EUREKA, EURECA, …EUROCANULAR ?, CRISE DO EURO. Por Christian Gomez

Selecção, tradução, adaptação e nota introdutória por Júlio Marques Mota

Nota Introdutória

Este texto traça as linhas gerais de como um pais deve ser colocado em saldo nos mercados internacionais, vendido à China, a Singapura, às máfias russas, porque não, vendido aos clientes da Goldman Sachs, também.

Este texto fala de um relatório que foi  concebido para a Grécia e o autor adapta-o à França. Sugerimos ao leitor que faça o mesmo exercício e que o adapte, então, a Portugal. Percebe-se então que Bruxelas, a Troika, Mário Draghi, são os grandes leiloeiros desta Europa martirizada colocando-a ao desbarato face aos mercados. O resto, os governos nacionais,  são  simples ajudantes nos leilões em curso. 

Repito: sugiro então o exercício acima referido e forças à imaginação mas  quanto ao resto uma enorme contenção afectiva: não chore. 

Júlio Marques Mota

 

Eureka, Eureca… Eurocanular ! CRISE DE L’EURO

Texto escrito por Christian Gomez e re-publicado por André-Jacques Holbecq   

Algumas reflexões sobre um plano « milagroso » proposto por um Gabinete de Consultores

….

Roland Berger consultores (RBC), uma  muito prestigiada empresa de além Reno, não era muito  conhecida fora da Alemanha. Agora, está feito,  é bem conhecida,  e isto terá sido  provavelmente o objectivo final da elaboração deste plano, sem dúvida feito muito rapidamente mas com brio,  para “salvar” a Grécia e o euro graças a uma luminosa ideia  embora não muito original: a venda maciça de activos para rapidamente reduzir, amortizar  pelo menos uma parte da dívida,. Uma vez que isto assim seja feito, tudo se torna então muito  simples, realmente muito simples, finalmente quase…

Para deixar a ideia bem clara, transpomos-la para a França (deixamos à imaginação do  leitor português a transposição do presente texto para o caso de Portugal)  uma vez que, ela também, pode enfrentar problemas semelhantes, dado estar  com uma dívida que   já  chegou a 86% do seu PIB. No plano do gabinete de consultores  RBC, é tudo muito simples, é necessário vender tudo o que poderia ser vendido  para atingir um nível aceitável de dívida que se tornaria assim num volume mais pequeno e portanto gerível. Então imaginemos que vamos colocar à venda: primeiro, todas as participações do Estado nas  sociedades cotadas (o mais simples), e então seria SNCF,  RFF (rede Ferroviária de  França), CEA, os portos, entre os quais o de Marselha, as sociedades de transporte marítimo , como a SNCM,… e, porque não?, os museus (Pompidou, o Louvre),… os castelos a visitar,… enfim o que seria susceptível de gerar receitas no futuro e que, portanto, tem um valor em  capital ( não sabemos  se RBC sugere também a venda das obras de arte ) e em que, estas  obras de arte, como cada uma tem um valor de uso instantâneo poderiam  dar boas receitas e  imediatamente.  É fácil perceber imediatamente que, por trás desta lista  à Prévert, cada activo  apresenta  problemas específicos: (1) há aqueles   crónicos que são “loss makers”   cujas perdas não desaparecem de um dia para o outro e que apenas poderão ser eliminadas   sobre  um período de tempo mais ou menos longo, (2)  pessoas que são protegidas por uma miríade  de estatutos   sólidos como betão   e consequentemente não “ajustáveis”   a pedido, outros que têm antiguidades que  será  necessário indemnizar e (3) muitos problemas jurídicos  a resolver  … A lista dos activos gregos a vender  não é  enumerada  pela RBC, nem o método de cálculo quer do valor dos activos quer  de todos os custos que lhes estão ligados, mas é fácil supor que tudo isso foi feito com valores bem por alto , digamos, a uma taxa de  50%… com um objectivo específico:  que seja suficientemente  “caro” para se aproximar do objectivo  pretendido  da redução da dívida e sem que isso signifique  vender toda a Grécia ‘útil’ (para os financeiros, é claro)

Passemos agora a uma análise mais detalhada e mais centrada sobre a Grécia, distinguindo 5 pontos.

(1) O nível de partida da  dívida: RBC parte do nível actual de 145%, como se a conclusão da venda para uma ‘holding’ Europeia se pudesse fazer de um dia para o outro.  Como  o mostraremos em (2), é altamente improvável e é melhor  considerar  o mínimo de 1-2 anos, ou seja  então um nível do rácio dívida / PIB mais próximo de 150/160 (ou mais) que o valor por RBC agora considerado . É claro, como bom  financeiro, seria possível imaginar um « bridge financing »  mas, dada a incerteza sobre os preços dos activos, isto  equivaleria a  mutualizar  de imediato a  dívida grega a nível Europeu contra a promessa de um valor de garantia de valor bem aleatório…

