CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 23 – por José Brandão

A corte de Henrique IV de Castela

A 21 de Maio de 1455 casara Henrique IV de Castela com a infanta D. Joana de Portugal, filha de el-rei D. Duarte, criança de quinze anos, morena de grandes olhos pretos. O monarca, de costumes desregrados, vivia numa corte de luxo e de prazeres, que os cronistas espanhóis descrevem animadamente com cores escandalosas.

D. Joana levara de Portugal um séquito de doze jovens fidalgas, escolhidas entre as mais nobres e mais formosas. Vivendo no luxo, na ociosidade e em divertimentos constantes, em atmosfera depravada por maus exemplos, as fidalgas portuguesas mostraram-se contagiadas. Henrique IV, brando, indolente, sem energia e sem carácter, acostumado de longe à vida licenciosa, não podia impor disciplina de costumes quando ele era o primeiro exemplo de dissoluções. Entre as jovens fidalgas portuguesas distinguia-se uma, D. Guiomar de Castro, pela formosura e pelos encantos. El-rei tomou-se de amores com ela, e do galanteio passou a mancebia. A rainha, ofendida nos seus direitos de esposa, agarrou Guiomar pelos cabelos, sacudiu-a com fúria e zurziu-a. Um escândalo, que obrigou Henrique IV a levar a amante para duas léguas de Madrid.

Os amores de Henrique IV com D. Guiomar de Castro foram apoiados e favorecidos na corte por um partido adverso à rainha. Outro partido contrariava e censurava o procedimento de el-rei. Esta divisão de partidos deu lugar a uma rede de intrigas que se cruzavam, e mantinha-se acesa pelos despeitos, pelas rivalidades na consecução de interesses e honrarias. Henrique IV alheara as simpatias da nobreza distribuindo grandes cargos e dignidades a pessoas modestas e quase desconhecidas na esperança de ganhar deste modo mais leais dedicações.

Tudo isto agravado pela ruína em que as prodigalidades do monarca lançavam o país, produziu o desprestígio da corte. Como um garboso cavaleiro, Beltran de la Cueva, desfrutasse situação de destaque, não tardou que a intriga entrasse a abocanhar a reputação da rainha. Era provavelmente dos partidários de Guiomar que partia a difamação. Quando D. Joana., casada de sete anos, dava à luz uma princesa, em 1462, dizia-se que a sucessão dada ao trono era favor de Beltran de la Cueva. Recordava-se que Henrique IV era impotente e já por esta razão se apartara de sua primeira mulher, D. Branca. Estranha acusação de impotência num homem que repudiara a primeira mulher por dela não ter sucessão e que levara vida dissoluta com amantes umas após outras!

Por seu lado, Henrique IV mostrava o seu contentamento pela esperança de sucessão. Apenas teve notícia da gravidez, mandou recolher a rainha a Madrid com todos os cuidados. Traziam-na em andas, diz o cronista, «porque viniese reposada y sin peligro de la prenez». El-rei foi ao seu encontro fora de Madrid com os grandes da corte. Logo que se aproximaram, «mandó que la pusiesen á las ancas de su mula, porque con más honra é reposo entrase en la vila hasta el alcázar donde se había de aposentar». Não poderia proceder assim quem se sentisse pai de um filho que sabia não ser seu.

Nascida a princesa, que se chamou Joana como a mãe, redobraram as afrontas e a maledicência. Chamavam-lhe la Beltraneja. A audácia cresceu ao ponto de se formar um partido de alguns prelados e nobres contra el-rei e contra a rainha. Chegaram a forçar as portas do palácio para se apoderarem da família real. De Burgos enviaram os confederados a D. Henrique IV uma representação cheia de afrontas: acusavam-no de ter feito jurar herdeira do trono de Castela D. Joana, devendo saber que ela não era sua filha, e pediam-lhe que mandasse jurar sucessor seu irmão D. Afonso.

O monarca fraquejava, não havia afronta capaz de lhe despertar um impulso de desforço. Em Ávila chegaram a depô-lo simbolicamente em efígie (5 de Junho de 1465). Chamavam rei ao infante D. Afonso. Falecido este, acaso envenenado, voltaram os olhos para D. Isabel, irmã de Henrique IV. Esta repeliu as propostas que lhe faziam e pedia que reconhecessem seu irmão. Perante as exigências dos seus inimigos, Henrique IV ainda se concertou com eles e com a infanta D. Isabel nas condições seguintes: que ele a declarava por sua herdeira, contanto que não pudesse casar com pessoa nenhuma sem parecer dela e consentimento de el-rei, e fazendo ela o contrário teria por nulo qualquer acordo e concerto. Levou-se mais longe a ignomínia: reconheceu-se a vida licenciosa da rainha como facto público e assentou-se que ela se apartaria do marido, indo para fora do reino sem poder levar a filha. D. Isabel foi logo proclamada herdeira e sucessora (19 de Setembro de 1468). O núncio, por autoridade pontifícia, absolveu os nobres e prelados de qualquer juramento que anteriormente houvessem feito noutro sentido. A rainha, proclamada solenemente a sua desonra e ruína de sua filha, protestou contra o procedimento do núncio.

Henrique IV já em 1463 pensara em sanar as dificuldades que se lhe ofereciam casando sua irmã D. Isabel com D. Afonso V de Portugal e a filha, D. Joana, com o nosso príncipe D. João. Agora arrependido e talvez envergonhado do pacto que fizera com a irmã, voltou-lhe a ideia do antigo projecto e entrou em negociações com o cunhado. Tudo, porém, foi debalde, porque D. Isabel, movida por intrigas de D. Afonso Carrilho, arcebispo de Toledo, casou com D. Fernando, filho de el-rei D. João de Aragão, sem sequer ouvir Henrique IV (Outubro de 1469). Depois do casamento realizado mandaram emissários a dar-lhe parte dele. El-rei de Castela, que estava na Andaluzia, respondeu secamente que ouviria sobre tal negócio os seus conselheiros, e como a infanta infringira daquele modo uma das cláusulas do pacto de Setembro de 1468, seu irmão tirou-lhe logo a posse das cidades e terras que pelo mesmo pacto lhe dera.

Transtornados mais uma vez os planos de Henrique IV, surgia nova solução. Luís XI, rei de França, mandou uma embaixada pedir a infanta D. Joana para seu irmão Carlos, duque de Berri e de Guiena. Fez-se o contrato, em presença da infanta e da rainha sua mãe, e mais uma vez el-rei jurou, com os prelados e nobres presentes, que D. Joana era sua legítima filha e herdeira do trono. Mas também este projecto se gorou, porque o duque de Berri morreu pouco depois, parece que envenenado por ordem do próprio irmão.

Voltou-se, portanto, à solução do casamento da infanta com D. Afonso V. Para este efeito avistaram-se os dois monarcas, em 1473, entre Elvas e Badajoz. Fernando e Isabel enviaram ali embaixadores que protestassem; todavia, concluir-se-ia o negócio se Henrique IV, sempre fraco e indeciso, tivesse satisfeito a exigência que lhe fez el-rei de Portugal de lhe dar certos lugares como penhor do contrato.

Neste deplorável estado dos negócios faleceu Henrique IV a 12 de Dezembro de 1474.

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