REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Sobre o liquidacionismo de  ontem na América e de hoje  na Europa

Júlio Marques Mota

Parte II 

Deparei-me com versões draft  diferentes do mesmo texto a denotar que mesmo o autor terá tido algumas dificuldades em tornar o texto claro para o leitor médio que este o  site NBER consulta. Trata-se de um texto longo e nem sempre muito claro porque também é bem evidente para quem anda nestas coisas que em certos casos o autor precisava de muito mais espaço para escrever e explicar do que aquele que eventualmente dispunha para dizer o que nos pretenderia transmitir.

Primeira referência do texto, este pretende ser uma crítica aos neoliberais, uma critica quer à validade dos seus projectos que dominam a investigação nas Universidades quer ainda ao nível da honestidade intelectual dos mesmos quando os compara, e depreciativamente,  com os economistas sérios que se enganaram rotundamente durante a crise de 1929. São três a quatro passagens sobre este tema mas é-nos suficiente a referência logo nas primeiras linhas aos projectos de investigação dos anos 90 em teoria dos ciclos da actividade económica. Na mesma linha de pensamento, uma ou outra referência ao empenho com que as pessoas se debruçavam sobre as tarefas e os desafios a resolver, de uma geração a outra, da dos neoliberais de agora aos economistas dos anos 30 que se enganaram redondamente nas suas sugestões de política económica mas que eram sérios nas posições assumidas face às ferramentas de política económica de que na época se dispunha.

Segunda referência, o autor sublinha a pobreza de instrumentos de análise em política económica que os economistas tinham na época e sublinhe-se que estamos antes da revolução keynesiana  e este deveria ser o terreno de partida para uma análise crítica dos economistas de então. Por outras palavras diríamos que em termos de política económica temos um tempo, o tempo antes de Keynes, e um outro tempo, o tempo da pós-Keynes e só assim é que se pode estudar a história do pensamento económico com alguma seriedade.

Crise económica em  1929, crise económica em 2012. Tempos muito diferentes a dar-nos perante problemas equivalentes capacidades de resposta completamente diferentes. Desse ponto de vista estamos perante um texto fabuloso e lê-lo, parece quase que com a diferença de cerca de 80 anos estamos a ler a descrição da realidade de hoje e não a de então. Estranho pesadelo seria pós Keynes inimaginável e é mesmo muito dramático que o mesmo discurso liquidacionista se presencie hoje e de forma ainda bem  mais violenta e dogmática que ontem. Haveremos de enriquecer mas para isso é necessário primeiro empobrecer, dir-nos-á numa frase lapidar um homem de uma enorme  pobreza intelectual, como é o caso de Passos Coelho, mas este discurso atravessa hoje a Europa vergada ela ao peso da austeridade e dos muitos milhões de desempregados, para além dos muitos mais milhões em situação de quase precariedade absoluta. Esse mesmo discurso transborda nas declarações do antigo conselheiro de Angela Merkel, promovido à direcção do Bundesbank, Jens Weidmann, transborda nas declarações dos dirigentes políticos europeus de que a via para o crescimento passa pela austeridade à escala do continente, uma vez que a crise resulta agora da existência de Estados gastadores, de estados esbanjadores que precisam portanto de fazer uma cura de emagrecimento nos seus consumos produtivos e improdutivos e nas “gorduras do Estado” para assim recuperarem a boa forma e a trajectória de crescimento de antes da crise e sem os defeitos do crescimento de então.

Hoje, assistimos à liquidação do Sistema Nacional de Saúde, assistimos à liquidação  do sistema de ensino publico do secundário ao superior, hoje assistimos à liquidação dos direitos de quem trabalha, de tal modo que será já absurdo falar em mercado de trabalho pois mercado pressupõe ordem, pressupõe lei, hoje assistimos à liquidação da Segurança Social, hoje assistimos à liquidação da própria Democracia, hoje assistimos à liquidação da Europa como espaço civilizacional, como espaço onde nasceu a Democracia, onde nasceu a Declaração dos Direitos do Homem, espaço de onde estas duas conquistas civilizacionais diariamente se alimentavam. Liquidação…liquidação.

Ora de que nos fala o texto de Brad Delong?