(2) O preço dos activos na transacção: ao contrário do  esquema  da  “Treuhand”[1], frequentemente citado, em que todos os activos da antiga Alemanha Oriental tinham  sido considerados a  um valor zero, uma vez que eles não pertenciam a ninguém, tratar-se-ia  aqui de entregar  os activos a uma holding detida por um consórcio de Organismos  europeus  no valor de 125 mil milhões de euros. Portanto, seria  necessário avaliar os activos e determinar o seu preço  de transferência. Para o fazer, seria necessário : (1) avaliar as rúbricas do  balanço  (ao valor de liquidação ) (2) avaliar a receita potencial da empresa  sobre  um horizonte  temporal de pelo menos 10 anos e de todas as economias, incluindo os  custos operacionais (funcionários em particular) que seria necessário realizar, (3) estimar todos  os custos de  reestruturação (indemnização dos empregados   despedidos, por exemplo )  e resolver  os problemas dos encargos derivados dos direitos à reforma . …. Em suma, seria necessário fazer um verdadeiro “business plan”, de que vai depender o preço final a pagar  por  cada um dos activos, sabendo que o preço a ser pago será:  o valor estimado dos activos – dívidas assumidas … Um pequeno detalhe que se deve ter em conta, porque pode-se supor que todas essas empresas estão enterradas em dívidas e que pode ser encontrado com frequência , após a recuperação das  contas, valores líquidos negativos. PENSO ATÉ  QUE, MESMO ENVOLVENDO TODOS OS BANCOS DE INVESTIMENTO DO PLANETA, SERIA NECESSÁRIO PELO MENOS  DOIS ANOS PARA  ESCLARECER  TODOS OS PROBLEMAS CONEXOS E TRAÇAR PERSPECTIVAS CLARAS PARA CADA UM DOS ACTIVOS SELECCIONADOS.

(3)  SUPONDO QUE ESTES PROBLEMAS SEJAM RESOLVIDOS, SERÁ  QUE O PROBLEMA DA DÍVIDA  ESTARÁ EM VIAS DE SOLUÇÃO? Embora seja certo que economias seriam feitas   sobre o pagamento de juros da dívida e dos  reembolsos, mas a dívida ainda permaneceria muito alta, em torno de 100% , ou talvez mais,  dados todos os custos gerados  pelo processo de avaliação, e que o orçamento  deve assumir , como, por exemplo,   o regime das pensões de reforma  das  empresas públicas a serem vendidas  num  contexto que permaneceria muito depressivo (ver ponto 4). É mais que  provável que as taxas de juros sobre a dívida remanescente seriam bem superiores à  taxa de crescimento da economia e  em que portanto a divida  continuaria a crescer novamente  salvo se se conseguisse um excedente  primário significativo, o que, por seu lado, aumentaria ainda mais  a pressão deflacionista  num  contexto marcado pelo desemprego extremamente alto (toda a economia grega estaria  em reestruturação com enorme redução de efectivos)

 (4) A taxa de crescimento considerada após reestruturação (+ 5% contra  – 5%  ou mesmo -7% actualmente) é completamente irrealista: na verdade foi calculada para as necessidades do que se pretendia com o estudo em causa assumindo que (1) os fundos ligados à reestruturação do aparelho produtivo a  que se acrescentariam os  fundo europeus  de ajuda, desempenhariam um papel de estímulo; (2) os bancos, desembaraçados, pelo menos em parte, dos títulos públicos que eles anteriormente tinham, passariam a conceder créditos, repondo assim em marcha a máquina económica. De facto, reflicta-se um pouco: (1) o problema da não-competitividade da Grécia não seria assim resolvido. (2) a política orçamental continuaria a ser  deflacionista  com a continuação das poupanças  orçamentais e com as tentativas para fazer entrar mais receitas nos cofres do Estado . (3) os agentes económicos  numa economia em plena reestruturação teriam sobretudo tendência  a defenderem-se, a segurarem-se, aumentando as suas poupanças, o seu pé-de-meia.  ” (2) O  impacto líquido dos fundos de reestruturação seria menos importante do que  aquele que foi considerado  porque eles seriam pagos uma só vez (multiplicador bem efémero  no contexto que acabamos de descrever),  os fundos europeus  tendo,  eles, um  impacto  económico nulo  pois que eles  já existem  (3).  Além disso, seria necessário que muito rapidamente a holding passasse a ter dividendos para que ela possa reembolsar os “investidores”, os contribuintes que entraram com os 125 mil milhões já referidos.

(5)  E claro, tudo isto  sem contar com os obstáculos  sociais e com os problemas políticos: as pessoas não gostarão de ver tudo posto em causa, incluindo as suas  próprias liberdades políticas, sem reagir,   numa  Grécia que se tornaria uma espécie de “colónia” de um consórcio europeu, com “instituições” europeias  (como a  actual “Troika”, nome bastante  apropriado) , predominantemente alemãs, a darem cabo dos rins  dos sindicatos gregos. Aqui, deixemos o resto à imaginação dos nossos leitores…

No início da crise, os jornais alemães tinham sugerido à  Grécia que vendesse  todas as suas ilhas   aos  investidores internacionais e isso fez com que os  gregos ficassem fulos. Ora, este plano não é mais do  que   um “remake” da mesma ideia, apresentado agora de uma forma mais sofisticada, com o brio e o aspecto convincente que é habitual nos grandes profissionais do “Consulting “,  e Roland Berger Consulting  é um deles . Que uma tal ideia tenha podido ser levada a sério e relatada nos principais jornais e  nos outros grandes meios de comunicação como sendo  uma possível  solução milagrosa    para resolver a crise Europeia e para esmagar “os terríveis  especuladores” mostra a profundidade do desespero de alguns meios pró-europeus, mas também uma incompetência altamente problemática. Felizmente, Angela Merkel e Wolfgang Schaüble não fazem parte deste grupo de pessoas e mantêm  “a cabeça em cima dos ombros! “

Christian Gomez,  EUREKA, EURECA, …EUROCANULAR ?, CRISE DE L’EURO; texto disponível em  osonsallais.wordpress.com/

[1]  Treuhand : organismo encarregado no início dos anos 90 das operações de reestruturação  e das privatizações das empresas industrias da Alemanha de Leste.

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