
II
À pergunta do fabricante de Donas Alziras, Silva, muito embatucado, respondera:
― Depois verão. É uma surpresa que quero fazer a todos.
Daí por diante, quando todas as noites ia fazer a sua corte, a Alzirinha puxava o noivo para o fundo dos sofás os mais recatados e, enquanto o moço cismava delícias, ela indagava com uma voz de mel:
― Onde vamos nós morar? … Bem sabes que só depende da instalação estar pronta para fixar-se o dia do casamento…
― Não demora! Vais ver! O que tem atrasado um bocado são os canalizadores.
A verdade é que o pobre Silva passava os dias correndo Lisboa de uma ponta à outra à procura de casa e não encontrava nada que lhe servisse. Aqui para nós, o pai do Silva não era rico e a tal tia da Boa Morte estava para lavar e durar. De resto, já tinha feito testamento e deixava o prédio à Irmandade das Filhas de Maria da freguesia do Socorro.
Silva tinha, em resumo, o seu ordenado para viver e, nestas condições, nem podia pagar vinte contos de trespasse nem oitocentos escudos de renda mensal.
A coisa estava preta. A D. Alzira ia emagrecendo; a mãe , farta de dar chá e torradas ao Silva, já lhe mostrava mau modo e o pai, esse, de quando em quando, rosnava:
― Então quando é esse famoso casamento? Olhem que a vizinhança já murmura!
― Falta só porem as campainhas eléctricas, explicava o noivo.
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Uma vez que Silva vinha do Alto Pina de ver uma casa que já estava alugada quando ele chegou, o rapaz, desesperado, deliberou suicidar-se. Subiu ao elevador de Santa Justa disposto a pregar com a carcaça cá em baixo, e estar a cismar como havia de passar através da rede de capoeira que veda os suicídios, quando sentiu uma mão no ombro e ouviu uma voz dizer-lhe:
― Adeus, Silva! Então como vai isso?
Era o Costa, o Costa distraído. V. Ex.as não conhecem o Costa distraído, mas para o caso não importa. Era um velho amigo do Silva, cuja alcunha vinha dos tempos do colégio. Não se viam há quinze anos.
― Tu que fazes?
― Tinha ideias de me casar. E tu?
― Eu não, graças a Deus. Vou para África no fim do mês…
Foi como um raio de luz nas trevas do Silva.
― Vais para África? E tens casa?
― Não preciso. Vou para o interior. Tenciono dormir em cima de uma bananeira.
― Não é isso que pergunto. Tens casa aqui em Lisboa?
― Pois tenho. Não sou nenhum vadio.
― Vais deixá-la, pôr escritos? Fico com ela… Imagina que não posso casar por não ter casa. Caíste do céu, meu velho! Tu é que me vais salvar desta rascada.
― Impossível, meu caro, porque não largo a casa. Tenciono demorar-me por fora só um ano.
― Estou desgraçado! bradava o Silva, chorando nos braços do expedidor de carros de Campolide, que estava perto.
― Espera! Há talvez uma solução, disse o Costa. Não te passo a casa, mas empresto-ta durante a minha ausência. Num ano tu tratas de arranjar a tua vida e, quando eu voltar, restituis-me os meus penates.
― Oh filho! Eu era incapaz de te ficar com qualquer coisa. Obrigado! És um anjo, és o meu pai!…
E nessa noite, finalmente, D. Alzira e sua família foram informadas que o casamento se realizaria em breve, e que a casa dos noivos era na rua tal, números tantos. Claro está que o Silva não contou a verdade e como se salvara de apuros encontrando o Costa, excelente amigo, apenas com um defeito: nunca se lembrar uma hora depois do que resolvera uma hora antes.
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(continua no próximo sábado)
In Procópio Baeta – Ditos e Feitos de um Burguês Lusitano do Primeiro Trinténio do Século XX. Primeira edição, 1927, Livraria Editora Guimarães & C.ª.
