Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota
Será que os governantes da Europa estão a copiar as políticas de Herbert Hoover, em 1929, ou as da monarquia francesa em 1789?
(Parte I)
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“ Os povos europeus poderão ter uma palavra a dizer quanto à definição do seu destino antes mesmo que este ciclo de austeridade absurda termine. Quando eles se tornarem suficientemente corajosos ou desesperados para falar”, para se expressarem, eles a dirão, eles a realizarão. Esperemos que o façam em 2013 são os nossos votos de Bom Ano- Júlio Marques Mota |
Maximus Fabius
Síntese: Há dois caminhos possíveis para a Europa. Um dos caminhos é o que poderá levar a Europa no futuro a uma mudança fundamental e dolorosa. E o outro caminho, com riscos desconhecidos e muito dolorosa, igualmente, mas a oferecer a possibilidade de um futuro melhor. O caminho escolhido pelos líderes europeus revela muito sobre o que eles são, sobre o que eles querem. O resultado final revelará muito sobre os povos da Europa.
Dois relatórios importantes foram esta semana publicados e em que se descreve a condição perigosa da economia mundial. Ambos valem bem a sua leitura. Ambos levantam sérias dúvidas sobre o caminho que a Europa está a percorrer.
– “Global Recovery Stalls, Downside Risks Intensify“, World Economic Outlook Update of the IMF, 24 Janeiro de 2012
– “A Crise europeia aprofunda-se” de Peter Boone (Professor associado na London School of Economics) e Simon Johnson (ex-chefe economista do FMI, Profof Economics no MIT) e ainda no Peterson Institute for International Economics (PIIE),
O relatório PIIE entra em maiores detalhes sobre o tratamento para os males da Europa, apresentando as soluções recomendadas pela nosso sistema bancário — que domina estas discussões no Ocidente. Observe especialmente dois aspectos, um recomendado — e um outro por omissão.
(1) Liquidar o povo dos GIIPS e as instituições que os apoiam
O segundo ingrediente é um programa muito mais agressivo para reduzir os défices orçamentais e melhorar a competitividade nos países considerados como sendo os países da periferia da zona euro. Estas nações precisam de ser altamente competitivas se devem e querem gerar crescimento e rapidamente dado os grandes riscos que ameaçam as suas economias. Isto exige grandes cortes de salários, cortes nas despesas do sector público, mudanças na política fiscal para atrair investimentos e negócios e exige ainda uma política estável de gastos públicos.
… Uma nação com uma taxa de câmbio flexível, o reajustamento é geralmente feito com cortes no orçamento do Estado e uma desvalorização acentuada da sua moeda. Uma vez que as Nações da zona euro renunciaram, por definição, ao seu direito de desvalorizar, elas precisam de recuperar a competitividade através de cortes de preços e salários, mesmo que ainda mais acentuadamente, cortando nas despesas públicas. Em suma, estas nações precisam de aumentar a volatilidade dos seus salários, preços e orçamentos públicos , se estão dispostos a abrir mão de alterações semelhantes que poderiam ser alcançadas através de variações na taxa de câmbio.
As evidências disponíveis desde os resultados dos programas da Troika em Portugal, Irlanda e Grécia, bem como os projectos de orçamento anunciados recentemente em Itália e Espanha, sugerem que as políticas actuais acordadas com a Troika irão falhar nesta tarefa.
No entanto, até agora, há muito pouca vontade de tomar estas medidas necessárias. A economia europeia continua a estar, portanto, numa situação altamente perigosa.
Boone e Johnson recomendam mudanças muito conservadoras quanto às políticas a serem utilizadas. Largos cortes nos salários, largos cortes na despesa pública. Alterações na política fiscal para ajudarem os ricos e as empresas. Para estes países serem assim ser forçados através de forte pressão das Nações do norte da Europa e das instituições que eles controlam como (por exemplo, o FMI e o BCE). Bismarck gostaria de considerar estas políticas muito à direita
Apenas uma fórmula do {Secretário do Tesouro norte-americano Andrew Mellon}: liquidem o trabalho, liquidem as bolsas, liquidem os agricultores e liquidem o sector imobiliário. O liquidacionismo irá limpar a podridão do sistema. Os altos custos de vida e os altos níveis de vida irão descer. As pessoas irão trabalhar bem mais duramente, vão viver a sua vida de uma forma moralmente mais adequada. Os valores serão ajustados e as pessoas empreendedoras vão-se distanciar das pessoas menos competentes.
— Herbert Hoover nas suas memórias, duramente e com coragem atirava a culpa para a grande depressão
As instituições que beneficiaram do regime europeu na última década falharam estrondosamente. Agora as populações dos PIIGS devem pagar esse rotundo falhanço com muitos anos de austeridade. A situação é igualmente muito parecida com os últimos dias do ancien regime de França. Provavelmente é uma solução viável, tanto quanto os governantes competentes podem juntar e tratar os seus povos como ovelhas. Habitualmente. Mas nem sempre. Talvez Boone e Johnson devam ler “The Old Regime and the Revolution” de Tocqueville bem como sobre a preparação do Tennis Court Oath em 1789[1]. As pessoas podem afastar-se e muito das suas elites quando estas recusam contribuir para que se vençam as dificuldades e se ultrapassem os grandes problemas de uma nação.
(continua)
[1] O juramento do Campo de Ténis (Jeu de Paume, em francês) foi realizado em 20 de Junho de 1789, pelos membros do terceiro estado, que decidiram permanecer reunidos até dotarem a França de uma Constituição.
O Rei da França, Luís XVI, tinha ordenado o fechamento da sala de reuniões que era utilizada pelos nobres, procurando dissolver a Assembleia Nacional. Mas os representantes do terceiro estado, liderados pela burguesia, transferiram-se para um salão de jogos do palácio. Nesse local eles fizeram o “Juramento do Jogo da Péla”. Neste Juramento, estabeleceram que ficariam até fazerem a Constituição Francesa, onde constariam os direitos políticos e jurídicos dos cidadãos franceses.
O juramento feito pelos representantes da Assembleia Nacional era o de Liberdade, Igualdade e Fraternidade (lemas da Revolução Francesa).
O Juramento do Campo de Ténis era uma declaração de que a soberania do povo não residia no rei, mas sim nas próprias pessoas e nos seus representantes. Foi a primeira declaração de autoridade revolucionária do Terceiro Estado e esta uniu praticamente todos os seus membros para a acção comum. E o seu sucesso pode ser visto no facto de que apenas uma semana mais tarde Luís XVI convocou uma reunião em conjunto dos Estados Gerais com a finalidade de se escrever uma nova constituição. Nota de Tradução.

