A RESIGNAÇÃO DE BENTO XVI PODE TER CAUSAS INCONFESSÁVEIS

Há dias atrás, publicámos artigos sobre um escândalo financeiro no Vaticano – a descoberta de um fundo criado por uma doação de Mussolini. Hoje, do nosso amigo, o argonauta Adão Cruz, recebemos este artigo de Eduardo Febbro – Adão Cruz antecede o texto do seguinte recado:

Não deixem de ler, por amor de deus!

Embora tudo isto seja do meu conhecimento desde há anos, não deixa de me dar náuseas e revolver as minhas entranhas.

Desde Avro Manhattan a Gianluiggi Nuzzi, passando por Eric Frattini, David Yallop, Pepe Rodriguez, Christopher Hytchens, Max Bright, Fernando Vallejo, Richard Dawkins, tudo li e voltei a ler. São jornalistas e escritores reconhecidos e de grande mérito, que o vaticano quis calar de todas as formas, incluindo tribunais, mas nunca conseguiu, investigadores idóneos e responsáveis, que muito passaram nas últimas décadas para nos trazer a verdade sobre este pântano lamacento do Vaticano, este antro de crimes de toda a ordem. Crimes de natureza social, política, económico-financeira, sob a mais hedionda capa de uma monumental e crónica hipocrisia, crimes com todas as vertentes imagináveis, tráfico de influências, compadrios, nepotismos, intrigas e vinganças miseráveis, colaboração em actos subversivos nacionais e internacionais, fraudes financeiras monumentais, ligações ao sub-mundo mais execrável, lavagem de dinheiro, especulações, dúbias e colossais heranças, negócios sujos no seio do mais abjecto mundo capitalista, pedofilia e outros crimes sexuais, assassinatos etc.

Por isso este texto de Eduardo Febbro mexeu comigo por ir tão directo ao cerne da podridão desta igreja que, sem qualquer pejo ou vergonha, se diz de Cristo.

A história secreta da renúncia de Bento XVI – por Eduardo Febbro

Mais do que querelas teológicas, são o dinheiro e as contas sujas do banco do Vaticano os elementos que parecem compor a trama da inédita renúncia do papa. Um ninho de corvos pedófilos, articuladores de complôs reaccionários e ladrões sedentos de poder, imunes e capazes de tudo para defender sua facção. A hierarquia católica deixou uma imagem terrível de seu processo de decomposição moral. O artigo é de Eduardo Febbro, directo de Paris.  A tradução é de Katarina Peixoto com revisão para a norma portuguesa

Eduardo Febbro

Paris – Os especialistas em assuntos do Vaticano afirmam que o Papa Bento XVI decidiu renunciar em março passado, depois de regressar de sua viagem ao México e a Cuba.

Naquele momento, o papa, que encarna o que o director da École Pratique des Hautes Études de Paris (Sorbonne), Philippe Portier, chama “uma continuidade pesada” de seu predecessor, João Paulo II, descobriu num relatório elaborado por um grupo de cardeais os abismos nada espirituais nos quais a igreja havia caído: corrupção, finanças obscuras, guerras fratricidas pelo poder, roubo massiço de documentos secretos, luta entre facções, lavagem de dinheiro.

O Vaticano era um ninho de hienas enlouquecidas, cenário de um pugilato sem limites nem moral alguma onde a cúria, faminta de poder, fomentava delações, traições, artimanhas e operações de espionagem para manter suas prerrogativas e privilégios à frente das instituições religiosas.

Muito longe do céu e muito perto dos pecados terrestres, sob o mandato de Bento XVI o Vaticano foi um dos Estados mais obscuros do planeta. Joseph Ratzinger teve o mérito de expor o imenso buraco negro dos padres pedófilos, mas não o de modernizar a igreja ou as práticas vaticanas.

Bento XVI foi, como assinala Philippe Portier, um continuador da obra de João Paulo II: “desde 1981 seguiu o reino de seu antecessor, acompanhando vários textos importantes que redigiu: a condenação das teologias da libertação dos anos 1984-1986; o Evangelium vitae de 1995 a propósito da doutrina da igreja sobre os temas da vida; o Splendor veritas, um texto fundamental redigido a quatro mãos com Wojtyla”. Esses dois textos citados pelo especialista francês são um compêndio prático da visão reaccionária da igreja sobre as questões políticas, sociais e científicas do mundo moderno.

Monsenhor Georg Gänsweins, fiel secretário pessoal do papa desde 2003, tem na sua página web um lema muito paradoxal: junto ao escudo de um dragão que simboliza a lealdade o lema diz “dar testemunho da verdade”. Mas a verdade, no Vaticano, não é uma moeda corrente.

Depois do escândalo provocado pela divulgação da correspondência secreta do papa e das obscuras finanças do Vaticano, a cúria romana agiu como faria qualquer Estado. Procurou mudar a sua imagem com métodos modernos. Para isso contratou o jornalista norte-americano Greg Burke, membro do Opus Dei e ex-integrante da agência Reuters, da revista Time e da cadeia Fox. Burke tinha por missão melhorar a deteriorada imagem da igreja. “A minha ideia é trazer luz”, disse Burke ao assumir o posto. Muito tarde. Não há nada de claro na cúpula da igreja católica.

