AINDA O DEBATE “ESPANHA, EXISTE?” – por António Gomes Marques

A ausência de Lisboa por razões profissionais impediu a minha participação no debate promovido pelo blogue «aviagemdosargonautas», onde habitualmente colaboro, embora não com a assiduidade que eu gostaria e que os próprios Coordenadores me solicitam que seja bem mais significativa, confiança que lhes agradeço. Continuo na vida activa, muito intensa, e a idade já não permite as aventuras da juventude, embora continue a não dedicar ao sono mais do que uma média de 5 horas.

Mas vamos ao nosso tema. Prometi um comentário, se possível no próprio dia em que ocorreu o debate, a um dos textos à minha escolha. Não foi possível, mas vou agora tentar mostrar que a verdade é que não me senti à altura de no debate participar pelas muitas dúvidas que em mim existem, como já terei mostrado num comentário que fiz a um texto do Carlos Loures, a que ele respondeu, resposta esta que me mereceu o que podemos chamar uma tréplica.

Confesso a minha simpatia por todos os movimentos que se opuseram ao regime fascista de Franco, confesso que me entusiasmei com o assassinato de Carrero Blanco, eu a quem a palavra «matar» causa horrores, em 20 de Dezembro de 1973, num atentado da ETA em Madrid. Havia em mim um sentimento de que o que era feito contra Franco também atingia Salazar e a actividade dos militantes anti-Franco também ajudava na acção que, em Portugal, se ia desenvolvendo, a qual envolvia muitos de nós.

Em 1974 restabelece-se a democracia em Portugal, segue-se depois a morte de Franco e o restabelecimento da Monarquia em Espanha e não vou agora discutir se o nome do país vizinho é o apropriado, tendo-me já pronunciado sobre isso no tal comentário, Monarquia essa a que, sem qualquer problema, podemos chamar democrática.

Como vão reagir agora os vários países que constituem o que, no direito internacional, se conhece como Espanha?, perguntava eu, nesse tempo, a mim próprio, questão essa que também debati com muitos amigos. É sabido que no País Basco o terrorismo se intensificou e a reivindicação da independência era manifestada por vários quadrantes, desde os que apoiavam o terrorismo até aos que tal independência pretendiam por meios pacíficos. A nova Constituição aprovada nas Cortes agora democráticas consideram ilegal toda e qualquer ideia de independência do País Basco, da Catalunha ou da Galiza, ou seja, de qualquer parte do território que no direito internacional se considera pertencente a esse país que dá pelo nome de Espanha.

Entretanto, sem que o terrorismo deixe de actuar, os dois Estados ibéricos são admitidos na Comunidade Económica Europeia, hoje União Europeia e já com 27 membros, ou seja, com mais do dobro dos com que ficou aquando da adesão de Portugal e Espanha.

Outras questões se me colocaram enquanto os anos foram passando: vivendo os Estados da U. E. em regime democrático, como se justifica a acção terrorista no País Basco? Quando falamos de País Basco a que território nos referimos – o que está incluído no país chamado Espanha ou no território que também inclui a parte incluída em França? E Navarra?

Começa a complexidade a tornar-se evidente. Esta complexidade até na linguagem se manifesta, como podemos verificar ao analisar uma só palavra: abertzale. Para os bascos e de acordo com a Academia da Língua Basca, a palavra significa patriota; para um movimento político e social, significa nacionalista radical. Para verificarmos a complexidade que uma simples palavra provoca, lembro o que nos conta Gregório Morán, no seu «Prólogo tras veinte años y un día» à obra da sua autoria «Los Españoles que Dejaron de Serlo» (ed. Planeta, Janeiro de 2003), que mostra que a complexidade é ainda maior, como se comprova no que do «Prólogo» transcrevo:

“Todo abertzale hablaba de Euskadi y todo nacionalista tradicional se refería a Euzkadi. La esse o la zeta eran fundamentales. En 1981, Teo Uriarte, condenado a muerte en el Proceso de Burgos, líder luego de Euskadiko Ezkerra y hoy cuadro político del Partido Socialista vasco, siendo líder abertzale, es decir, cuando Euskadiko Ezkerra competía com Herri Batasuna, me hizo la seguiente pregunta: «¿El subtítulo de tu libro, Euskadi 1937 – 1981, irá escrito com esse o com zeta?» Le respondí que no lo había pensado todavía, y era verdad, no se me había ocurrido pensar en la esse o la zeta. «Te lo digo añadió porque yo, un libro que lleve escrito Euzkadi com zeta, no lo leo.”

