REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota

Nota Introdutória

Um texto importante, a Europa vista por um grande economista americano, L. Randall Wray.

Sangue e mais sangue é o que pretendem os açougueiros desta Europa martirizada, num grande talho que tem a dimensão de um continente,  com uma equipa de direcção que dá pelo nome do bando dos 4, Barroso, Rompuy, Juncker, Mário Draghi, com uma sub-direcção sediada em Berlim com Merkel e em Frankfurt com o Bundesbank e com ajudantes que dão pelo nome de Passos Coelho, Rajoy, Hollande, Monti,  e outros. Toda uma grande equipa ao serviço de  patrões que não têm nome, não mostram a cara, não vão a eleições, mas governam, governam a vida deles e destroem as nossas: os mercados de capitais com tudo o que de estruturas  eles implicam.

É por tudo isto que consideramos que a Europa com as cumplicidades e os silêncios de muita gente  vai a caminho  dos violentos anos 30  e a estar possivelmente perante uma nova tragédia, diferente da anterior, mas tragédia igualmente. Estamos a tempo de a travar. Oxalá o saibamos fazer.

Júlio Marques Mota

Como o crescimento global diminui, os defensores das políticas de austeridade exigem ainda mais sangue

 L. Randall Wray · Dezembro de 2012

Parte I

Sites disponíveis de L. Randall Wray:
http://cas.umkc.edu/econ/economics/faculty/wray/raymain.html
e ainda:
http://neweconomicperspectives.org/

Não é costume encontrar casos de experiências testadas e controladas nas ciências sociais. As nações geralmente recusam-se a utilizar as suas economias como cobaias. Mas elas agora parecem fazerem fila para verem se realmente é possível cortar o caminho de retorno à prosperidade. Então aqui fica a pergunta: será a fome uma maneira de curar a fome? Nos próximos meses nós iremos descobri-lo.

Acabei de chegar depois de ter participado  em debates interessantes em Berlim e Helsínquia. O primeiro foi organizado pelo Levy Institute-Fundação Ford em torno de Minsky, e realizado no Deutsche Bank em Berlim, sobre a dívida, o défice e os mercados instáveis​​. (http://www.levyinstitute.org/conferences/berlin2012/). E aqui seguiu-se  mais ou menos o formato das Conferências Levy-Minsky  realizadas anualmente no mês de Abril, em Nova York. Ao contrário da maioria das conferências académicas, estas conferências Minsky actualmente incluem apresentações interessantes que nos falam de questões políticas do mundo real. Uma das melhores apresentações foi feita por Vítor Constâncio, vice-presidente do Banco Central Europeu, intitulada “Completing and Repairing the Economic and Monetary Union”. Sim, foi este de facto o título, proposto por um vice-presidente do BCE. Aparentemente, pelo menos, algumas pessoas no BCE reconhecem, finalmente,  o que está errado com as bases estruturais da UEM. A sua avaliação dos problemas está mesmo muito próxima e retoma mesmo muito do que têm dito os teóricos do monetarismo moderno (os MMT’s ) durante a última década. As suas soluções são tímidas, mas eu suponho que haja restrições sobre o que ele possa dizer. Ainda assim, eu recomendo que se dê uma olhada para o seu discurso (no site Levy). Eu vou expor e sintetizar alguns dos pontos por ele apresentados.

O segundo debate que mencionei acima foi na The Return of Full Employment Policy Conference, na Finlândia. (http://sorsafoundation.fi/2012/10/04/seminar-on-full-employment-policy/)  Nesta, falou-se, discutiu-se,  quase que exclusivamente sobre o “défice de coruja”[1], as finanças funcionais, segundo a abordagem dos MMT quanto à utilização das políticas públicas para se atingir o pleno emprego. Isto permite um ataque frontal à política de austeridade da UE. Uma das mais apresentações interessantes (ainda que breve)  foi feita por Lena SOMMESTAD, deputada no Parlamento Sueco (pode obter o vídeo do painel de discussão no site:

http://www.youtube.com/watch?v=ZKTuHM6qkgA&feature=plcp).