A divulgação dos documentos secretos do Vaticano orquestrada pelo mordomo do papa, Paolo Gabriele, e por muitas outras mãos invisíveis, foi uma operação sabiamente montada cujos pormenores continuam a ser misteriosos: operação contra o poderoso secretário de Estado, Tarcisio Bertone, conspiração para empurrar Bento XVI para a renúncia e colocar em seu lugar um italiano na tentativa de frear a luta interna em curso e a avalanche de segredos, os vatileaks fizeram afundar a tarefa de limpeza confiada a Greg Burke. Um inferno de paredes pintadas com anjos não é fácil de redesenhar.

Bento XVI acabou enredado nas contradições que ele mesmo suscitou. Estas são tais que, uma vez tornada pública a sua resignação, os tradicionalistas da Fraternidade de São Pio X, fundada por Monsenhor Lefebvre, saudaram a figura do Papa.

Não é para menos: uma das primeiras missões que Ratzinger empreendeu consistiu em suprimir as sanções canónicas adoptadas contra os partidários fascistóides e ultrarreacionários de Mosenhor Levebvre e, por conseguinte, legitimar no seio da igreja essa corrente retrógrada que, de Pinochet a Videla, apoiou quase todas as ditaduras de ultra-direita do mundo.

Bento XVI não foi o sumo pontífice da luz que seus retratistas se empenham em pintar, mas sim o contrário. Philippe Portier assinala a respeito que o papa “se deixou engolir pela opacidade que se instalou sob seu reinado”. E a primeira delas não é doutrinária, mas sim financeira.

O Vaticano é um tenebroso gestor de dinheiro e muitas das querelas que surgiram no último ano têm a ver com as finanças, as contas maquiadas e o dinheiro dissimulado. Esta é a herança financeira deixada por João Paulo II, que, para muitos especialistas, explica a crise actual.

Em Setembro de 2009, Ratzinger nomeou o banqueiro Ettore Gotti Tedeschi para o posto de presidente do Instituto para as Obras de Religião (IOR), o banco do Vaticano. Próximo do Opus Deis, representante do Banco Santander na Itália desde 1992, Gotti Tedeschi participou da preparação da encíclica social e econômica Caritas in veritate, publicada pelo papa Bento XVI em Julho passado. A encíclica exige mais justiça social e propõe regras mais transparentes para o sistema financeiro mundial. Tedeschi teve como objetivo ordenar as turvas águas das finanças do Vaticano.

As contas da Santa Sé são um labirinto de corrupção e lavagem de dinheiro cujas origens mais conhecidas remontam ao final dos anos 80, quando a justiça italiana emitiu uma ordem de prisão contra o arcebispo norte-americano Paul Marcinkus, o chamado “banqueiro de Deus”, presidente do IOR e máximo responsável pelos investimentos do Vaticano na época.

João Paulo II usou o argumento da soberania territorial do Vaticano para evitar a prisão e salvá-lo da cadeia. Não é de se estranhar, pois devia muito a ele. Nos anos 70, Marcinkus havia passado dinheiro “não contabiliza

do” do IOR para as contas do sindicato polaco Solidariedade, algo que Karol Wojtyla não esqueceu jamais.

Marcinkus terminou seus dias jogando golfe em Phoenix, em meio a um gigantesco buraco negro de perdas e investimentos mafiosos, além de vários cadáveres.

No dia 18 de Junho de 1982 apareceu um cadáver enforcado na ponte de Blackfriars, em Londres. O corpo era de Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano. O seu aparente suicídio expôs uma imensa trama de corrupção que incluía, além do Banco Ambrosiano, a loja maçónica Propaganda 2 (mais conhecida como P-2), dirigida por Licio Gelli e o próprio IOR de Marcinkus.

Ettore Gotti Tedeschi recebeu uma missão quase impossível e só permaneceu três anos a frente do IOR. Ele foi demitido de forma fulminante em 2012 por supostas “irregularidades” na sua gestão.

Tedeschi saiu do banco poucas horas depois da detenção do mordomo do Papa, justamente no momento em que o Vaticano estava a ser investigado por alegada violação das normas contra a lavagem de dinheiro.

Na verdade, a expulsão de Tedeschi constitui outro episódio da guerra entre facções no Vaticano. Quando assumiu seu posto, Tedeschi começou a elaborar um relatório secreto onde registou o que foi descobrindo: contas secretas onde se escondia dinheiro sujo de “políticos, intermediários, construtores e altos funcionários do Estado”. Até Matteo Messina Dernaro, o novo chefe da Cosa Nostra, tinha seu dinheiro depositado no IOR por meio de laranjas.

Aí começou o infortúnio de Tedeschi. Quem conhece bem o Vaticano diz que o banqueiro amigo do papa foi vítima de um complô armado por conselheiros do banco com o apoio do secretário de Estado, Monsenhor Bertone, um inimigo pessoal de Tedeschi e responsável pela comissão de cardeais que fiscaliza o funcionamento do banco. A Sua destituição veio acompanhada pela difusão de um “documento” que o vinculava à divulgação de documentos roubados ao papa.

Mais do que querelas teológicas, são o dinheiro e as contas sujas do banco do Vaticano os elementos que parecem compor a trama da inédita renúncia do papa. Um ninho de corvos pedófilos, articuladores de complôs reaccionários e ladrões sedentos de poder, imunes e capazes de tudo para defender a sua facção.

A hierarquia católica deixou uma imagem terrível de seu processo de decomposição moral. Nada muito diferente do mundo no qual vivemos: corrupção, capitalismo suicida, proteção de privilegiados, circuitos de poder que se autoalimentam, o Vaticano não é mais do que um reflexo pontual e decadente da própria decadência do sistema.

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