Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Abaixo Roosevelt! Viva o “papá” Queuille!
LAURENT MAUDUIT, Dezembro de 2012
François Hollande, antes de se conhecerem os resultados da eleição Presidencial, a 6 de Maio de 2012 –
GHNASSIA ANTHONY/PETIT THOMAS/SIPA
Nestes tempos de crise, François Hollande tomou, em dado momento, a postura do líder corajoso que a República precisava. Foi no domingo, 22 de Janeiro, em Le Bourget. Naquele dia, o candidato socialista deixou de se assemelhar ao antigo ministro conhecido depreciativamente como o pequeno Queuille pai, como ele também de Corrèze e muitas vezes também tão indeciso como este antigo ministro, pois nesse dia assumiu posições dignas e voluntaristas a altura das decisões tomadas por Franklin Delano Roosevelt.
“O meu verdadeiro adversário, não tem sem nome, não tem rosto, não tem partido, ele nunca irá apresentar a sua candidatura, ele nunca vai ser eleito e, no entanto, ele governa. O meu verdadeiro adversário é o mundo das Finanças”, afirmou Hollande. E das palavras para a acção! O campeão socialista revelou que o seu projecto presidencial contempla medidas activas e enérgicas para derrotar as finanças. Fica gravado preto no e branco na plataforma do candidato quando afirma: “Eu separarei as actividades dos bancos que são úteis ao investimento e ao emprego das suas operações especulativas “..
Devagar! Onze meses depois, não resta (quase) nada desta bela promessa. Se a crise continua, François Hollande, ele, deixou de ameaçar a finança . Pior do que isso! Com o projecto da lei bancária que será analisado a 19 de Dezembro em Conselho de Ministros, claramente capitula face à finança. Sem sequer lutar contra ela.
É dizer pouco, no entanto, que François Hollande tinha razão para anunciar um projecto de reforma inspirado na famosa lei Glass-Steagall, promulgada por Roosevelt, em 16 de Junho de 1933. Porque, de uma época a outra , da grande depressão dos anos 1930 até a depressão que agora abala a Europa, há muitas semelhanças. Num e noutro caso, foram e são os bancos o centro do mecanismo da crise – os bancos que se afastaram das suas funções, o de financiamento da economia, para se envolverem em actividades especulativas.
Desde a sua vitória em Novembro de 1932, Roosevelt compreendeu pois que, para conseguir reanimar a economia, graças ao New Deal , ele teria que forçar os rins da finança e de Wall Street. E para isso, era necessário enquadrar a actividade dos bancos, separando as suas acções de depósito das suas actividades de investimento.
Ora, depois, a enorme onda de desregulamentação que tem dominado o planeta tem vindo a fazer o seu trabalho. E, no decorrer da década de 1970, as virtuosas disposições da Lei Glass-Steagall foram contornadas pelos bancos dos EUA, antes desta ser definitivamente revogada em 1999. Nós sabemos o que aconteceu a seguir: alimentada pelos bancos, a especulação retomou proporções loucas e acabou por desencadear a crise dita de subprime, ato I desta crise histórica de que a Europa ainda não saiu.
Portanto, com razão, François Holland sugere desde o início de 2012, que mais uma vez se coloquem os bancos nos carris, a fazerem o que devem fazer . E que ganhemos inspiração com a primeira reforma da Roosevelt, torpedeado pela finança. De resto, quando faz esta proposta, o candidato socialista não está a brilhar pela sua originalidade. Porque em muitos outros países, uma reflexão semelhante foi igualmente desencadeada para restaurar uma melhor regulamentação dos bancos. Nos Estados Unidos, com a Comissão Volcker, ou ainda na Grã-Bretanha, com a Comissão Vickers…
Deixe-nos ser bem claros nesta matéria! No início de 2012, o candidato socialista teria mesmo mil razões para querer agir de uma outra forma, bem mais ambiciosa. Defendendo por exemplo que o futuro banco de investimento público deve dispor de uma força de acção e de ataque financeira bem maior do que a capacidade das diferentes instituições financeiras (CDC Entreprises, Oseo,… fundo de investimento estratégico) que ele vai federar. Ou então deveria pôr em causa a quasi-privatização da caderneta tipo A à qual Nicolas Sarkozy tinha dado corpo, desestabilizando ao mesmo tempo as duas grandes missões de interesse geral que lhe estavam ligadas: a remuneração da poupança popular e o financiamento da habitação social. Ou, enfim – o sacrilégio dos sacrilégios! – encarar a hipótese de uma nacionalização da banca, para quebrar a coluna vertebral da muito conservadora oligarquia francesa de que Nicolas Sarkozy foi o porta-voz; para dar um fim à especulação e mobilizar todas as energias do país em direcção ao emprego e ao investimento.
Mas disso, François Hollande não quer ouvir falar no início de 2012. Com ou sem razão? Em qualquer caso houve tons tão sinceros quando ele estigmatizou as finanças que estamos a pensar que irá , pelo menos isso, que irá caminhar no bom sentido …
Bem, não! Sabemos agora que não é nada disso. O projecto de lei imporá aos bancos a obrigação de acantonarem, a partir de agora e até 2015, e em filiais especializadas, algumas actividades muito específicas, que representam 2 a 3% do seu balanço, como as suas actividades por conta própria e de porem um fim a práticas altamente arriscadas como as transacções de alta frequência ou na compra e venda de derivados de matérias-primas agrícolas. Mas o projecto de lei não irá para além destas medidas cosméticas. E, em particular, ele não vai segurar a divisão prometida entre depósitos bancários e de investimentos.
Claramente, venceu o poderoso lobby dos bancos. E este venceu em toda a linha.
História patética! Esta é a derrota póstuma de Roosevelt; e é a vitória do pequeno Queuille pai…
* laurent.mauduit@mediapart.fr
