REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota

Parte I

Depois de ter escrito a crónica  Lembranças à volta de uma manifestação alguns dos meus amigos,  de café e de vida também,  acharam que na história  do pão se perdia um pão, na trajectória de crescimento, que havia pães a mais, pães a menos,  igualmente.

Uma semana depois recebo de Phillipe Murer, Membre du bureau du Forum Démocratique, Président de l’association Manifeste pour un Débat sur le libre échange, vários textos entre os quais a história de Isabelle K. publicada recentemente no jornal Le Monde.

Nada de especial se esta história não fosse um exemplo  vivo da trajectória   que se segue na metáfora dos pães, quando na trajectória descendente da economia, como se passa agora por quase toda esta Europa, se perde o equivalente a dez cortes de cabelo para manter  a hipótese de salvar um  pão.  Trajectória descendente que é também a trajectória da descida ao inferno que os homens no poder a muita gente obrigam.

Nesta história de Isabelle K. e nessa referida trajectória pode-se ler:

“É preciso poupar, não se toma mais o café no café, ao balcão, a 1,50 euros. Também não se convida ninguém a beber um café. Muito menos nos podemos sentar nas esplanadas para telefonar a uma amiga porque não há mais carregamentos no portátil. Deixa-se de comprar o jornal, deixa de se poder comprar  vinho,  deixa-se de comprar sumo de fruta, deixa-se de comprar sobremesas, deixa-se de comprar carne, deixa-se de comprar peixe. Muitas batatas, compram-se muitas batatas. Só se podem colocar livros a 2 euros sob a árvore de Natal. Só se fumam os cigarros que nos dão. Por falta de seguro de saúde, evita-se a ida ao médico”.

Nunca fui menino, nunca tive tempo para  o ser, comecei a sê-lo nas histórias que li à minha filha, quis continuar a sê-lo nas histórias que  lia para a minha neta, quis continuar a sê-lo numa ou outra crónica para o blog escrita, mas é inegável que, face à história de  Isabelle K,  se fica com a certeza  que, por mais que nos esforcemos em termos de imaginação a ganhar, ficaremos sempre abaixo da capacidade imaginativa que a realidade é capaz de gerar. Não há pois nenhuma ficção que em ficção ultrapasse a realidade, este real dos tempos  que atravessamos, dos tempos que não queremos,  dos tempos   contra os quais é necessário e urgente que todos nós nos revoltemos.

Júlio Marques Mota

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Isabelle K. ou o jornal de uma  queda na pobreza

Marion Van Renterghem, Le Monde,  28 de Janeiro de 2013  

As pessoas, com a vida mais ou menos facilitada e sem terem que se preocupar com o dia de amanhã, as pessoas que assim vivem,  serão elas capazes de imaginar que a sua vida pode mudar totalmente, de um dia para o outro? As pessoas que têm os meios e ganharam o hábito e o gosto de ir a um restaurante de vez em quando, de fazer uma bonita viagem ou ainda de fazerem pequenas loucuras nas lojas, ou de ir ao cinema quando se sente necessidade ou desejo, que podem oferecer algumas actividades lúdicas aos seus filhos ou netos, como um fim-de-semana na Normandia, ou mesmo uma semana de esqui no inverno, as pessoas que podem fazer isto, já imaginaram que a vida, de repente, pode mudar de tal forma que fiquem sem poder fazer nada, mas nada mesmo de tudo isto ?

Isabelle

As pessoas, assalariados ou não assalariados, servidores no sector público ou no privado, diplomados, qualificados, quadros médios ou superiores, já imaginaram que podem, de repente, deixar de pertencer a esse mundo de vida agradável? Que os vossos dias feitos de muita coisa se podem transformar, de repente, no vazio mais absoluto, na falta de poder fazer seja o que for? Que a perda de um cliente, de um emprego, de uma função, de uma pequena glória ou de ter boa saúde pode fazer-vos renunciar, pouco a pouco, a tudo o que têm, a todos estes menus, a todos estes pequenos prazeres,  e a este habitual conforto que se deixou completamente de ter ? ?

Isabel K, como tantos outras pessoas, verdadeiramente, nunca tinha pensado nisso. Para ela, a vida tinha começado pela insatisfação das pessoas nascidas em meios relativamente abastados. Um avô operário que tinha acabado por criar a sua própria empresa, filha de pais burgueses, criada num meio intelectualmente privilegiado. Ela fez o seu curso de direito, como a isso são incentivados os filhos das boas famílias. Depois de um primeiro emprego como responsável pela comunicação, ela tinha criado a sua própria Agência, em 1995.

O negócio correu bem. A jovem empresária empregava vinte e cinco empregados e ganhava cerca de 8 000 euros mensais, e em que assim bem poderia mimar os seus três filhos e um marido, fotógrafo de profissão, um pouco boémio e de rendimento incerto. Eles alugaram por 2.500 euros mensais um excelente apartamento de 160 metros quadrados na rua Oberkampf em Paris, num bairro de gente de vida abastada, gastando sem excesso, indiferente à posse de propriedades. Em vez de imobilizar o seu capital na compra de uma casa, preferiram férias de esqui e viajavam para destinos longínquos em família, uma vez por ano. Viet Nam, Uzbequistão, Tailândia, Egipto, Mali, Roménia…

(continua)

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