Embora a Suécia não esteja na UEM, ela estava preocupada com essa ânsia de austeridade que também  já apanhou o seu próprio governo.

Em ambas as conferências se levantou alguma esperança de que existem postos avançados de sanidade intelectual na Europa. No entanto, essa esperança foi destruída quando voltei para os EUA e foi inundado com as reportagens dos jornais sobre os últimos movimentos na política desde o Reino Unido, passando pela Irlanda e até à Alemanha, em que cada governo está a exigir mais derramamento de sangue. A Grã-Bretanha está a pensar em cortar um milhão de empregos no sector público, o  chanceler do Tesouro, Osborne diz que a austeridade vai continuar até 2018! Lembremo-nos de que a crise global se iniciou a partir de 2008, por isso ele está a pensar prolongar a Grande Recessão para o estilo da que ocorreu em 1930 e com uma duração que vai para além de pelo menos uma década .

Aqui está a lógica: até agora o corte do caminho de regresso para a prosperidade gerou apenas mais sofrimento, então maiores e mais prolongados cortes serão necessários para alcançar a prosperidade ilusória. (http://nyti.ms/11EOF9w). Sim, o paciente está cada vez mais fraco, então nós temos que tirar-lhe ainda mais sangue para que ele recupere a saúde.

Sobre a Irlanda, as coisas estão mesmo ainda mais desesperadas. Uma vez que cinco sangrias já falharam até agora para reanimar o paciente, o governo está ainda a impor um outro plano de austeridade, a sexta sangria. (Http://nyti.ms/11EDYUi). Sabemos que os irlandeses são difíceis, mas a situação está a ficar um pouco ridícula. O remédio para a fome é agora pensado como sendo o de lhes dar ainda mais fome para se curarem da fome.

E, finalmente, a chanceler Merkel manteve a esperança de alguma consideração de apoio quanto à dívida para os países-membros mais problemáticos, mas nunca antes de 2014, e somente se eles concordarem em aplicar mais sofrimento sobre as suas populações já a padecerem de extremas dificuldades. Vemos pois, o paciente não está ainda suficientemente morto para se deixar de continuar a sangrá-lo.

(E para não ficar para trás, a nossa própria equipa residente sobre a comédia da dívida – os economistas da Universidade de Chicago estão a exigir também mais sofrimento para os EUA. Não satisfeito apenas com declarações gerais sobre a necessidade de programas de austeridade, Casey Mulligan tem andado a argUEMntar que precisamos de mais pobreza (“Poverty Rates Should Have Risen”, http://economix.blogs.nytimes.com/2012/12/05/poverty-should-have-risen/). Ele insiste que é terrível, exactamente terrível (!)  que a taxa de pobreza não tenha subido suficientemente com a recessão. Eu, por exemplo, desejo que todos nós tentemos encontrar uma maneira de deixar todos os “Chicago Boys” a viverem em situação de sem abrigo durante algumas semanas em Janeiro próximo.

(continua)

[1] Nota de tradução. Os autores a que dá a qualificação de corujas do défice  destacam-se das bem conhecidas posições contra o défice, a posição dos falcões, os defensores das políticas de austeridade que devem ser aplicadas imediatamente,  e destacam-se igualmente da posição das  pombas, os defensores das políticas orçamentais na expansão económica  mas que consideram que devem ser aplicadas mais tarde porque o défice é um problema imediato. Diferente destas duas posições  inscrevem-se, continuando com a analogia das aves, uma terceira corrente, a das corujas em termos do défice,  que defendem que as políticas expansionistas são para  aplicar imediatamente. As corujas entendem que o défice não é um problema, nem agora, o que dizem os falcões, nem mais tarde, o que dizem as pombas em que se inscreve a linha de Obama, não, para os corujas do défice, o défice é apenas uma parte de um outro problema, o défice é apenas uma parte natural do problema que é a necessidade de crescimento.  Segundo esta terceira linha de análise o défice é ele próprio o resultado e não a causa das dificuldades económicas, Por outras palavras  o défice é um sintoma e não a doença da economia  e as suas raízes teóricas encontram-se  em Keynes, em Minsky  e noutros autores progressistas.

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