mais adequada. Os valores serão ajustados e as pessoas empreendedoras vão-se distanciar das pessoas menos competentes.

— Herbert Hoover nas suas memórias, duramente e com coragem atirava  a culpa para a grande depressão

As instituições que beneficiaram do regime europeu na última década falharam estrondosamente. Agora as populações dos PIIGS devem pagar esse rotundo falhanço com muitos anos de austeridade. A situação é igualmente muito parecida com os últimos dias do ancien regime  de França. Provavelmente é uma solução viável, tanto quanto os governantes competentes podem juntar e tratar os seus povos como ovelhas. Habitualmente.  Mas nem sempre. Talvez Boone e Johnson devam ler “The Old Regime and the Revolution” de Tocqueville bem como sobre a preparação do Tennis Court Oath em 1789[1]. As pessoas podem afastar-se e muito das suas elites quando estas  recusam  contribuir para que se vençam as dificuldades e se ultrapassem os grandes problemas  de uma nação.

(continua)

[1] O juramento do Campo de Ténis (Jeu de Paume, em francês) foi realizado em 20 de Junho de 1789,  pelos membros do terceiro estado, que decidiram permanecer reunidos até dotarem a França de uma Constituição.

O Rei da França, Luís XVI, tinha ordenado o fechamento da sala de reuniões que era utilizada pelos nobres, procurando dissolver a Assembleia Nacional. Mas os representantes do terceiro estado, liderados pela burguesia, transferiram-se para um salão de jogos do palácio. Nesse local eles fizeram o “Juramento do Jogo da Péla”. Neste Juramento, estabeleceram que ficariam até fazerem a Constituição Francesa, onde constariam os direitos políticos e jurídicos dos cidadãos franceses.

O juramento feito pelos representantes da Assembleia Nacional era o de Liberdade, Igualdade e Fraternidade (lemas da Revolução Francesa).

O Juramento do Campo de Ténis  era uma declaração  de que a soberania do povo não residia no rei, mas sim nas próprias pessoas e nos seus representantes. Foi a primeira declaração de  autoridade revolucionária do Terceiro Estado e esta uniu  praticamente todos os seus membros para a acção comum. E o seu sucesso pode ser visto   no facto de que apenas  uma semana mais tarde Luís XVI convocou uma reunião em conjunto dos Estados Gerais com a finalidade de  se  escrever uma nova  constituição. Nota de Tradução.

Leave a Reply