Hoje é já indiferente escrever a palavra com esse ou com zê, “Las palabras en el País Vasco cambíam más que las personas, porque cambian hacia atrás, hacia el pasado”, acrescenta G. Morán, “(…) las palabras, como se lleva diciendo desde hace muchos siglos, sirven especialmente para enmascarar la realidad o para ocultar el debate. ¿Y por qué cambian las palabras si el fondo siempre es el mismo? (…) ¿por qué cambian más las expresiones que las formas en que se expresa la violencia política?”

Mas atentemos no que escreve Iñaki Anasagasti, Senador, membro do Partido Nacionalista Basco, no seu blogue:

«Añadir la connotación radical persigue desvirtuar, criminalizar y descalificar lo que ha sido el “movimiento abertzale” a través de la historia del siglo XX, mucho antes de que existiera ETA.
Es mi parecer, que este tipo de desinformación, deliberadamente mal intencionada persigue que todos aquellos que somos abertzales, es decir que tenemos un sentido de nacionalismo vasco, que aspiramos a la independencia de Euskadi y a lograr integrar el pueblo vasco: Euskalherria, separados por arte de la fuerza, estrategias y componendas políticas, entre dos Estados ( Francia y España ) y dos comunidades autónomas ( Nabarra y País vasco ), en un solo estado seamos, por manejos de la información, incluidos bajo el termino radical. Esto forma parte de la estrategia a hacer creer al mundo que: todo abertzale, aquel quien cree en la patria vasca, es ETA y por lo tanto puede ser perseguido.
Soy abertzale, censuro cualquier tipo de violencia, la de los movimientos armados y la de los estados, incluida la violencia verbal y la del manejo perverso de la información.»

Mas não mudam só as palavras, os comportamentos também vão mudando, não sabendo eu se as atitudes também mudaram. A minha esperança para Euskadi está agora na coligação política basca, que reúne a esquerda regionalista e separatista, o Euskal Herria Bildu, que vem crescendo eleitoralmente e que aparece como defensora do jogo democrático, não advogando, portanto, o terrorismo como via para a independência.

Outros factos há que não podemos esquecer, quando falamos do País Basco. A sua população ronda os 2,2 milhões de habitantes, o que significa que tem uma densidade populacional superior à média do estado espanhol, ocupando este território desde o Paleolítico, afastando, ao longo dos séculos, todos os seus inimigos, até à sua integração em dois estados, a França e aquele que dá pelo nome de Espanha, conseguindo o que está incluído em Espanha o seu primeiro estatuto de autonomia em 1936, que a repressão fascista do regime franquista fez desaparecer. Hoje, de todas as Comunidades que constituem Espanha, é a que possui a maior autonomia, tendo na sua língua um factor de unidade que nem Franco conseguiu destruir, a qual não tem qualquer parentesco com nenhuma das línguas europeias.

Pergunto: não serão razões suficientes para a independência do País Basco?

Volto à posição que sempre defendi. A decisão pertence ao Povo Basco, que deve pronunciar-se democraticamente, decisão essa que eu respeitarei. Por muito agradável ou não que essa decisão vier a ser para mim, não me sinto com o direito de dizer que deve a mesma ir num sentido ou noutro. A complexidade é tão grande, sobretudo para quem não é basco nem vive no país como eu, que seria irresponsável da minha parte dizer qual o caminho que os bascos devem seguir. O mesmo direi para a Catalunha e para a Galiza.

Mas o que quero dizer não fica completo com o que para trás está escrito.

