Soprando o incêndio
Já notámos que a nobreza era geralmente desafecta a D. Pedro e o procedimento deste, na conquista e uso da regência, prestava-se à justificação de más vontades.
Apenas D. Afonso tomou o governo explodiram ódios e despeitos. O duque de Bragança, o conde de Ourém, seu filho e outros tiraram desforço de emulações e rixas velhas. Com negras cores pintaram ao jovem rei o carácter do tio. Maltratara a rainha D. Leonor, que falecera em Castela de veneno que ele mandara propinar-lhe. Assim o afirmavam, elevando a certeza certo rumor que correra. Descreviam-no ambicioso, querendo continuar a exercer predomínio ainda depois de finda a regência, ofuscando com a sua presença a autoridade do monarca. Era necessário retirá-lo da corte. El-rei dispunha-se a fazê-lo, quando D. Pedro, conhecedor da sua resolução, se antecipou, despedindo-se.
Depois vieram as reparações. Os parciais de D. Pedro foram substituídos no exercício de seus cargos. A dignidade de condestável foi tirada por el-rei ao filho do regente e dada ao infante D. Fernando.
De Castela repatriavam-se fidalgos que tinham acompanhado a rainha. Afirmavam a el-rei que ela fora envenenada por ordem do regente e que este projectara fazer o mesmo a D. Afonso V, seu sobrinho, para tomar o ceptro. O infante D. Henrique e o arrogante conde de Avranches tentaram, mas sem êxito, serenar o ânimo fogoso de el-rei. Pela sua parte, D. Pedro, vendo acastelarem-se nuvens de procela, escreveu a seu sobrinho pedindo-lhe que o não julgasse por testemunhos e induzimentos de seus inimigos, e protestava-lhe obediência.
A intriga tudo envenenava. Parece que se chegou ao criminoso excesso de trocar correspondência falsa entre D. Pedro e D. Afonso V, para os acirrarem e por tal caminho chegarem a perder o infante.
Em Outubro de 1448, el-rei escreveu ao duque de Bragança, a pedir-lhe que fosse a Lisboa, e advertiu-lhe que, como tinha de passar por terras do infante D. Pedro, seu declarado inimigo, fosse bem acompanhado, para se defender de qualquer força ou agravo. O duque partiu com mil e setecentos homens de cavalo e mais de dois mil de pé.
Avisado da marcha do duque de Bragança, D. Pedro decidiu impedir-lhe o passo à mão armada, apesar de lhe aconselharem alguns prudente dissimulação. Para este desígnio contribuiu o conde de Avranches, D. Álvaro Vaz de Almada, sempre exaltado. Consultando o infante D. Henrique, este aconselhou-lhe prudência, que deixasse passar o duque e não contrariasse o ânimo de el-rei.
Poucos dias depois, D. Afonso V mandou notificar a D. Pedro que não obstasse à passagem do duque. Tudo baldado: o infante continuava a ter por menoscabo de sua honra que o duque lhe atravessasse as terras com gente armada. O orgulho, mormente inflamado por ódios, é sempre mau conselheiro. Afinal, por indicação do monarca, o duque de Bragança evitou o encontro com as forças de D. Pedro. Desviou-se do caminho da Lousã, que levava, cortou pela serra da Estrela, parte da sua gente nela serra do Boco, e foram dar à Covilhã (1449).
Na corte, el-rei acusou D. Pedro de rebelde e desleal e decidiu ir submetê-lo pelas armas. De nada valeram as tentativas conciliatórias de D. Henrique e da rainha. Em breve se pôs a caminho com muitas tropas, que, engrossadas no caminho, atingiram o número de quatro mil cavaleiros e doze mil peões.
D. Pedro, pela sua parte, resolveu ir ao encontro de seu sobrinho, com gente armada, a pretexto de lhe pedir justiça. A sua intenção não podia ser outra senão medir-se com as forças de el-rei em batalha campal. Com mil e duzentos cavaleiros e dois mil e trezentos homens de pé, saiu de Coimbra a 4 de Maio.
Batalha de Alfarrobeira
Desfecho de Alfarrobeira
Bem estranhos procedimentos teve o infante D. Pedro e bem estranha é, portanto, a lenda de inocência e martírio que teceram em volta do seu nome. O seu procedimento com a rainha fora incorrecto, desabrido e talvez por vezes traiçoeiro. Com os sobrinhos, nem sempre se evidenciou a sua lealdade.
Deu provas evidentes de ambição e orgulho, baldas que o impeliram de Coimbra ao encontro do sobrinho. Em toda aquela questão, desde o embargo posto ao duque de Bragança, outra seria a atitude de homem prudente e de bons propósitos, e diferente era também a que lhe aconselhavam alguns dos seus amigos e o infante D. Henrique, pessoas bem entendidas em pontos de honra, como estes se compreendiam naquele tempo. Quem mais alimentava as paixões do infante era o seu amigo conde de Avranches, D. Álvaro Vaz de Almada, cavaleiro destemido na luta mas de pouco senso no conselho. Juraram mutuamente que um teria a sorte do outro, que um morreria quando o outro morresse. Assim foi.
No dia 20 de Maio, estando o infante D. Pedro com seu arraial posto, junto do ribeiro de Alfarrobeira, em sítio acomodado à defesa, veio ali encontrá-lo a hoste de el-rei em tão grande numero que pôde preparar o ataque de todos os lados.
Começava a peleja quando uma pedra de bombarda, disparada para outro alvo, foi dar casualmente junto da tenda de el-rei. O incidente foi aproveitado para inflamar os ânimos. Com fúria se lançaram as tropas reais na refrega. Os homens do infante defendiam-se desesperadamente. A mortandade era horrível de parte a parte, mas a desproporção do número decidia da sorte dos combatentes.
Pelejava D. Pedro valentemente e corria de um a outro lado animando os seus quando uma seta lhe varou o coração. Faleceu momentos depois.
Quando de tal desastre houve notícia, D. Álvaro Vaz de Almada avançou a pé contra o inimigo. Primeiro com uma lança, que lhe cortaram, depois com a espada, matou e feriu a muitos. Vencido e prostrado de tanto esforço, exclamou: «Ó corpo, já sinto que não podes mais, e tu, minha alma, já tardas.» Deixou-se cair no chão, dizendo, segundo uns: «Ora fartar, rapazes!», ou, segundo outros: «Ora vingar, vilanagem!»
Morreu trespassado de muitos golpes. Depois de morto, um seu amigo cortou-lhe a cabeça, para a levar a el-rei e a preço dela obter perdão, que foi concedido.