Diz-nos o texto:

“Contemplando o naufrágio da economia do seu país e tendo também em vista o naufrágio da sua própria carreira política em retrospectiva, Herbert Hoover escreveu amargamente sobre aqueles que na  sua Administração o tinham  aconselhado à  inacção durante a enorme contracção económica que ocorreu com a Grande Depressão:

Deixem estar o que está e como está dirigido pelo Secretário do Tesouro Mellon… fazer sentir que o governo deve manter as suas mãos de fora e deixar a depressão liquidar-se a si-mesma.  O O Secretário de Estado  Mellon conhece apenas  uma fórmula: ‘ liquidar  o trabalho, liquidar  os mercados bolsistas, liquidar os agricultores,  liquidar  o sector do  imobiliário’…Ele mantinha mesmo a opinião de que até o  pânico não era uma coisa  completamente ruim.  E afirmava:  assim será  estar a limpar  a podridão do sistema. O elevado custo de vida e o elevado nível  de vida irão descer . As pessoas vão trabalhar mais, viver uma vida com muito mais moralidade. Os valores serão ajustados e as pessoas empreendedoras vão-se distanciar dos destroços que  são as pessoas menos competentes “

Sejamos pois claros, a lógica de destruição foi afinal a mesma em 1929 que aquela que agora nos é imposta. Liquidar, liquidar. Ouçamos, por exemplo, Jens Weidmann, presidente do Bundesbank, numa entrevista concedida ao New York Times e mais tarde sintetizada no Jornal Le Monde:

Justamente, para Berlim a zona euro tem estado a ser mais uma máquina da dívida do que outra coisa e isto desde há dez anos. Que não haja nenhuma dúvida que os países ricos da zona euro não irão garantir as dívidas dos países pobres da zona euro (o sul da Europa, os apanhadores de azeitonas): até porque isso seria encorajá-los a ficarem viciados na situação d endividamento.

Mas o discurso de Jens Weidmann ultrapassa o que os economistas chamam de “risco moral”: os efeitos perversos duma solidariedade financeira que incitaria os países menos rigorosos da zona euro a um comportamento que se tornam caro. É pois necessário ser possível de punir e no vazio das prescrições de política económica, teríamos então a dialéctica do pecado e da sua consequente expiação.

Numa União Monetária mal concebida, como é o caso da zona euro, o mal, é a dívida, o resultado de uma gestão irresponsável e folclórica das finanças públicas. Acumulada ao longo dos anos, esta lançou o descrédito sobre a moeda e minou a confiança em toda a zona.

A sanção está então presente como elemento de dissuasão. Esta deve ser pesada para tirar ao pecador o desejo de recomeçar de novo. Esta punição expressa-se através de um mecanismo maravilhoso, afirma Jens Weidmann: as taxas de juros – a punição pelos mercados.

O New York Times assinala ainda que na opinião do Presidente do Bundesbank  “Seria fatal apagar completamente o impacto disciplinar das taxas de juros a que acrescentou a seguir: ” quando os Estados começam a pagar cada vez mais e mais caro para obterem crédito para cumprirem os seus prazos, então, endividarem-se torna-se muito menos atraente para eles.”

Na lógica do sistema actual, o primeiro passo da punição é então a degradação pelas agências de rating. A seguir segue-se geralmente um aumento da taxa de juros que um Estado deve praticar para vender a sua dívida no mercado. Se está em dificuldades, a remuneração exigida pelos investidores para subscreverem a dívida do Estado em questão alcança níveis intoleráveis: em situação de quase falência o Estado “infractor” é colocado sob tutela – é o caso da Grécia, da Irlanda, de Portugal e de Chipre e outros se seguirão, como poderá ser o caso da Espanha e da Itália

De tudo isto Jens Weidmann se felicita e  conclui assim para o jornalista do New York Times: a boa política orçamental deve ser recompensada graças ao custo do crédito mais baixo e a má política orçamental deve ser punida pelo mesmo meio, pelo encarecimento do custo do crédito que lhe é concedido. Assim se gratifica o Bem, assim se penaliza o Mal.”

Como se ilustra por esta síntese, como se ilustra pelas políticas seguidas na Europa nestes últimos anos e pelas consequências terríveis já claramente manifestadas por toda a Europa, o liquidacionismo está bem vivo nas mentes e nos actos destes senhores que dominam a Europa e terão talvez o sonho de quererem ser o exemplo do que fazer à escala do mundo.

Mas entre 1929 e agora há já passado   mais de três quartos de século, está  o desenvolvimento da ciência económica, há o desenvolvimento das técnicas de apoio a que a Economia recorre, há todo um processo civilizacional que gerações e gerações de gente honesta e empenhada foi construindo e com ele aprendendo,  há todo um saber que em 29 e de acordo com Brad Delong não existia, há um antes e depois de Keynes, que estes senhores liquidacionistas modernos estão rigorosamente a ignorar e a silenciar. Fazer o que estão a fazer, ignorar os conhecimentos com Keynes e pós-Keynes criados, ignorar os meios de resposta à crise ou melhor ainda, actuando no sentido de a aumentar ainda mais, como meio de liquidação ou de punição dos “males” de que a economia estaria a sofrer é, no mínimo, criminoso. É, como no-lo diz François Asselineau, um  crime de alta traição à Europa.

O confronto do presente texto de Brad Delong com a realidade com que os povos europeus se debatem não nos permite nenhuma  uma outra leitura.

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