REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Carta aberta a um Presidente qualquer na União Europeia, a François Hollande, o seu primeiro destinatário a quem terá sido entregue e em que, talvez,   Cavaco  Silva possa ser  o segundo.

Adaptação mínima de uma carta de Jean-Luc Schaffhauser antigo Délégué Général de CAPEC, Presidente da Academia Europeia  e enviada a François Hollande

Por Júlio Marques Mota

(conclusão)

 Parte II

4.  Um programa europeu de retoma económica da Europa pelo investimento rentável. O ataque sistemático da finança [à economia, à sociedade], feito por todos os responsáveis políticos europeus, salda-se por um enorme presente feito à finança , através da criação monetária do BCE, de 1200 milhares de milhões  de euros e 1000 milhares de milhões em facilidades de pagamento. A criação monetária do BCE tem servido para  a diluição da dívida dos bancos, não para a criação de novas riquezas. Tem-se assim assistido à criação de falsa  moeda  para salvar o sistema financeiro. Ao contrário, nós propomos a criação monetária para se criarem  novas riquezas.  A Itália, Espanha, Portugal e a Grécia irão  apoiar uma iniciativa como esta, solicitando ao BCE uma criação monetária de 500 mil milhões de euros com uma extinção desta massa monetária  sobre um período  de 10 anos por reembolso através de projectos rentáveis no âmbito de um plano de retoma económica da União Europeia suscitado pelos grandes bancos públicos. Os sectores  de intervenção  serão a economia da energia, as infraestruturas de transportes rentáveis  entre as quais  o do  transporte rodo-ferroviário, os sectores de futuro como o carro eléctrico, a agricultura biológica, as habitações ecológicas  combinando apoios pelo lado da oferta e pelo lado da procura, através de  empréstimos a taxa de juro zero.

5.    E, por fim, duas notas pessoais,  senhor Presidente Aníbal Cavaco Silva:

5.1   sabemos agora que nas costas da Democracia e por um daqueles erros trágicos que desde o tempo de Péricles podem acontecer, um bando de garotos e de vendilhões do templo alcançou o poder no nosso país, e estão agora ao assalto do que nos resta de Democracia e de cidadania, apoiados por alguns elementos do FMI e por nós bem pagos, sem sequer se questionarem com os textos do seu economista-chefe Olivier Blanchard, e em que as suas ambições de destruição nos fazem  lembrar também os liquidacionismos dos anos de 1930. Um apelo daqui lhe faço, um apelo pela Internet lhe transmito, tenha dois gestos de coragem, demita-os, provoque eleições gerais, por um lado e, por outro, desafie as Instâncias Europeias a colocarem em toda a Europa a sua política de austeridade a referendo, assim com os Tratados recentes que amordaçam em política económica cada um dos países membros e os deixam  indefesos face à barbárie dos mercados de capitais e à dos seus auxiliares, as agências de rating,  com  a sua ausência de responsabilização  por todos os estragos a que deram origem e de que não são punidos: somo-lo nós, em vez disso. O país merece que assim seja feito, isso estou seguro.

5.2  Senhor Presidente sabemos hoje que uma política industrial que se reassuma na Europa estará ligada a uma política comercial condigna que salvaguarde e de forma equitativa os interesses da Europa face ao mercado mundial, relativamente ao qual ela foi abolindo as suas próprias defesas. Possivelmente exige-se uma posição de força na Organização Mundial do Comércio e sabe-se também que do lado dos Estados Unidos e do seu Presidente Barack Obama, encontrará um aliado de peso. Não se hesite em forçar as cúpulas de Bruxelas a darem esse passo importante sem o qual a Europa corre o risco de se tornar um cemitério de indústrias destruídas, mortas. A este nível  aconselho-lhe,  para ganhar força  nesta posição difícil,  que leia o recente trabalho publicado sob a égide do FED,  The Surprisingly Swift Decline of U.S. Manufacturing Employment, de Justin R. Pierce, Peter K. Schott, NBER Working Paper No. 18655, Dezembro de 2012 e que é bem ilustrativo das razões que estão por detrás da perda de empregos nos Estados Unidos e as razões, senhor Presidente Cavaco Silva, essas, são as mesmas na Europa.

Senhor Presidente, o nosso país deve ultrapassar, nos anos que aí vêm, muitos, mas mesmo muitos obstáculos.  O nosso país irá precisar de todas as suas forças e do empenho das suas elites – recolocadas no bom caminho, o caminho da responsabilidade social através da participação dos seus trabalhadores e através do investimento – para apoiar  uma oferta mais competitiva ao mesmo tempo que  se apoia uma procura interna orientada para produções que se pretendem  preservar assim como virados também para as do futuro, em vez de se fazer o que se está a fazer, a dar cabo da procura interna. As políticas industriais devem assumir o seu papel, a sua importância ao nível europeu [e pelo menos ao nível que já tiveram]. Cabe-nos, a todos nós europeus preparar esse caminho. Se isto se tornar impossível, a nível europeu, as medidas nacionais no quadro de  cooperação reforçada, serão  necessárias e o nosso país deve também saber incentivá-las. Todos nós iremos estar ao lado do nosso país  e, portanto, do seu lado se no seu cargo se empenhar e colocar em prática  estas reformas necessárias para a sobrevivência da nossa indústria e assim da nossa economia igualmente  mas também para a sobrevivência da Europa.

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[1] Flash Economie, RECHERCHE ECONOMIQUE, Natixis, Flash économie787, de 16 novembre 2012 : pourquoi le multiplicateur budgétaire est-il apparemment très élevé dans la zone euro ?.

[2] Nota pessoal.  Veja-se também FMI, Outlook, Outubro de 2012 ;  Fiscal Adjustment in IMF-Supported Programs (2003) ; independent Annual Growth Survey, First Report, 2013; Growth Forecast Errors and Fiscal Multipliers, Olivier Blanchard and Daniel Leigh, Janeiro de  2013.

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