VITORINO NEMÉSIO – RESPONDER A CORRESPONDÊNCIA DE DESCONHECIDOS por c lara castilho

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Na véspera de 25 de Novembro de 1975,  dezasseis dias antes do primeiro número do jornal “O Dia”. que iria dirigir ( 11 de Dezembro de 75), Vitorino Nemésio respondia a um postal, decerto ingénuo, que meu irmão Manuel (então com 19 anos, mas com idade mental muito inferior) lhe escrevera. Percebemos pela resposta que ele se referia ao encerramento do programa televisivo “Se bem me lembro” que na RTP ( entre 1969 e 1975) que tinha  apresentado .

Lembro-me da existência do programa, não propriamente dos conteúdos, que nessa altura não via televisão… Lembro-me de histórias divertidas que minha irmã mais velha contava, relacionadas com o exercício da sua profissão enquanto professor na Faculdade de Letras.

Sobre a sua obra não posso falar, até porque mal a conheço. Fui navegar pela net, fiquei a saber que sua família doou o seu espólio, que existe na cidade Praia da Vitória uma Casa Vitorino Nemésio (tem por objectivo a provocação dinâmica para o estudo da personalidade e da obra,) com  ligações  ao Centro de Estudos Nemesianos da Universidade dos Açores.

Por altura do centenário de seu nascimento, Mário Mesquita escrevia “O Modelo Televisivo do Bom Observador” e afirmava “Nemésio foi o nosso maior cronista televisivo. Provavelmente, o último, porque, entretanto, o género quase desapareceu”(…) Com “formato” em que existia: um cadeirão, o espectador encarado de frente, como destinatário da conversa, a ausência de mediação por qualquer jornalista em “estúdio”. (…) Ao tempo de Salazar, predominava ainda o modelo da “comunicação” dirigida às multidões presenciais.”,(…) “visavam o invisível auditório televisivo, cada um dos telespectadores em sua casa”, transportavam para a televisão o modelo do discurso pedagógico. “Conversavam” com a nação, como o professor ensinava aos alunos.” (…) Vitorino Nemésio actuava à imagem e semelhança das suas aulas da Faculdade de Letras, que deixaram marca em sucessivas gerações de alunos, pela criatividade e erudição, mas também pelo estilo conversado, ameno, algo dispersivo, de alguém que sabia conjugar o prazer do convívio e a difusão do saber”.

39. Vitorino Nemésio

Terá sido isto que chegava a meu irmão e o fazia sentir pena de o deixar de ouvir. Neste momento, guardo os momentos que Vitorino Nemésio lhe dedicou, com um sentimento de gratidão, pois sei que lhe deu grande alegria ter recebido uma resposta. E fico a pensar como este escritor terá dedicado parte de si, para além do que nos deixou  naquilo que é público (livros, televisão, aulas)….

1 Comment

  1. Clara,
    Vale a pena ir à procura do ficcionista (um só romance, admirável – Mau Tempo no Canal – alguns contos e novelas) e notável poeta – muito mais profundo e complexo do que me parece que se quer fazer crer – Vitorino Nemésio.

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