1924 – Salazar em grande actividade
Em princípios de 1924, a 15 e 16 de Janeiro, Salazar iniciava a sua colaboração no órgão do episcopado Novidades, com dois artigos sobre «O ensino e as suas despesas»; e em Março, a 12, publicava no mesmo jornal outro sobre «Rendimento em moeda estrangeira».
Em 21 de Fevereiro, o director da República fala nos democráticos como «o partido dos escândalos: não há dia em que não surja um escândalo. Mas ainda não vimos, na cadeia, nenhum ladrão».
Congresso do partido democrático de 25 a 27 de Abril sem críticas ao governo. O governo convida Afonso Costa para embaixador em Londres, mas este cargo acabará por seu ocupado por Norton de Matos, depois da recusa daquele. Norton de Matos abandonara o cargo de alto-comissário em Angola, alegando razões de saúde.
Em 7 de Maio Gomes da Costa regressa a Portugal de missão de serviço à Índia e a Macau, com uma visita à China. Partira de Lisboa em Agosto de 1922. De regresso, em entrevista ao Diário de Lisboa diz que o ministério das colónias é «uma súcia de idiotas.». A questão é discutida no parlamento no dia 8. Mariano Martins, o ministro repele a insinuação. Gomes da Costa diz que não fará nenhum relatório porque «ninguém lê relatórios».
A 4 de Julho, Salazar deslocou-se a Braga para participar no Congresso Eucarístico Nacional, onde discursou sobre «A Paz de Cristo na classe operária pela Santíssima Eucaristia».
Participava desta forma, na vida política através das intervenções de cariz católico.
Em que consiste a «Paz de Cristo»?
«Por uma espécie de reacção contra um conceito demasiadamente depreciativo do trabalho manual, o operariado foi naturalmente levado também a exagerar o valor do esforço que fornece na obra de criação de riquezas de que vive a colectividade. A ideia de que só ele trabalha e produz, vivendo as outras classes da população parasitariamente do seu esforço, cuja maior utilidade não usufrui, é corrente na classe operária e é atentatório da própria civilização que a deixemos firmar-se. A hierarquia dos trabalhos concorrentes na produção, directamente ou indirectamente, é desconhecida, ou pelo menos é negado o seu direito a provocar uma gradação nas retribuições.
Esta hierarquia – trabalho de invenção, de organização, de direcção e de execução – ao mesmo tempo que traduz uma necessidade intrínseca da produção material, é reflexo da desigualdade natural de aptidões individuais, que a sociedade não pode nem deve contrariar.
O homem de Estado, o juiz, o advogado, o médico, o sacerdote, o artista, o professor, o sábio não são apenas flores ornamentais duma civilização de mentira; trabalham para criar aquelas condições morais, sem as quais a produção seria indiscutivelmente inferior. A ordem, a justiça, a beleza, a ciência que aumenta o poder do homem sobre a natureza e as suas faculdades criadoras, não são riquezas materiais; mas sem elas a produção não seria tão abundante nem tão valiosa.
A ideia da importância exclusiva ou dominante do trabalho material, desacompanhado daquelas condições que a organização política e o espírito humano foram criando, é pois mais que uma ilusão, como há pouco lhe chamei, é uma ideia de morte, não já para aquilo que chamamos a nossa civilização, mas para o futuro da produção das riquezas, em que já está directamente interessada a classe operária.
Vejamos agora as ilusões do operariado acerca da riqueza. Deixemos os homens ricos, que, para já, nos não importam, e examinemos a riqueza em si e nos benefícios que presta. Se me fora permitido caracterizá-la na sua acção económica por elementos morais, dir-vos-ia que há uma riqueza egoísmo e uma riqueza sacrifício e dedicação. A primeira é a riqueza destinada ao consumo, à satisfação de necessidades naturais ou artificialmente pela civilização. A segunda é a riqueza que se destina às novas produções, ao maior enriquecimento da colectividade.
Esteja na mão de particulares, ou na mão de sindicatos, ou na mão de pequenas circunscrições territoriais, ou na mão do Estado, esta riqueza é a cristalização dum trabalho acumulado por séculos, e é garantia de produção futura, directamente proporcional à sua importância. É uma riqueza que para constituir-se precisa previsão e exige sacrifício – o sacrifício dum apetite presente que a consumia, a uma produção futura que a aproveita, e a previsão do peso das necessidades futuras em comparação das necessidades presentes. Essas qualidades de sacrifício, de dedicação, de renúncia exigem o homem sob estes aspectos superior, porque tais qualidades não se encontram no vulgo e muito menos na multidão.
Figuro este homem rico, mas rico produtor, como uma espécie de administrador de bens dum incapaz, tornando fecunda a riqueza pela sua acção, pela sua iniciativa, pelas suas qualidades de dirigente e de chefe.
O que convém a todos é que não deixe apodrecer na improdutividade a riqueza que possui e a converta em instrumento de trabalho, e a valorize, e a fecunde, e com ela produza mais riqueza de que todos aproveitem.
E o que disto concluímos opõe-se assim directamente à primeira ilusão da classe operária quanto à riqueza; toda a organização económico-jurídica que, confiando-a ao Estado, deixe afinal ao alcance dos apetites de todos a riqueza produtiva, terá por efeito imediato desviá-la para o consumo, inutilizá-la, diminuí-la e provocar a miséria final da colectividade.
Por outro lado, afastada a miséria e ainda a extrema pobreza, para cima duma certa mediania, a riqueza só exerce uma atracção irresistível, porque nenhuns limites morais pomos ao seu consumo, e poucos limites jurídicos o Estado põe à sua utilização. Mas exactamente essa ausência de limites é inimiga da paz, e nunca a riqueza, sob esse aspecto, deu a felicidade a ninguém. Vem atrás dum desejo outro desejo, nascem umas aspirações da satisfação doutras, alimentando uma ambição sem limites, como uma bebida misteriosa que tivesse por efeito tornar mais e mais ardente a nossa sede.
Estas grandes ilusões, meus senhores, da riqueza e do trabalho são no entanto a alma da finalidade que se propõe a classe operária com a revolução social. Mas conquistar o poder e exercer o poder para transformar em preceitos de lei perfeitas ilusões, que, realizadas, diminuiriam a capacidade produtiva do mundo e destruiriam bases firmes de estabilidade social, não é arredar conflitos, é multiplicá-los; não é buscar a paz, é até mais a guerra; não é conquistar a felicidade, é aumentar a miséria e a dor.
Se ao menos a posse do poder fosse em si um bem! Mas a experiência demonstra e a natureza das coisas exige que só uma minoria governe, e a mesma experiência tem mostrado que não é mais doce, para os que os elevaram, a mão de ferro dos novos dominadores.».
