A SAÍDA NEOLIBERAL E GERMANÓFILA DO JORNAL LE MONDE

Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota 

Aos leitores de A viagem dos Argonautas: Porque deixei de comprar o Jornal  Le Monde

O  artigo abaixo traduzido não me surpreendeu mas poupou-me uma longa explicação pela falta de artigos  do le Monde colocados no nosso blog, como era meu hábito.

Leitor habitual deste jornal desde há talvez perto de 40 anos e para que não haja dúvidas vejam-se as minhas pequenas crónicas de Faro onde falava da minha deslocação diária para ir comprar o jornal Le Monde, com a ascensão de Hollande foi para mim notória a viragem neoliberal do jornal.

E a mudança de perspectivas críticas que caracterizavam este jornal  desvaneceram-se. Tratou-se de uma viragem   demasiado estranha e demasiado rápida também, porque se perdeu o sentido da critica a favor do sentido da submissão, submissão ao compromisso. Talvez mais grave, submissão ao modelo europeu, pela incapacidade de se ver a saída para o mesmo.

Por tudo isto e com muita pena minha  deixei de comprar o “meu jornal” diário de preferência, o jornal  Le Monde. E, garanto-vos, custou-me imenso fazê-lo. Curiosamente o artigo que Phillipe Murer me envia agora, explica  muito melhor do que eu o faria, estas mesmas razões.

Júlio Marques Mota

A saída neoliberal e germanófila do jornal Le Monde

Um texto enviado por Phillipe Murer

Alemanha - IV

Na semana passada, nós, franceses, comemorámos o 50º aniversário do Tratado do Eliseu entre a França e a Alemanha. Mas a amizade franco-alemã, lavada com a criação da moeda única e com  a crise que esta provocou desde há 3 anos coloca esta amizade numa situação delicada e a um nível que até agora nunca tinha acontecido .

O jornal Le Monde perde o seu latim.

Na verdade é necessário ler Arnaud Leparmentier no jornal Le Monde.  Este parece-me um pouco perdido  porque, se por um lado,  parece estar a  denunciar “o antigermanismo e a crítica contra o suposto imperialismo económico alemão”, ele diz, por outro lado,  que “é tentador eliminar a critica com um simples sinal de mão e dizer: deixa lá isso. Pelo contrário, isso indica também que ele realmente não o faz e que, portanto, admite que há uma parte da verdade nas críticas feitas à  Alemanha  e, nestas críticas,  Jacques Sapir foi, sem dúvida, um dos melhores advogados.

Em primeiro lugar, o jornalista  salienta que “as modalidades de  aplicação de Ordnungspolitik   (política económica geral) não poderiam ser feitas sob as condições alemãs”, o que também significa que a França (a partir de Nicolas Sarkozy e de Francois Hollande) cede demasiado  às exigências alemãs  mas ele também considera que a actual construção europeia permite isso. Em seguida, ele lembra  que a Alemanha tende a aplicar dois pesos,  duas medidas à escala europeia.

Na verdade, Arnaud Leparmentier lembra que “os alemães querem impor regras à escala europeia europeias, desde que a Alemanha não lhes fique completamente sujeita” e dá como  exemplo  a questão da  União bancária, em que não se incluem  as caixas de aforro  e os bancos regionais de além- Reno. Ele também salientou que a Alemanha se recusou  a aceitar as regras que ela  impõe aos outros  como se vê, por  exemplo,   no que diz respeito à  fusão  EADS-BAE pelo risco que esta fusão poderia trazer às unidades industriais alemãs

Discurso em relevo, um discurso neoliberal e contraditório

Mas esta tribuna é extremamente reveladora. Primeiro, ela mostra  um discurso totalmente neoliberal.  Em toda a introdução pretende-se mostrar o extraordinário sucesso da Alemanha na frente do emprego desde a adopção das leis Hartz e o conservadorismo dos “franceses que não realizaram as reformas de competitividade que são necessárias e que se impõem ” e responde aos que evocam os trabalhadores pobres dizendo ele que  com esse discurso se “confunde o essencial e o acessório. Assim, para este jornalista, a competitividade é o essencial e as desigualdades sociais são o acessório. E dizer que ele pensa ser uma consciência de esquerda…

De seguida, quando ele diz que “a Europa não pode basear-se no princípio de que as fábricas alemãs  são protegidas, enquanto que  as dos outros são submetidas à  destruição criadora  do capitalismo”, in fine, ele critica  a Alemanha de não fazer o suficiente  para aceitar a lei do mercado. A solução preconizada por Arnaud Leparmentier e pelo seu jornal, o  Le Monde,  ´é pois a ideia de que todos devemos portanto, submeter as  nossas economias à  “destruição criadora  do capitalismo” ! Cai a máscara: merece uma  medalha Thatcher mas em  ouro!

Claro, Arnaud Leparmentier pode tranquilizar a parte ‘social’   da sua  filosofia de “social-liberal” em entoando um remix politicamente correcto de “A Alemanha irá  pagar!” : “os alemães devem reinvestir na Europa Latina (…), caso contrário, a Alemanha enfrentará a revolta dos seus vizinhos”. Mas ao fazê-lo, ele ignora que é precisamente esta construção europeia que leva os alemães a  comportarem-se  dessa forma, ou seja,  que a Alemanha não vai pagar, e que não há nenhum plano B.

Aqui está um artigo particularmente agradável. Ao demonstrar o impasse total  no qual se encontra a Europa   e mais ainda em que se encontra também  o pensamento dos defensores desta Europa,  este artigo indica pois o cansaço,  a falta de perspectivas das nossas elites políticas   e, espera-se, a sua próxima reversão democrática.

Le coming-out germanophobe et néolibéral du Monde, texto enviado por Phillipe Murer, Membre du bureau du Forum Démocratique, Président de l’association Manifeste pour un Débat sur le libre échange .

Texto disponível em :

http://www.gaullistelibre.com/2013/01/le-coming-out-germanophobe-et.html?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+gaullistelibre+%

Leave a Reply