A Noiva e o Navio – mensagem – poema de Susana Arins

do poemário

a noiva e o navio

nota prévia

a primeira vez que embarcas ves-te envolvida por umha vertigem de palavras estranhas. a ti, que só usaches cordas para brincar quando nena, abruma-te desconhecer a diferência entre um envergue, umha driça, umha ostaga, umha escota ou umha troça. descobres que nom há direita ou esquerda, mas couso e meo; nada cai ou é pousado, todo se arria; viras, aproas-te, orças, arribas, mas de torcer ninguém fala. ninguém leva o volante, senom a cana. umha cana que marca umha bolina, um través, um largo, umha empopada sem ti ter claro aonde é que vas. e nunca aceleras, caças ou arrias escota. escuitas a invocaçom de riços, relingas, vergas, varas, amuras, corredores, câncamos e viras louca a olhar para todas as partes unicamente vendo chismes e cousas.

caes na conta de que estás a entrar num mundo novo, a existir há muito tempo.

susana arins: confissom

mensagem

arrinco dum livro

o meu poema favorito

dobro o papel

ao meio primeiro

os inferiores cantos

vam depois ao centro

deixando umha pestana

e venha a encartar

e vai nascendo um barquinho

 

a nave de metáforas riscada

entra na garrafa escolhida

[umha dessas de vidro verde

das águas de mondariz]

e levo a garrafa comigo até sagres

ou ao pombeiro às portas da ria

e atiro a garrafa quando corre a maré

para fora

 

e agora embarco contigo

e navego os mares do mundo todos

e andamos nas correntes e ventos

juntos na viagem na aventura

eu na borda com o truel disposta

ao encontro da garrafa do barquinho

 

pois é

esquecim memorizar o poema.

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