Sou um defensor da União Europeia, mas não desta que agora temos, que mais não é do que uma plutocracia. Ora, os senhores do dinheiro que a dominam, servindo-se de uma nova classe até há pouco não registada pela história, que é a classe política, distribuída por agremiações a que chamam partidos políticos (as excepções confirmam a regra!), constituída, na sua maioria, por gente que Ana Luísa Amaral muito bem define no jornal Público, de 12 de Janeiro de 2013, dizendo que «(…) não se trata de pessoas inexperientes ou impreparadas, que a maior parte deles cresceu, sem muitas vezes saber o que era o trabalho real, nos partidos políticos, que sabem o que estão a fazer. E o que fizeram neste último ano e se propõem continuar a fazer é a destruição das vidas de pessoas de carne e osso, já de há uns anos para cá vistas como meros números.
Esta destruição tem vindo a ser preparada, paulatinamente, a nível europeu, se não a nível mundial, tendo começado com as políticas estado-unidenses da ultraliberalização.»

Ora, sendo esta a conclusão a que eu queria chegar, o que temos de procurar fazer agora, nós, povos europeus, é criar uma unidade que nos permita destruir esta classe política e construir uma Federação Europeia onde a verdade seja uma busca constante, de verdade em verdade, sem impor uma seja a quem for, onde a vida se possa construir no respeito por valores, pelo outro e pela diferença, que nos leve, pelo menos a todos nós europeus, a compreender que a actividade humana tem que ser tomada como actividade objectiva no sentido em que não é apenas capaz de intervir no real como também de transformá-lo.

Construída esta nova União Europeia, que será um exemplo para o Mundo, então veremos que diversidade poderá existir nesta unidade.

Portela (de Sacavém), 2013-01-13

3 Comments

  1. Meu caro António, permite-me que te diga que nos ofereceste aqui um excelente artigo, com um um testemunho interessante e opiniões sinceras, Nomeadamente, o que dizes sobre esta classe política (chamemos-lhe assim) que nos governa, que é uma burocracia no pior sentido da palavra, ao serviço do grande capital, é a pura verdade, e é algo que é preciso ter sempre presente. Quanto à questão do País Basco, se é verdade que houve excessos muito graves da parte da ETA, há que reconhecer que o grande problema foi realmente a posição do estado espanhol (o reino de castela!), totalmente centralizadora, e no sentido de esmagar o independentismo, e que contribuiu muito para atiçar a violência. E permite-me que discorde sobre o carácter democrático da monarquia espanhola.

  2. Caro João
    Sobre o que é (deve ser) a democracia foi tema que já debatemos e onde fui claro quanto ao meu conceito de sociedade democrática e, em rigor, tendo em conta essa minha posição, podemos dizer que a Monarquia Espanhola não é uma democracia; no entanto, há também que pensar que outra classificação podemos dar-lhe. Para a actual situação portuguesa, não hesito, dizendo claramente que temos um governo (com minúscula!) para-fascista, única forma política de o classificar a não ser que me encontrem outra mais correcta. Podemos dizer o mesmo do governo (também com minúscula) de Espanha? Apesar da acção que este governo vem desenvolvendo, penso que não e, então, vi-me forçado a considerar a Monarquia Espanhola como democrática. Mais apropriadamente será democrática, por exemplo, a Monarquia Sueca.
    Neste momento, como ali digo, o que mais me preocupa é não ver como construir a unidade europeia de que necessitamos, sem a qual não conseguiremos eliminar esta tirania plutocrata e a tal classe política que a serve. Depois de isto conseguirmos, teremos então oportunidade de respeitar a diversidade existente na unidade de que não deveremos abdicar.
    Para atrapalhar um pouco e mostrar a complexidade em que estamos envolvidos nesta Europa que eu quero Federal, deixo-te uma questão: foi o Kosovo uma independência justa?

  3. Para classificar este governo (com minúsculas) não há outra forma mais correcta: é mesmo para-fascista. A principal doença da “democracia ocidental” (mesmo nos seus melhores exemplos) é não saber defender-se a si mesma. E a Liberdade (com maiúscula) nunca estará adquirida em definitivo enquanto os governantes forem meros servos do dinheiro, cujos detentores têm como ideologia básica que “tudo se compra”… Até um dia.

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